Por Luciene Silva (*)

O município de Três Lagoas contou com 83.973 eleitores aptos a votar no pleito de 2020.

Disputavam as eleições para a prefeitura sete candidatos: Ângelo Guerreiro (PSDB) reeleito com o total de 33.331 votos (63,92%), Fabrício Venturoli (Republicanos), Reneé Venâncio (PL), Kaelly Saraiva (coligação PSOL/PT), Sebastião Neto (Solidariedade), Ênio Soares (PSL) e Divino Tosta (Avante).

Do total de votantes, 2.409 eleitores (4,17%) votaram em branco, enquanto outros 3.255 (5,63%) anularam o voto. O número de eleitores que não votou foi de 26.163, equivalente a 31,16% do eleitorado. A soma de brancos, nulos e abstenções é de 31.827, ou 37,90% dos aptos a votar, conforme dados do TSE.

O resultado das eleições para a majoritária foi o seguinte: Ângelo Guerreiro (PSDB) reeleito com o total de 33.331 votos (63,92%), seguido por Fabrício Venturoli (Republicanos) 11.606 votos (22,26%), Reneé Venâncio (PL) 2.820 votos (5,41%), Ênio Soares (PSL) 1.521 votos (2,92%), Sebastião Neto (Solidariedade) 1.259 votos (2,41%),  Kaelly Saraiva (Coligação PSOL/PT) 1.219 votos (2,34%) e Divino Tosta 390 votos (0,75%).

Para a câmara de vereadores foram eleitos, de um total de 17 cadeiras, 5 vereadores do PSDB, 3 vereadores do MDB, 3 vereadores do DEM, 2 vereadores do PDT, 2 do Solidariedade, 1 do Podemos e 1 do Republicanos, evidenciando uma base ampla de apoio ao prefeito eleito.

Para compreender como se deu o resultado das eleições em Três Lagoas, há que se analisar o contexto sócio econômico da cidade, marcado historicamente pela forte presença de uma oligarquia sustentada pelo latifúndio e monocultura voltada à exportação.

O conservadorismo sempre foi a pedra de toque do cotidiano treslagoense, presente no ideário da população desde a ocupação de seu território, protraindo no tempo com a ascensão de uma elite agrária voltada à pecuária bovina e, com o advento da chegada das empresas de celulose, empreendedores do agronegócio baseado na produção de commodities. Famílias tradicionais que apontam os rumos do pensar e do viver na cidade, não obstante a chegada de uma classe média de cunho técnico voltada ao labor nas empresas.

A cidade não destoa da realidade do estado de Mato Grosso do Sul, em que a existência da preponderância do latifúndio (83% do território) demarca indelevelmente o imenso abismo entre a elite e a classe trabalhadora.

Ainda que num passado não tão distante o estado tivesse sido governado por dois mandatos por um governo popular – PT, através de José Orcírio Miranda (Zeca do PT), que implantou uma série de políticas públicas voltadas à educação, segurança pública, servidores públicos em geral, infraestrutura, saúde e cultura, além de uma vasta gama de obras e implementos advindos dos governos Lula e Dilma, se denota  um sentimento negativo por parte da população em geral, seja nas manifestações nas ruas, seja nas redes sociais.

Evidente se faz que o sensacionalismo negativo promovido maciçamente pela mídia nacional e realizado com muito mais vigor no âmbito regional e local, sustentada e patrocinada não somente pelo setor voltado ao agronegócio, como também pelo poder público municipal foi um fator preponderante para os resultados das eleições em Três Lagoas, desde o golpe que destituiu Dilma da presidência da república desde 2016.

Alie-se a esse fato a disseminação de fake News, que não cessou com a eleição de Bolsonaro, muito pelo contrário, o receio de que a população se revolte com as políticas supressoras de direitos e reconheça o caráter nefasto do atual governo faz com que a máquina propulsora de mentiras antipetista funcione a pleno vapor, construindo uma verdadeira cortina de fumaça no sentido de encobrir o pacote de maldades constituído no desmonte das políticas públicas implantadas nos governos do PT.

Importante se faz ressaltar que havia sete candidatos, mas somente dois projetos de gestão: um inerente aos seis candidatos pertencentes aos partidos de direita, voltado à satisfação de interesses dos grupos econômicos, das elites e outro proposto pela coligação PSOL/PT, cujas propostas voltavam-se ao resguardo de direitos, à promoção de políticas públicas alinhadas com as demandas populares, contemplando os anseios dos diversos segmentos da comunidade – negras e negros, mulheres, LGBTs, pessoas com deficiência, entre outros.

Insta salientar ainda que todos os candidatos pertencentes aos partidos de direita que concorreram à prefeitura de Três Lagoas possuem alinhamento político com Bolsonaro, o que se pode evidenciar através de suas manifestações em redes sociais, aproveitando a onda ultra conservadora que atraiu como canto da sereia a população treslagoense em geral.

Outro fato digno de nota diz respeito ao segundo candidato, Fabrício Venturoli, filiado no PROS até o início deste ano, tendo, inclusive participado de mobilizações populares e manifestando-se em prol de direitos. Após o apoio a Bolsonaro em 2018, passou a adotar fortemente a pauta dos costumes, atraindo através de seu discurso um grande número de evangélicos. Ainda que buscasse surfar nessa onda, seu resultado nas urnas foi pior do que 2016, quando ainda apresentava um viés mais voltado à base popular.

A estratégia utilizada não deu certo, talvez pelo enfraquecimento da popularidade do presidente, haja vista que a classe trabalhadora já sente na pele os efeitos deletérios das políticas neoliberais, além de que seu eleitorado voltado ao ultra conservadorismo dividiu-se entre o militar e o policial federal, ambos declaradamente bolsonaristas.

Chama atenção também o grande número de abstenções, fenômeno este antecipadamente anunciado nas páginas de notícias locais, tendo em vista que a população cética da pandemia do coronavírus agastou-se com as medidas de isolamento e abertura gradual antes das eleições, encarando essa medida como ato eleitoreiro. Em Três Lagoas a população assimilou bem a ideia da necessidade de se salvar a economia, da importância do trabalho e da insignificância do vírus.

As constantes enchentes, problema recorrente numa cidade de topografia plana em que as sucessivas gestões subdimensionaram ou simplesmente ignoraram, em que a ausência de um efetivo e eficaz planejamento urbano ocasiona a pavimentação asfáltica em detrimento de drenagem e rede de esgoto foram também amplamente discutidas, revelando uma grande insatisfação.

A pergunta que não se calou é: como um município que arrecada quase dois milhões ao dia não soluciona o problema das enchentes? Por que cargas d’àgua  (com todo o respeito ao trocadilho) a prefeitura contraiu um empréstimo milionário para realizar as obras de drenagem, com uma arrecadação dessa envergadura?

Com os olhos voltados à vitória à qualquer custo, o vencedor não consegue vislumbrar o alto número de pessoas que se recusaram a votar, foram 37,90% da população que, ou não foi votar, ou votou branco/nulo. Soma-se à isso o percentual de votos em seus adversários. Não está tão bem como imagina estar.

O PT em Três Lagoas coligou-se com o PSOL, apresentando uma chapa composta por 15 vereadores. Durante a campanha, candidatas e candidatos puderam constatar a insatisfação popular para com a gestão municipal e vereadores, muitos deles há décadas no cargo.

Mas essa insatisfação não é capaz de superar a rejeição ainda latente, muito bem construída, pelo PT e pela esquerda, por temerem um comunismo que eles nem sabem do que se trata, mas temem.

A campanha eleitoral deste ano reforça a ideia acerca da importância da construção coletiva de uma base sólida de resistência popular, o que somente se viabiliza através do constante diálogo com os mais diversos segmentos da sociedade, haja vista a  ampla capilaridade estabelecida pela elite conservadora através dos templos dos mais variados credos, do aparelhamento ideológico intensivo das instituições, dos espaços de decisão popular, como conselhos municipais e estaduais, bem como o desmantelamento de veículos de diálogo e enfrentamento, como associações de bairros, pastorais, comunidades eclesiais de base, entre outros.

Mas, apesar dos pesares, as candidaturas à vereança e prefeitura são compostas pela base do partido, pessoas da classe trabalhadora, do povo. São fortalecidas à despeito dos revezes cotidianos. Sabem que para carregar a bandeira e ostentar a estrela nos dias de hoje é preciso amor e coragem, em face dos duros golpes vindos de fora e de dentro do partido. É a luta. E ela segue por aqui…

(*) Luciene Silva é geógrafa, advogada e filiada ao PT em Três Lagoas


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

 

 

 

 

 

 

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