Por Valter Pomar (*)

No dia 13 de abril de 2022, o Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores aprovou, com 68 votos a favor, um documento recomendando Geraldo Alckmin como candidato a vice-presidente da república na chapa encabeçada por Lula.

O documento pode ser lido neste endereço:

https://pt.org.br/pt-aprova-coligacao-com-psb-e-chapa-lula-alckmin/

Não se trata ainda de uma decisão final, que caberá ao encontro nacional do PT convocado para os dias 4 e 5 de junho. Como este encontro é composto por delegados que elegeram, em 2019, o atual Diretório Nacional, só um fato novo pode impedir Geraldo Alckmin de ser vice.

O documento aprovado pelo Diretório Nacional foi subscrito por seis tendências: a Construindo um Novo Brasil, a Resistência Socialista, o Movimento PT, a Esquerda Popular e Socialista e a Avante PT.

Falaram a favor da aprovação do documento a deputada federal Maria do Rosário (Avante PT) e o deputado federal José Guimarães (CNB).

Rosário defendeu “retirar fração da classe burguesa do lado de lá para isolar o nazifascismo”, em defesa da “manutenção da democracia”: “para derrotar o neofascismo, adversários se unificam”.  Rosário afirmou, entretanto, que “o programa tem que ir para a esquerda”. Segundo ela, são Alckmin e o PSB que “estão somando conosco”, que Alckmin “não precisa ser uma âncora”.

Guimarães foi na mesma linha, lembrando que nossas “alianças são presididas pelo programa”, que “vamos fazer reformas profundas”. Estamos buscando “uma fração da burguesia”, mas “sob hegemonia nossa, sob comando do Lula”: “isso vai levar o PT para o lado de lá? Não, pelo contrário”, pois “não vai ter influência de Alckmin”, até porque “Lula é tudo, é o próprio programa”.

Em resumo: segundo os defensores do documento aprovado, Alckmin apenas soma, não subtrai. É a aplicação da famosa “teoria do tudo de bom”.

Na segunda parte deste relato, que será dedicada ao debate travado no Diretório Nacional sobre a carta programa da “federação” entre PT, PV e PCdoB, veremos se as afirmações de Rosário e Guimarães procedem ou não.

Voltando ao debate sobre Alckmin: falaram contra o documento aprovado Markus Sokol (O Trabalho – ver ao final mensagem recebida no dia 14 de abril as 8h16), Valter Pomar (Articulação de Esquerda) e Joaquim Soriano (Democracia Socialista, apresentando um texto também assinado pela Militância Socialista). Após a defesa, a AE informou que votaria junto com a DS.

Não dispomos do texto lido por Sokol; após a reunião, ele distribuiu uma declaração reproduzida ao final. Também ao final reproduzimos os textos apresentados por Soriano e Pomar, respectivamente.

A proposta de Sokol recebeu três votos (Sokol, Misa Boito e Salomão). A mesa anunciou que a propota da DS/MS + AE recebeu simbólicos 13 votos, mas na verdade a própria mesa leu o nome de 14 pessoas, a saber: Natália Sena, Patrick Araújo, Júlio Quadros, Valter Pomar, Daniela Matos, Rui Falcão, Joaquim Soriano, Raul Pont, Eutália Barbosa, Rosane Silva, Augusto (PR), Gabriel Medeiros, Mariana Janeiro e Luna Zaratini.

O debate sobre o tema Alckmin começou e terminou em menos de uma hora, contagem de votos incluída. Registre-se que NUNCA o tema havia sido debatido no Diretório Nacional ou na executiva nacional. Todo o debate sobre ter Alckmin na vice foi travado fora das instâncias partidárias.

Feitas as contas, saiu vitoriosa a posição defendida pelos senador Humberto Costa, em entrevista na revista Veja em fevereiro de 2017. Um comentário sobre a referida entrevista pode ser lida no seguinte endereço: http://valterpomar.blogspot.com/2017/02/humberto-costa-qual-pagina-deve-ser.html

Na tal entrevista, concedida há 5 anos, Humberto Costa defendia virar a página do golpe. Ao indicar Alckmin para vice de Lula, a maioria do Diretório Nacional do PT fez algo muito parecido com isso.

Nas partes seguintes deste texto, avaliaremos as repercussões e desdobramentos da decisão. E contaremos os debates no Diretório sobre a federação e sobre o programa, entre outros assuntos.

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Declaração de Sokol distribuída ao final da reunião do DN

“Votei contra a proposta do PSB de dar a Vice de Lula para Alckmin. Os motivos, apresentei às companheiras e companheiros do DN. Petista e paulista, não tenho um balanço positivo, do ponto de vista dos trabalhadores e da juventude, dos muitos anos dele como governador do PSDB. Não conheço as reavaliações que ele possa estar fazendo. Agora, decisão tomada, vou lutar pela vitória eleitoral de Lula Presidente para reconstruir e transformar o Brasil, junto com o meu partido.”

Projeto de resolução apresentado pela tendência petista Articulação de Esquerda

Sobre coligação com o PSB e sobre candidatura a vice-presidência

A eleição presidencial deste ano colocará em disputa dois projetos muito delineados: o democrático-popular e o neofascismo neoliberal. No polo democrático, é a candidatura de Lula que tem reais possibilidades de aglutinar a maioria do sociedade em torno de um programa de enfrentamento e substituição das políticas neoliberais e privatistas, de reafirmação da soberania e das políticas de crescimento sustentável com justiça social, de resgate dos direitos e das conquistas da classe trabalhadora, de retomada dos direitos humanos, coletivos e individuais; enfim, um programa capaz de trazer paz e prosperidade para o povo brasileiro.

Nossa política de alianças e a tática eleitoral que já estão em construção e serão definitivamente aprovadas no Encontro Nacional de 4 e 5 de junho, apontam para a ampliação política necessária para derrotar Bolsonaro, o bolsonarismo e o neoliberalismo, num processo eleitoral que já se revela o mais duro desde a redemocratização do país.

Além de consolidar a unidade do campo popular, o PT deve buscar ampliar o apoio a Lula em outros setores políticos e sociais, como o Partido Comunista do Brasil, o Partido Verde e o Partido do Socialismo e da Liberdade.

Neste sentido, a coligação nacional com o PSB também será importante passo na direção almejada. Confirmará nossa disposição de, no governo, implementar um programa de reconstrução e transformação do Brasil, ampliando nossa base social.

Neste sentido, o Diretório Nacional indica às delegadas e aos delegados que participarão do Encontro Nacional a aprovação da coligação com o PSB.

O PSB apresentou formalmente o nome do ex-governador Geraldo Alkmin para compor a chapa como candidato a Vice-Presidente de Lula.

O Diretório Nacional do PT realizará uma reunião específica para discutir este tema, tendo em vista esta ser a primeira reunião do Diretório Nacional a debater esta proposta; tendo em vista existirem na sociedade e no partido outras demandas legítimas pela vice, por exemplo de uma vice mulher, negra, comprometida com o projeto democrático popular e que tenha lutado contra o golpe de 2016; assim como há a possibilidade indicar vices oriundos de setores de centro e de direita, mas que participaram e/ou apoiaram os governos de Lula e Dilma.

Contribuição da Democracia Socialista e da Militância Socialista ao debate sobre a coligação nacional e a composição da chapa.

Para construir a democracia no Brasil é preciso derrotar Bolsonaro e o neoliberalismo

 Ninguém deve ter dúvidas sobre a grandeza do desafio, a complexidade das tarefas, a extraordinária dureza da luta política que se trava nestas eleições presidenciais e parlamentares de 2022. É o destino do povo brasileiro que se disputa em meio a um quadro de violentos ataques à democracia, de frágil legalidade, de gravíssima crise social e sanitária,  diante de um adversário que objetiva criar no país um regime de extrema-direita.

Por isso, é preciso evitar certezas de antemão formadas, não adotar juízos unilaterais e abrir-se ao debate democrático.

Uma política de alianças deve resultar de um diagnóstico da situação política e ter como referência fundamental um programa de mudanças.

O governo Bolsonaro só pôde ser eleito em 2018, só pôde governar apesar de tantos desastres e crimes, só pode manter uma candidatura à reeleição porque aplica um programa neoliberal de amplo apoio nas classes dominantes brasileiras e internacionais. De modo singular no Brasil, mas como outros governos contemporâneos, ele unifica uma extrema-direita com um programa neoliberal. É a resistência democrática do povo brasileiro estreitamente soldada à insatisfação com as políticas neoliberais que faz com seu governo seja hoje rejeitado por quase dois terços dos brasileiros.

Separar a luta contra Bolsonaro de um programa e de uma estratégia de campanha que vise superar o programa neoliberal é, assim, um duplo erro. De um lado, enfraquece a luta democrática contra Bolsonaro que só pode ganhar consistência popular se vinculada claramente a medidas anti-neoliberais que atendam às necessidades das maiorias sociais, das classes trabalhadoras, das mulheres e do povo negro. De outro, enfraquece e confunde a construção de uma alternativa política à Bolsonaro na medida em que esta depende de uma forte identidade e de um claro programa anti-neoliberal.

Para obter a vitória eleitoral mais ampla, para reunir a maioria do povo brasileiro, para aumentar a força das bancadas de esquerda e centro-esquerda no Congresso Nacional e nos governos estaduais, para criar a legitimidade necessária a um programa de governo de reconstrução e transformação do Brasil é preciso uma política de alianças que sinalize a superação do governo neoliberal de Bolsonaro. Precisamos não apenas consolidar a maioria dos votos e apoio entre os mais pobres, mas entre os assalariados da classe média mais ampla, na agricultura familiar e entre os pequenos produtores. Precisamos, sobretudo, da organização popular e dos comitês Lula.

Será preciso formar um novo bloco socioeconômico muito amplo, hegemonizado pelas classes trabalhadoras, politicamente majoritário, assentado nos valores culturais humanistas e democráticos do povo brasileiro e que aponte a um sentido de futuro soberano ao país.

A luta contra o neoliberalismo unifica e reorganiza um sentido de país. Enfraquecer esta identidade e diluir este programa estreita a base social e enfraquece a potência majoritária da candidatura Lula. Diante do programa de cisão e do espírito de facção do bolsonarismo neoliberal, é preciso reconstruir em plenitude a república democrática e popular dos brasileiros, baseada nos valores da liberdade e da igualdade. A política de alianças da candidatura Lula deve se organizar com estes objetivos históricos, de grande força unitária e de grande amplitude social. Para reunir a maioria do Brasil, será preciso derrotar o neoliberalismo.

Geraldo Alckmin relembrou sua presença na luta pela redemocratização e agora na luta pela reconstrução. Num lapso temporal extraordinário, não menciona justamente os anos de governos neoliberais no Brasil onde ele foi um dos expoentes e, tão pouco, os anos recentes de apoio ao golpe de 2016. Não se tem notícia de nenhuma autocrítica de Geraldo Alckmin em relação ao ideário neoliberal ou ao golpe que abriu a portas para Bolsonaro.

Esperamos que o Encontro Nacional seja capaz de escolher uma candidatura a vice-presidência que contribua para realizar o potencial democrático e anti-neoliberal desta campanha histórica que deve levar novamente o Presidente Lula a governar o Brasil.

 Mensagem recebida as 8h16 do dia 14 de abril

O companheiro Markus Sokol me enviou a seguinte mensagem, reproduzida na íntegra a seguir: “A bem dos fatos, Markus (não marcos) Sokol, apresentou, falou e votou em nome do DAP, cujos 3 membros votaram “contra a proposta do PSB de Alckmin para vice de Lula” (Gleisi). Não tive ainda o tempo de ler o resto do teu relato, mas naturalmente como votamos diferente, podemos avaliar diferente, no respeito dos fatos. Se quiser agregar, teu direito, fora desta votação, como bio, Sokol é membro da “Corrente OT do PT, seção brasileira da 4a Internacional”

 (*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT

Este post tem um comentário

  1. Francisco Farias

    Será preciso formar um novo bloco socioeconômico muito amplo, hegemonizado pelas classes trabalhadoras, politicamente majoritário, assentado nos valores culturais humanistas e democráticos do povo brasileiro e que aponte a um sentido de futuro soberano ao país. (Seria fácil se a hegemonia política dependesse da demografia…)

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