Página 13 divulga a versão de Thiago Duarte Gonçalves, publicada em uma rede social, sobre a cisão na Consulta Popular, ocorrida recentemente. Tiago integrava a direção nacional da organização política. Os leitores interessados em conferir o manifesto da militância que retirou-se da Consulta, basta clicar aqui, bem como a nota pública da direção nacional, clicando aqui.

Por Thiago Duarte Gonçalves

O que de fato aconteceu na Consulta Popular (CP)? Passado um tempo da cisão de cerca de 80% da CP do restante da organização, tenho maior clareza sobre os motivos do racha. Amigos e companheiros vieram perguntar o que de fato aconteceu. Segue o fio que ajuda um pouco a entender.

Em cisões, é difícil existir apenas um motivo. Estou na CP faz 15 anos e estive na DN desde novembro de 2017. E já no começo de 2018 percebeu-se nessa instância uma mudança de postura de figuras históricas da organização.

Uma tensão interna nunca vista na história da CP, de maneira inconsequente. Nas palavras de um dirigente, “infernizar” foi o que de fato ocorreu. Ali começou o racha. Dentre os motivos, está a tensão na DN por 4 anos, com desqualificações, acusações e boicote às decisões da DN, quebrando-se o centralismo democrático e a confiança política.

Mas não foi só isso. Havia uma nova geração advinda da nacionalização do Levante Popular da Juventude em 2012 que não aceitava mais a ideia de secretário geral; ou era direção coletiva ou haveria questionamentos.

Mas não foi só isso. O erro da caracterização do Golpe de 2016 também foi importante. A ideia de que estava em curso uma campanha de cerco e aniquilamento estava equivocada. Essa caracterização trouxe consequências para o debate tático.

O desdobramento tático da conjuntura jamais poderia ser a concepção tática do recuo organizado e da centralidade na preservação das forças, como defendeu a minoria na DN e aplicou em alguns Estados (rompendo a nossa unidade de ação), com resultados desastrosos.

A realidade demonstrou que estava correta a maioria que aprovou a concepção tática da defesa ativa. O regime político não tinha se fechado, tendo espaço para acumulação de forças política, social e institucional.

Não tinha ocorrido, portanto, uma derrota histórica como nos alertava Valério Arcary. Entretanto, a minoria insistia no ceticismo derrotista, alimentando um clima de medo e paralisia na militância como se tivéssemos num contexto parecido com o golpe de 64.

Mas não foi só isso. A forte disputa interna na DN pelo poder político da organização trouxe como consequência a abertura de um processo congressual interno para desenvolver e resolver as profundas divergências internas. E aí ficou explícito que as divergências profundas.

Relação estratégica com a institucionalidade aliada ao trabalho de base, levando em consideração as experiências mais avançadas da América Latina e rompendo com o “zapatismo” anterior; ausência de autocrítica do papel da Consulta Popular nos últimos 20 anos na Luta de Classes; teoricismo exacerbado, delegando a materialização da linha política para os outros; relação com os movimentos sociais fundadores da Consulta Popular, em especial com fortes ataques ao MST e ao Levante por parte da minoria; e a importância da construção orgânica da campanha de Lula em 2022, acumulando numa organização popular, defendido como central pela maioria; são alguns exemplos das diferenças.

Mas não foi só isso. Estávamos todos prontos para a Assembleia em fevereiro de 2022 para fechar um ciclo. Porém, houve um fato novo.

No último seminário pré congressual, mesmo defendendo o direito de tendência numa organização pequena de quadros, os valorosos companheiros da pré tese minoritária declararam que não iriam reconhecer a DN eleita; como foi anunciado na última fala do seminário virtual, aguardamos a segunda etapa do seminário e foi confirmada a informação de que a minoria não reconheceria a nova DN que seria eleita. A conivência com isto significaria legitimar a existência de uma fração autônoma à DN, o que já existia de fato expresso no Rondó da Liberdade.

Dado este fato, a militância que apoiou a tese “Um passo à frente para a CP” (majoritária) ñ teve dúvida e avaliou que não cabia mais caminhar na mesma organização com uma fração interna que deixou evidente que não reconheceria a nova DN e, consequentemente, as próprias resoluções.

Tenho certeza que parte dos assinantes da tese minoritária não concordavam com essa postura de continuidade da disputa interna e boicote a organização pós 2 anos de período congressual. Porém, era preciso romper a caminhada conjunta para contribuirmos não luta política e esperar aqueles e aquelas valorosos lutadores a fazerem o mesmo posteriormente.

O Congresso deixou de ser um espaço para superar a crise interna e as divergências apresentadas, para ser um espaço de legitimação do fracionismo.

A partir de então, caminharemos separados; mas lutaremos juntos para combater o neofascismo e o neoliberalismo em 2022.

 

 

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