Por Egydio Schwade (*)

                                                       Foto: Marcelo Camargo

Ainda estudante, interrompi os estudos para fazer uma experiência com povos indígenas. Foi em 1963., antes do Golpe Militar. E foi lá que tive tambem o meu 1º. contato com a política indigenista oficial, tendo acolhido a pedido do Delegado do Serviço de Proteção aos Indios-SPI, em Utiariti, internato indígena da Missão Anchieta, um grupo de índios Xavantes e Bororo de postos do SPI.

Em 1967, visitei, junto com o colega Thomaz Lisboa, os postos indígenas do Rio Grande Sul, 4 sob a responsabilidade do SPI e 4 do Estado que possuía então um serviço próprio de proteção aos índios. À propósito da visita, fizemos um relato da situação dos índios naquele Estado que publicamos no Correio do Povo/maio 1967. O relato provocou uma Comissão Parlamentar de Inquérito-CPI na Assembleia Legislativa que por sua vez, desencadeou a CPI-Nacional que derrubou os dois serviços e deu origem à FUNAI. Logo, Thomaz e eu, nos empenhamos com entusiasmo para uma melhoria da Política Indigenista Oficial. Com a ajuda da Secretaria de Educação do Estado, provocamos uma Operação Rondon aos postos do Rio Grande do Sul e convocamos jovens professoras que receberam da Secretaria da Educação um curso voltado para o trabalho nos toldos dos índios no Estado.

Na década seguinte acompanhei a Política Indigenista Oficial, com fortes críticas, perdendo paulatinamente toda a esperança de reais melhorias em prol dos índios e empenhei as forças.na perspectiva de mudanças da polítíca indigenista da Igreja.

Entretanto, em 1980, com a criação do Partido dos Trabalhadores-PT, surgiu nova e vigorosa esperança de reais mudanças em prol dos povos originários. Foi o ano em que vim com a família morar nesta Amazônia. Logo, começamos a participar da organização do Partido junto com as Comunidades Eclesiais de Base e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, do Baixo Amazonas. E tive várias oportunidades de colaborar para que o poder vigente, em especial, nesta Amazônia, olhasse com olhos diferentes para os povos originários e lhes garantisse seus direitos. Ainda no mesmo  ano de 1980, denunciei a política indigenista da Ditadura Militar no Tribunal Russell e com o Prof. José Ribamar Bessa e o escritor Marcio Souza, ambos então do PT, colaborei na elaboração do 1º. programa de política indigenista do PT que foi unanimemente aprovado no 1º. plenário do Partido. Em 1982, quando o PT Estadual lançou candidato a Governador do Estado, uma comissão do Partido me procurou em Itacoatiara, para candidato a vice, do Prof. Osvaldo Coelho. Com apenas 2 anos morando no Estado, não era conveniente aceitar tal encargo.

Em preparação ao Governo da Nova República, antes da posse de Tancredo, a convite de dois deputados federais do MDB do Amazonas, fui a Belém do Pará, ajudar na preparação do Programa de Governo da Nova República para a Amazônia, sempre sonhando com novos rumos da Política Indigenista oficial. Por toda a parte respiravam-se então ares novos, esperança de mudanças estruturais.

Tudo isto, sem perdermos, minha esposa e eu, o objetivo que nos trouxe a esta parte da Amazônia: conviver e levar solidariedade ao povo Waimiri-Atroari ou Kiña, como se autodenominam que sofrera o mais duro genocídio por parte do Regime Militar.

Desde a nossa juventude, Doroti e eu, conhecemos de perto o sofrimento das populações mais humilhadas e marginalizadas do país, em especial, dos indígenas e dos pequenos agricultores. Os novos dirigentes da FUNAI conheciam o nosso engajamento nesta causa. Por isso, no início da Nova República, aceitamos o convite do Presidente da FUNAI para  integrar um Grupo de Trabalho-GT, para traçar novos rumos à caótica política da FUNAI junto aos Waimiri-Atroari. O GT era integrado pelas pessoas e organizações que mais se distinguiram na confrontação da Ditadura Militar nesta questão: professores de universidade, CIMI, OPAN, OAB, ABA… A iniciativa visou organizar a 1ª.experiencia da Nova República, de mudança da política indigenista. Por isso, participamos novamente com entusiasmo. Durante três meses, perambulamos, com a família, pelas aldeias Waimiri-Atroari, acompanhados por três líderes desse povo e membros do GT, vendo a situação e a atuação da FUNAI.

Após o levantamento os membros do GT se reuniram na aldeia Yawará/Sul de Roraima, onde foram traçadas as novas linhas de ação, partindo das propostas dos indígenas. A 1ª. exigência deles foi a alfabetização do seu povo. E queriam que ela iniciasse naquela aldeia Yawara, onde já havia uma escola, construída para esta finalidade. Estava-se deteriorando, sem sequer ter sido usada, por falta de um professor. Doroti e eu, membros da OPAN e do CIMI, nos oferecemos para enfrentar o desafio. Nos organizamos. E um mês após demos início às aulas. O entusiasmo e a participação da aldeia foram plenos. Mulheres, homens, crianças e até os bebês, ninguém faltava. E os alunos foram aumentando, vindos de outras aldeias. Seguimos alfabetizando pelo método Paulo Freire, tendo os Kiña a autonomia do processo. Iniciaram desenhando. O desenho eles dominavam de forma genial. Sem dúvida, melhor do que nós. Dos desenhos extraíram as letras e das letras as frases e finalmente os textos na sua língua materna. As tarefas de aula elaboravam na aldeia. Na escola eram postos a público, comentados e enriquecidos de viva voz: Surgiu assim a riqueza de sua terra: animais e vegetais, a sua visão de mundo e como tudo era celebrado em suas festas e ritos. Apareceu tambem, é claro, a sua história – Kiñayka = a História da nossa gente. Praticamente todos eram jovens ou crianças, sobreviventes de massacres bem recentes. E começaram a revelar o que os militares e a FUNAI fizeram contra o seu povo, durante a construção da rodovia BR-174, rasgando o seu território. E ao final quase sempre a pergunta: “Apiyemiyeke?” = Por que? Por que civilizado = Kamña, matou Kiña = a nossa gente?

Durante este período, entre 1985 e 1987, vivenciamos, como nunca, na própria carne, a maldade de um poder injusto e traiçoeiro. Começamos o trabalho, a pedido dos índios, como membros de um GT, organizado e autorizado pelo órgão indigenista oficial. Fomos assessorados por linguistas brasileiros competentes. E tudo obedecendo a um clima de expectativas de mudanças reais na política brasileira. Apesar de todas estas credenciais, o trabalho foi interrompido de forma arbitrária, injusta e perversa por Romero Jucá, recém-nomeado presidente da FUNAI por Sarney, substituindo o dirigente do órgão que tentou reais mudanças na política oficial.

Para estes índios Waimiri-Atroari foi a primeira oportunidade que tiveram para conhecer uma outra face do mundo que os rodeia e revelar a sua história: O genocídio  que sofreram, com a invasão do seu lindo território? Falar dos motivos que os levaram a uma guerra desigual. A enfrentarem de arco e flecha a quem os matava com armas modernas: armas de fogo e armas químicas. Estimados em 3000 no início da construção da rodovia BR-174, restavam apenas 332 Kiña.

O processo de alfabetização trouxe esperança. O olhar dos sobreviventes começou a brilhar. Mas isto incomodou a gente interessada na ocultação do crime mais hediondo da Ditadura Militar. À frente dos interessados na ocultação deste crime de genocídio estava o Presidente Sarney, principal articulador político da Ditadura Militar. Foi presidente da ARENA, partido dos ditadores. Em seguida os dirigentes da Eletronorte, empenhados na construção da barragem de Balbina. No futuro lago, perto da foz do rio Abonari, ainda em 1972, funcionários da FUNAI, relacionaram 7 aldeias Waimiri, com os nomes de seus tuxauas. Todas sumiram sem deixar rasto. Outra interessada a mineradora Taboca-Paranapanema, instalada no local onde o Pe. Calleri, em 1968, aerofotografou 9 aldeias, conhecidas e frequentadas pelos nossos alunos. Em aula as desenharam, como as encontraram, escrevendo ao lado: “Taboca chegou, Txikiriya sumiu!”. Todas elas sumiram misteriosamente. Interessados, especiais na ocultação dos crimes, dois funcionários da FUNAI, agora assessores do Presidente Jucá: José Porfírio Fontenelle de Carvalho e Sebastião Amancio da Costa. Ambos estiveram a serviço da Ditadura Militar. Carvalho coordenou a COAMA–Coordenação da Amazônia na região, no período mais negro para os Kiña. A COAMA estava subordinada a 3 generais. Ismarth de Oliveira, Demócrito e Gentil Pais de Almeida. Era ela que fornecia o armamento para os funcionários da FUNAI, armas que tambem mataram Kiña, segundo depoimentos de mateiros que atuaram nas frentes da BR-174, denúncias de Fábio Lucena, vereador de Manaus e funcionários da FUNAI, entre eles, Apoena Meirelles. Sebastião Amancio, indicado para substituir Gilberto Pinto, chefe da Frente de Atração Waimiri-Atroari, morto pelos índios, declarou à Imprensa que faria “uma demonstração de força dos civilizados que incluiria a utilização de dinamite, granadas, bombas de gás lacrimogêneo e rajadas de metralhadoras e o confinamento dos chefes índios em outras regiões do País”. (O Glogo – 06-01-75).

Poucos meses após o início dos trabalhos, Jucá enviou um linguista da FUNAI de Brasilia que fiscalizou um mês nossas aulas. Ao voltar a Brasília fez um relatório que não agradou a Jucá e a seus assessores: Carvalho e Amâncio. O relatório concluiu recomendando: “A experiência que está sendo levada avante na aldeia Yawara, deverá ser estendida aos outros grupos Atroaris (Xeri, Baixo e Alto Alalaú) e Waimiris sob orientação dos professores da escola Yauará. Cumpre-me enfatizar que não percebi qualquer forma de proselitismo religioso ou interferência cultural por parte dos professores. Estão, sim, empenhados em recuperar e valorizar os costumes, crenças e festas típicas desse povo através de sua ação pedagógica. É necessário que os atuais professores sejam apoiados e que se se necessitar de um convênio com o CIMI para garantir sua presença, que o mesmo seja assinado. Assim a FUNAI estará prestando um serviço a causa dos Waimiri-Atroari.”

Jucá, Carvalho e Amâncio foram os três elementos da FUNAI, que interromperam o Programa do GT, iniciando pelo programa de alfabetização. Jucá, desde que foi nomeado Presidente do órgão, mostrou ser capacho das mineradoras em áreas indígenas. Como tal vem sendo denunciado até hoje pelos indigenistas. Foi o encarregado de Sarney para levar a Política Indigenista oficial à sua rotina nefasta anterior.

Jucá nos tratou com mentiras e calúnias. Taxou-nos de estrangeiros  e nos substituiu por missionários fundamentalistas norte-americanos da Unevangelized Field Mission. E após a expulsão dos indigenistas do GT, ligados à universidades, ao CIMI e à OPAN, a mídia, a frente o Jornal O Estado de São Paulo, desencadearam uma campanha de difamação de nosso trabalho e pessoas. A campanha acabou se dirigindo contra todo movimento popular indigenista, mas em especial contra o CIMI, ao qual pertencíamos. Financiado pelo Banco Mundial e pela Mineração Taboca-Paranapanema, a empresa Eletronorte, contra a lei comanda ate hoje a política indigenista junto aos Waimiri-atroari, através do PWA-Programa Waimiri-Atroari e tornou a família Carvalho coordenadora vitalícia do PWA. Balbina, uma obra absurda, financiada pelo Banco Mundial-BM prejudicou muito os Waimiri-atroari. Por isso foi alvo de nossas críticas desde que chegamos à Amazônia. E um grito do movimento indigenista mundial obrigou o BM a aplicar parte dos recursos destinados à sua construção, para reparar os danos causados aos índios Waimiri-Atroari. Detalhe que sempre foi ocultado pelo Coordenador do PWA, que aplicou os recursos para se autopromover, como se tudo tivesse sido iniciativa dele.

A campanha de difamação contra o movimento popular indigenista, resultou em uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito no Congresso que em seu relatório final desnudou o processo calunioso.  Entretanto, nada foi feito para que os autores da Campanha nos indenizassem e nenhuma autoridade, nem de direita e nem de esquerda, fez algum esforço para que pudéssemos voltar ao trabalho junto ao povo Kiña. Ao contrario, os autores de nossa expulsão continuaram no poder, tambem durante os 13 anos do Governo do PT. A terra Kiña, continuou sendo espoliada. E os responsáveis por tudo isso, respeitados e incensados na nossa cara.

Como deputado federal, Lula e deputados petistas, acompanharam e estiveram do lado dos índios e do CIMI, nas discussões da Constituição de 88. Conheciam a posição anti-indigena do Presidente da FUNAI, Romero Jucá: um traidor covarde da causa e inimigo das forças atuantes a favor deste segmento vulnerável da sociedade. Mas durante os governos do PT, a nossa família teve que amargar a realidade de ver os traidores da causa, a qual dedicamos a nossa vida, serem alçados e mantidos em altos cargos do Governo. Jucá, Ministro e líder do Governo Lula no Senado. E o filhote da Ditadura, Carvalho, nos 13 anos de Governo petista, coordenador do PWA. Os objetivos que levaram o PT-Amazonas  a me indicar para assessorar Lula na viagem a Balbina/1989 e na Caravana das Águas/1994, foram ignorados: Hidrelétricas continuaram cobrindo áreas indígenas, empresas de mineração invadindo as mesmas, a frente o próprio líder do Governo no Senado, Romero Juca.

Não menos decepcionante foi o que ocorreu com a Comissão Nacional da Verdade-CNV, criada pela Presidenta Dilma. Originariamente nada sobre os crimes da Ditadura Militar contra os povos indígenas estava incluído na sua agenda. Mas o primeiro relatório, que entrou na CNV, veio do Comitê pela Memória, Verdade e Justiça do Amazonas, presidido por mim e pelo Presidente da Associação dos Jornalistas do Amazonas. O relatório enfocou o genocídio cometido pela Ditadura Militar contra o povo Waimri-Atroari. Os documentos que apresentamos surgiram do nosso trabalho de alfabetização. Mostrou que a crueldade da Ditadura Militar só contra aquele povo, teve uma dimensão muito maior do que aquela cometida contra a sociedade nacional. Foi a partir deste relato que a questão indígena foi incluída na agenda da CNV. Nada foi fornecido pelo PWA-Programa Waimiri-Atroari. Entretanto, ao se dirigir à área, para verificar in loco, a veracidade dos fatos, a representante da CNV se submeteu às exigências do filhote da Ditadura, Carvalho do PWA, não permitindo a presença de um só representante do Comitê pela Memória, Verdade e Justiça do Amazonas, na sua comitiva à área Waimiri-Atroari, para suas entrevistas com os índios.

O Fome Zero é outro caso que merece um olhar crítico. Como o SUS, ele nasceu de longas discussões das bases petistas. Não foi criação de última hora e de uma só cabeça. Foi  programado para ser um serviço com os mais lascados, um programa não só assistencial, mas tambem um serviço voluntário de fiscalização para todo o Governo do PT. Um Conselho poria em ação um esquema de controle dos recursos públicos. Participamos desde o início das reuniões para a criação deste Conselho. Mas na mesma semana em que o Conselho foi criado em nosso município, o poder central do PT, extinguiu o Fome Zero, substituindo-o pelo Bolsa Família, atendendo os interesses da direita. O Conselho foi extinto e a pessoa menos confiável, passou a dirigir o novo órgão. Entregou-se o ouro aos bandidos. Do dia para a noite, sem uma consulta às bases, se desmontou a melhor perspectiva para um controle dos recursos públicos, os conselhos do Fome Zero. Tudo foi entregue ao controle das prefeituras, a mercê de pessoas sem conhecimento e interesse pelo objetivo almejado.

Semelhantemente, o que foi feito do Orçamento Participativo? Participei do 1º. realizado em 2003 em Manaus. Foi tão bonito ver o povo discutindo o orçamento 2003-2007, cara a cara, com Ministros (Luiz Dulce, Guido Mantega) e assessores do Presidente da República. Me atrevi até a apresentar uma proposta revolucionária para os assentamentos do INCRA, possível de ser testada aqui no município. Entretanto, tambem este programa auspicioso, foi morrendo durante os Governos petistas.

As arbitrariedades, vindas de fora e de dentro do nosso Partido, fez a família sentir um pouco do sofrimento e humilhações que os povos indígenas vem sofrendo há 5 séculos. E eles sentiram a nossa presença solidária. Quando Jucá nos retirou do trabalho de alfabetização, o tuxaua, tristonho, sentado  na soleira da porta do posto da FUNAI, me disse: ”Egydio, voce, Doroti, CIMI, fraco igual nós!”(Foi o maior elogio  de minha vida indigenista). E um grupo de 4 ou 5 rapazes, na hora do carro da FUNAI arrancar, saltaram sobre a pick-up, onde estava sentado, tristonho, com meus filhinhos, Ajuri, Adu e Maya, (o bebê Maiká, estava com Doroti na cabine), solidários, enfrentaram aquela noite fria, dando colo e carinho às crianças durante os 180 km que separam a aldeia da sede municipal, onde passaram a noite conosco.

Não queremos ódio contra os políticos de direita, mas o que não se pode jamais é dividir o poder com eles. Qualquer liderança indígena, qualquer agricultor representa mais força e nos firma mais no poder que desejamos para a humanidade, do que um acordo com uma direita egoista. O PT foi criado pelo movimento popular, preocupado com os discriminados. Jamais para aumentar privilégios e a riqueza dos ricos.

Com a experiencia de exclusão sofrida na própria carne, tratados como estrangeiros, foi que começamos a ostentar o nosso titulo eleitoral e iniciamos em 1987 os cursos de formação política para o segmento mais marginalizado do município, depois dos Waimiri-Atroari: os peões e agricultores familiares. Foi atrás desses cursos que nasceu o Partido dos Trabalhadores neste município de Presidente Figueiredo. Éramos 56 filados quando das eleições de 1988. 95% pequenos agricultores, peões e operários da Hidrelétrica de Balbina. O município tinha então 8.185 habitantes, de acordo com o IBGE. Em torno de 4 a 5.000 eleitores. Mas o medo das elites com o surgimento do PT, formado pelos mais fracos, trouxe pavor às elites. Três meses após o lançamento de nossos candidatos a Prefeito e vereadores, (1 professor, 2 agricultoras, 3 agricultores, 3 operários e 2 peões) o eleitorado “subiu” para 11.379. Durante a campanha fomos humilhados. Impedidos de entrar na Mineração Taboca, onde, à revelia da lei, funcionava um terço das urnas. E na Vila de Balbina, onde residia outro terço dos eleitores, só podíamos entrar, acompanhados por um engenheiro da obra. (O companheiro e engenheiro paulista, Luiz Horta, pode testemunhar!). Enquanto aguardávamos a sua chegada no portão, nossos adversários, perfilavam livres, em ônibus lotado, humilhando-nos aos gritos. Mesmo fracos e acuados pela avalanche de fraudes, sentimo-nos fortes naquele momento com um futuro de esperança sem limites a nossa frente.

Quando Lula foi eleito Presidente, a ânsia de poder subiu às cabeças, desrespeitando princípios do Partido. Os 56 petistas fundadores de 1987 e que receberam solitários, em 1989, Lula, o Comunista Barbudo e o Comunista João Amazonas, agora foram marginalizados. E as  pessoas que ontem os humilhavam, lá no Portão da Balbina, se filiaram ao Partido e com o apoio do Diretório Estadual, dominaram o Diretório Municipal. Caso concreto: os cargos federais nos municípios. A pedido do Diretório Nacional, os companheiros indicaram para dirigente do INCRA aqui uma pessoa que acompanhou há anos a questão agrária no município. Mas a tendência dirigente, ignorou a escolha e impôs um membro do mofado lobby do INCRA que comandou o órgão, durante os 13 anos, sem uma avaliação da sua gestão e fez uma Reforma Agrária às avessas.

Quando Moro abusando de seu poder de juiz, encaminhou ao TRF-4, a prisão de Lula, nenhum deles se solidarizou. E nenhum deles assinou o processo que Wilson Reis, Presidente da Associação dos Jornalistas do Amazonas e eu, encaminhamos ao CNJ-Conselho Nacional de Justiça, pedindo providencias contra o abuso de poder de Moro. Por certo temiam o controle da parte do TRF-4, como de fato ocorreu contra nós. Basta acessar TRF-4, Egydio Schwade, para ver o controle que de que ficamos alvos. Nas entrelinhas do levantamento que o TRF-4 fez das nossas atividades se pode ler o motivo do controle: “Antes das duas reclamações protocoladas pela defesa de Lula, o filósofo Egydio Schwade, um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e o Presidente do Sindicato dos Jornalistas do Amazonas, Wilson Carlos Braga Reis, entraram com um processo no CNJ, alegando que  o juiz Sérgio Moro “agiu com abuso de poder e extrapola sua função constitucional de juiz de processos da Operação Lava Jato.”

Com o PT lá embaixo e Lula preso, muitos desses dirigentes do PT saltaram do barco e voltaram às suas origens. Assim, espezinhado, o PT-municipal, voltou às suas origens e nas próximas eleições passadas concorre unido, com nova face, com 12 candidatos a vereador.

Então o que nós petistas precisamos discutir com vigor, ternura e solidariedade, em especial, com quem de uma forma ou de outra, já participou do poder central nos últimos 30 anos, é a coerência e a mudança de lugar que nos propomos, desde a criação do Partido. O sofrimento injusto que nos foi imposto a todos, pode nos ajudar para o futuro. As arbitrariedades que sofremos nos últimos 2, 10,15, 40 anos, já pesa sobre as populações negras e os agricultores familiares, há centenas de anos e sobre os povos indígenas desde 1500. Necessitamos de vidas, – não de dinheiro – que marquem uma presença permanente, solidária e encarnada, na realidade desses excluídos do poder.

O discurso de Lula, a propósito do 7 de setembro deste ano, foi contundente. Soou como aqueles discursos semanais que Fidel Castro dirigia, no início dos anos 60, ao povo cubano. E foi a coerência com suas palavras que manteve o povo humilde do seu lado e sustentou o regime cubano, frente ao prepotente e agressivo gigante.

O discurso de Lula, do dia 7, pode servir de recomeço. Guia para novos governos do PT, daqui para frente.

Resumo com alguns questionamentos:

  1. Os princípios que nortearam o Partido desde a sua criação, não podem ser negociados com as elites.
  2. Quando tivemos o poder em nossas mãos, por que não fizemos as mudanças estruturais em favor dos segmentos oprimidos da sociedade brasileira, – indígenas, agricultores familiares, negros – propostas desde a nossa origem?
  3. É preciso nos darmos conta de que os povos indígenas são os donos originários do chão que pisamos e nos sustenta e que os portugueses invadiram o território brasileiro, sem nunca os indenizarem. E foram e são discriminados porque resistem contra a privatização dessa terra porque vivem o nosso objetivo: o socialismo. Não podemos permitir que seus últimos nichos de sobrevivência sejam invadidos por empresas de mineração, alagados por barragens de hidrelétricas e espoliados por madeireiros.
  4. Quando no poder, o PT fez alianças, acordos, concessões de todo o tipo à direita. Por que não foi audaz rumo à esquerda, em direção aos que vivem esmagados pelo poder? O Ministério da Agricultura continuou dominado pelos agronegociantes, engolindo os recursos que deveriam ser destinados a uma Reforma Agrária que favorecesse os agricultores familiares que sustentam a mesa do povo brasileiro. Após 13 anos de governo do PT continuam no Ministério do Des-envolvimento Agrário, que, em verdade, nem deveria existir ou ser o Ministério do Agronegócio que é des-envolvimentismo.
  5. A falta de atenção e importância aos alertas do movimento popular e dos índios, não terá contribuído para que a política indigenista oficial caísse nas mãos de doutrinadores: um pastor e Damares fundamentalistas? E o Ministério do Meio Ambiente nas mãos de quem incentiva “a boiada passar”, arrasando a Amazônia? Enfim, as alianças à direita e o combate às esquerdas radicais, só favoreceram a ascensão da extrema direita que temos aí.
  6. Foi possível imaginar nos anos 80 que o Presidente do PT do Amazonas, um dia defenderia o desmantelamento das reservas florestais e a mineração de empresas em área indígena? E o PT governar dividindo o poder com os opressores e repressores de seus companheiros indigenistas, defensores das minorias injustiçadas, (com Romero Jucá, Porfírio de Carvalho…)? Escorregar três milhões de reais, nas mãos do Roberto Jefferson, esquecidos das discussões no plenário da Câmara durante o Impeachment do Collor..! Imaginou-se servir os excluídos, ou garantir o poder, a governabilidade?
  7. Não foi a coerência aos princípios construídos coletivamente nas bases, a nível nacional e a união das esquerdas que em 1989, levou o PT, na sua 1ª. participação em eleição para Presidente, ao 2º. turno das eleições? E não existiam tendências preocupadas em controlar o poder interno do Partido.
  8. Não foram as tendências internas mais à direita, surgidas no início dos anos 90 que desleixaram a formação política, diminuíram a contribuição dos eleitos, deixando os candidatos mais pobres marginalizados na distribuição dos recursos de campanha? Enfim, não foram elas que nos levaram a negociar nossos princípios, deixando o socialismo na retórica e fazendo prevalecer o poder pelo poder, sobre o poder como serviço ao povo?
  9. A desistência dos companheiros fundadores do PT, como Aloysio Nogueira, Marcus Barros, Oswaldo Coelho, sem adentrar o restante do Brasil, desfalcando nossas raízes de esquerda, permaneceu sem avaliação alguma. Parecia até um alivio aos olhos da tendência dirigente!
  10. O poder só atinge a sua função verdadeira quando entregue aos mais fracos, aos “mansos”, como dizia Jesus, há dois mil anos ou aos “proletários”, como traduzia Marx. Só a “Ditadura do Proletariado”, da “Mansidão”, tem condições de praticar a democracia, de transformar o poder em serviço à união do país e da humanidade: integrar os excluídos, suscitar ações que virem a pirâmide, levando as bases ao poder. O poder pelo poder cega. Não enxerga a maldade embutida na História das elites dominantes.
  11. A visita de Lula à África e ao conturbado Oriente Médio, foi determinante para revolucionar positivamente a politica internacional. Mas visitar 6 vezes o Bush assassino e não cumprir a promessa feita na Caravana das Águas ao povo de Urucurituba, nas margens do Rio Amazonas, deixou uma lacuna. Tratar os donos do agronegócio de “heróis da pátria”, nomear o agronegociante Rodrigues Ministro da Agricultura, ministério responsável pela Reforma Agrária, ignorando especialistas no assunto, como o João Pedro Stedile e outros, foi não querer realizar este objetivo original do PT e lei desde meados do século passado.
  12. Poucos dias antes de deixar o Ministério da Justiça, o Ministro Sérgio Moro, questionado diante da inércia do governo frente à invasão das terras indígenas, afirmou: “O Governo está fazendo tudo o que pode, para proteger as áreas indígenas!” Esta fala vazia de Moro, é a falácia que perpassa os nossos governos, desde 1500. Aqueles que deveriam ser o primeiro objetivo do Ministério da Justiça, do Ministério da Defesa e das Forças Armadas, os segmentos oprimidos, já nem procuram mais abrigo nestes órgãos. Sabem que ali não encontram apoio. Há um mês de completar meus 79 anos de idade, fui procurado para acompanhar um “batalhão” de 13 índios Yanomami, numa arriscada ação de desmantelamento de dois garimpos invasores do Parque Yanomami, no alto do Rio Couto de Magalhães, próximo à fronteira venezuelana. Dois dias de barco e duas horas a pé pela floresta Yanomami, só tive forças para carregar umas cartelas de ovos, espólio da destruição dos garimpos. Por que a minha presença, para os Yanomami, teria representado maior apoio do que as Forças Armadas, com todo o aparato que ostentam em seus desfiles?
  13. Durante os 13 anos de governo do PT, onde ficou a formação política de nossas Forças Armadas? Tivemos tudo ao nosso alcance para iniciar uma reviravolta na sua formação, trazendo à memória a missão que cumpriram até aqui – sufocando tentativas de libertação do povo: Cabanos. ₢anudos, Farrapos, Contestado… analisar a Guerra suja contra o Paraguai. E abrir os olhos para a sua missão real: defesa do povo brasileiro mais vulnerável, serviço aos povos originários, defendendo os seus territórios ameaçados por mineradoras, por madeireiros, por barragens de hidrelétricas; garantir a liberdade e os direitos das populações que vivem a plenitude do socialismo que almejamos. Enfim a defesa dos segmentos vulneráveis da nação.

Nos 13 anos de poder do PT, os marginalizados melhoraram suas condições de vida. Não passaram fome, mas permaneceram excluídos do poder que garante as condições de vida do futuro. Os marginalizados de hoje são os ‘heróis da pátria’ que farão as mudanças estruturais que esta terra espera desde 1500.

Mas, enfim o que anima em meio ao duro antipetismo atual, o Partido reconquistando a sua personalidade original.

Todo o governante das Américas de esquerda, deveria ter oportunidade de fazer um estágio em aldeia indígena, antes de governar um pedaço deste chão. Quando se pensa em organização política para mudanças reais, é preciso ir às raízes das injustiças. Os segmentos excluídos do poder guardam o segredo da organização, das mudanças estruturais. Os segmentos mais frágeis da sociedade são os depositários dos princípios mais sábios que devem orientar as mudanças na sociedade. Isto significa abdicar da mentalidade monetarista, mercantilista, colonialista e capitalista que valoriza: número, produção, dinheiro…

Casa da Cultura do Urubuí, 23 de novembro de 2020

(*) Egydio Schwade é filósofo, teólogo, indigenista e ativista social brasileiro.


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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