Editorial do Jornal Página 13, edição de n° 220.

Não será fácil fazer um balanço do processo eleitoral brasileiro de 2020. São eleições para escolher quem dirigirá as prefeituras e quem comporá as câmaras municipais. O Brasil possui 5.568 municípios. E cada um destes municípios tem características próprias, que um balanço precisa levar em conta. Por exemplo: a composição social, a história política regional, tamanhos de população e eleitorado muito diferentes, etc. Para dar um exemplo: em Roraima, não houve uma única candidatura do PT. A nada. O PT local se anulou. Uma pergunta é: como votaram aquelas pessoas que, no passado recente, votaram nas candidaturas do PT? Questões como essas precisam ser levadas em conta, para um balanço completo do processo eleitoral.

E por isso estamos incentivando nossa militância a fazer balanços locais, detalhados, que possam ir contribuindo para termos um quadro mais completo do processo. Esta edição do Página 13, assim como a próxima, fazem parte deste esforço. Os artigos aqui publicados, como sempre, não expressam necessariamente a posição da tendência. Mas ajudam a fazer algo que interessa a toda a tendência: compor um quadro geral da situação.

Isso é particularmente importante no caso dos 95 municípios que possuem mais de 200 mil eleitores. Dada a importância política destas cidades, é muito importante entender os motivos que levaram a “fatura” a ser liquidada já no primeiro turno em 38 municípios. Gostaríamos de saber, por exemplo, porque não houve segundo turno em BH. Ou em Salvador. Ou em Natal. E porque o PT está fora do segundo turno em Teresina e em Fortaleza.

Em 57 cidades brasileiras, há segundo turno. Em 15 delas, há uma candidatura petista disputando. É o caso de Juiz de Fora, Contagem, Mauá, Guarulhos, Diadema, Vitória, Recife, Anápolis, Santarém, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Cariacica, São Gonçalo, Caxias do Sul e Pelotas. Em outras 2 cidades, o PT fez parte desde o primeiro turno de chapas encabeçadas por aliados claramente de esquerda: Manuela (PCdoB) em Porto Alegre e Edmilson (PSOL) em Belém. E, na cidade de São Paulo, o PT apoia no segundo turno a candidatura de Boulos, também do PSOL.

Nas demais 39 cidades, há dois tipos de situações: disputas entre uma candidatura nominalmente de centro e uma candidatura claramente de direita; e disputas entre duas candidaturas claramente de direita.

Por nominalmente de centro, nos referimos a candidaturas lançadas pelo PDT e pelo PSB. É o caso de Socorro Neri, do PSB, que disputa Rio Branco; é o caso de JHC, também do PSB, que disputa Maceió; é o caso de Vitor Valim, do PROS, que disputa Caucaia, no Ceará; é o caso de Sarto, do PDT, que disputa Fortaleza; é o caso de Francisco Padilha, do PSB, que disputa a cidade Paulista, em Pernambuco; é o caso de Edvaldo, do PDT, que disputa Aracaju; é o caso de Caio Vianna, do PDT, que disputa o segundo turno em Campos, Rio de Janeiro. E há também o caso de Serra, onde disputam candidaturas da Rede e do PDT.

Algumas destas candidaturas merecem apoio no segundo turno, outras não. Pois, como sabemos, nestes partidos nominalmente de centro há muitos lobos em pele de cordeiro, que são ultraliberais no programa e que não vacilam em recorrer a métodos bolsonaristas. Vide o caso de Sarto e as violências praticadas contra Luizianne no primeiro turno; vide o que está fazendo João Campos, em Recife, atacando Lula, Dilma, Marília e o PT, com um linguajar típico do esgoto da extrema direita; e vide, também, algumas candidaturas do PSB que disputam contra candidaturas petistas, como acontece em Mauá e Juiz de Fora.

Portanto, ser de um partido de centro não quer dizer, automaticamente, coisa alguma. É preciso avaliar o conteúdo real, a prática real do candidato e seu partido na cidade em que está disputando.

Em 31 cidades, a disputa é travada entre candidaturas lançadas por partidos que estão à direita do centro. Para simplificar: partidos que apoiaram Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais. Como se posicionar nestas cidades?

Neste caso, há de tudo. Há quem procure analisar o programa das candidaturas, em busca de uma boia. Como se realmente valesse de alguma coisa o que esta gente promete em época de eleição. Há quem procure analisar o comportamento pessoal das candidaturas, em busca do mais afável. Tipo como fazem os que discutem quem é mais chucro e quem é o adulto da sala, o cavernícola ou seu vice. E há quem tente descobrir quem é o assumidamente bolsonarista, para votar no outro. Esquecendo que, ontem, todos foram declaradamente bolsonaristas. E que, amanhã, todos podem estar, novamente e declaradamente, juntos com Bolsonaro.

Boa parte desta busca do mal menor deve-se a imensa dificuldade, quase uma repulsa, que algumas pessoas tem frente ao voto nulo, ao voto branco, à abstenção. É curiosa a dificuldade, já que estas alternativas fazem parte do cardápio político há 200 anos, pelo menos. Se recusar a participar de um processo, recusar as alternativas postas, considerar que ambas são equivalentes, fazem parte do processo democrático, tanto quanto faz parte do processo democrático escolher dentre as alternativas postas.

Aliás, o sistema de voto em dois turnos fortalece a legitimidade destas alternativas (branco, nulo e abstenção). Afinal, no primeiro turno todos podemos votar no que defendemos. No segundo turno, podemos influir com nosso voto; ou podemos deixar que a decisão seja tomada pelos que estão convencidos de uma ou de outra alternativa. As duas alternativas são possíveis e são legítimas, do ponto de vista democrático. O sistema prevê exatamente esta possibilidade e não se pode dizer, por isto, que a legislação eleitoral brasileira é esquerdista ou anarquista.

A dificuldade de alguns em ausentar-se, votar branco ou nulo, deve-se provavelmente à impressão de que agir assim seria irresponsável. De nossa parte, somos contra a irresponsabilidade. Achamos que sempre devemos tomar partido. Mas tomar partido não implica, obrigatoriamente, em indicar voto em fulano ou beltrano. Até porque há várias maneiras de ser responsável (e de ser irresponsável).

Frente às duas candidaturas de direita que vão continuar desgraçando a vida da classe trabalhadora, ser responsável é saber desde já que faremos oposição a qualquer que seja o vencedor. O voto mais responsável é aquele que garante maior liberdade de ação para nossa oposição, não aquele que nos fará ouvir algo do tipo: “tá reclamando do quê, você não votou nele?”

Esperamos que a esquerda, no país inteiro, se posicione de maneira que não comprometa nosso dever de fazer oposição e de construir uma alternativa tanto ao bolsonarismo quanto à direita ultraliberal.

Os editores

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