Por Antonio Carlos Rodrigues de Moraes (Toninho) *

                            “Muito tempo depois, o rei do Egito morreu. Os filhos de Israel gemiam sob o peso da escravidão, e clamaram; e do fundo da escravidão, o seu clamor chegou até Deus. Deus ouviu as queixas deles e lembrou-se da aliança que fizera com Abraão, Isaac e Jacó. Deus viu a condição dos filhos de Israel e a levou em consideração.” Êxodo 2, 23-25 (Ed. Pastoral)

A passagem acima citada, do segundo livro da Bíblia, traz em seu bojo uma questão, não só teológica mas também politicamente interessante: se Deus, para quem nele crê, é onisciente, por que precisou esperar o gemido sofrido de seu povo para se dar conta da situação em que ele vivia e só então lembrar-se das alianças que havia feito?

Certamente há diversas respostas possíveis a este paradoxo. Há quem nos lembre que provavelmente a visão e memória de Deus possam ser aguçadas pelas ofertas substanciais ao templo ou, no entendimento dos mais puros homens de bem, a demonstração de uma vida exemplar segundo os padrões fixados nas tábuas da lei. Prefiro imaginar que o clamor pela liberdade faz parte do próprio processo de libertação, ou seja, que ninguém pode libertar quem não anseia pela liberdade.

Essa, creio, foi a principal “sacada” de Paulo Freire. Considerando que, em sua visão, a educação é processo pelo qual a pessoa aprende a pronunciar a palavra transformadora de si e do mundo em que vive, só pode existir libertação de sujeitos. A relação educativa hierarquizada, na qual existe um sujeito que só fala e um passivo que só ouve, é uma relação de conquista em que o educando se objetifica na assimilação de saberes que não lhe dizem respeito. Numa tal relação, em que o educando aprende o que nada tem a ver com sua vivência do mundo e reproduz o que lhe é imposto externamente, não há libertação mas conservação da opressão, desenvolvendo no educando oprimido um desejo compensatório de reproduzir sobre outros a mesma relação. Só pode haver libertação quando educador e educando se relacionam como sujeitos, ou seja, numa relação não hierarquizada, mas horizontal.

Embora a pedagogia freireana, em termos metodológicos, possa ser considerada herdeira do movimento da Escola Nova, creio que é um erro a sua identificação com ela, pois o método Paulo Freire não se distingue apenas pela inversão da relação educador – educando, em contraste com o chamado método tradicional, mas em especial pela dimensão em que é visto o sujeito nessa relação. Não se trata do sujeito individual e desconectado cujo desenvolvimento pode ser estudado por uma determinada psicologia, mas o sujeito considerado em seu contexto sociológico cuja identidade é plasmada no meio sócio-cultural em que vive.

O que se pode inquirir ao método freireano é sobre os limites da relação horizontal educador-educando como possibilidade da formação de sujeitos. É certo que tal formação não pode existir numa relação que reproduza a dominação, mesmo com os “conteúdos certos”, mas, há que se considerar que o quotidiano das pessoas é perpassado por uma cultura que não nasce espontaneamente de suas condições próprias de vida, mas preponderantemente introjetada por uma dominação ideológica que precede qualquer esforço de uma educação crítica. Certamente os hebreus escravos no Egito passaram muitos anos passando a seus filhos uma cultura que naturalizava o seu modo de vida escrava. Até que houve algum ponto de ruptura. Paulo Freire coloca esse ponto de ruptura na necessidade de questionamento do educador em relação ao modo de vida e aos próprios anseios de mudança do educando. Ele próprio, portanto, prevê, em seu método, certa verticalidade na relação, embora não seja impositiva mas crítica, pois envolve também o educador. Contudo, há que se terem muito claros os parâmetros desta crítica, já que não são de geração espontânea, mas também são objetos de estudo, e, aqui vemos a importância dos chamados conhecimentos acumulados que, numa perspectiva libertadora, não são objetos finais de reprodução mas ferramentas de compreensão da realidade.

Diante de tudo isso, o que significa “freirear” o PT? É certo que nas duas últimas décadas de sua história o PT se verticalizou muito no esforço, a princípio legítimo, de agilizar decisões políticas com o objetivo de ganhar eleições e abrir brechas na democracia burguesa para inclusão de projetos representativos dos interesses da classe trabalhadora. Mas, aprendemos também que essa verticalização não foi nada suficiente para construção e conservação do poder. Não construímos nenhuma preparação para o embate, na convicção de que a mudança das condições de vida dos pobres os transformasse automaticamente em sujeitos. Enquanto as lideranças políticas do Partido se digladiavam com diferentes projetos de poder, as bases se distanciavam e, fechadas nos seus problemas localizados, foram sendo conquistadas pelas correntes ideológicas adversas, principalmente nas periferias abandonadas pelo Estado. Portanto, horizontalizar é preciso, incorporando nas discussões do Partido, problemas localizados, mas, com a preocupação constante de sua contextualização. Ou seja, a relação entre horizontalização e verticalização nos esforços de educação política dos militantes do PT deve ser vista como dialética e não excludente. É certo que sem sujeito não pode haver ação libertadora e, portanto, os militantes têm de assimilar e metabolizar, como suas, as ferramentas de crítica do seu ambiente de vida, mas, necessário também ressaltar a necessidade da produção de saberes que os orientem a produzir os pontos de cisão com o senso comum nas conversas que empreenderão nos grupos de vivência, estudo e lutas.

Em suma, se as lideranças do Partido não se reconectarem com as bases, continuarão produzindo belos monólogos, talvez suficientes para vencer eleições mas não para sustentar governos, pois para isto  a retomada da organização dos grupos de base com sólida formação política serão fundamentais. Se quisermos construir um governo com um horizonte socialista, não será suficiente um ambiente participativo restrito às campanhas eleitorais, mas à formação de sujeitos revolucionários dispostos a sustentar nas lutas quotidianas as conquistas de e em nossos governos. Para isso há que se integrar toda a diversidade de problemas enfrentados pelos militantes nas bases para que as discussões teóricas mais gerais façam sentido. No ciclo de oficinas que o PT está promovendo no programa Nova Primavera, temos de saber combinar este dois movimentos: a horizontalidade das rodas de conversa ou círculo de cultura ou grupo de vivência, como se queira chamar, com a verticalidade de sólidos subsídios teóricos para a crítica contextualizada dos problemas presentes nas vidas dos sujeitos. Esta preocupação não se resume ao método, mas fundamentalmente ao que, para que e com que fundamentos vamos conversar sobre nossos problemas e sobre o que pretendemos conquistar, tendo o socialismo como horizonte.

(*) a.cromo@terra.com.br


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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