Por Mateus Santos (*)

Nova York, talvez, não se encontre tão vazia desde o 11 de setembro de 2001. Paris, Londres, Madrid e tantas outras capitais europeias tomadas pelo vazio e pelo silêncio. Em São Paulo e outras cidades também não é diferente. Nas últimas semanas, um mundo com mais de 7 bilhões de habitantes se deparou com a necessidade de uma mudança drástica e parcial nos cotidianos das grandes cidades. No lugar de transportes públicos, praças e outros espaços de socialização cheios, o reencontro com os lares. No lugar das grandes multidões de desconhecidos, o reencontro com formas de socialização limitadas à família e núcleos bem menores.

A pandemia de COVID-19 já é um dos maiores eventos em 20 anos de século XXI. Sua emergência e rápida difusão impuseram desafios elevados aos governantes e suas populações. A situação internacional se agrava diariamente com o aumento do número de mortos e infectados, mas também com as incertezas quanto às remediações e o que virá a ser do globo nos próximos meses.

O coronavírus, um inimigo quase invisível, abre não somente uma Era de dificuldades para boa parte dos países, como também impõe derrotas parciais e acirramentos a determinadas características econômicas, políticas e socioculturais que vigoram no debate internacional. É sobre estas que gostaria, de forma breve, debruçar-me. Neste curto texto, quero destacar dois aspectos: o antiglobalismo e o debate civilizacional; o Neoliberalismo e a chamada “Nova Direita”. Antes, porém, uma breve consideração histórica.

Uma Nova Era de Catástrofes?

Ao fazer um grande balanço sobre o século XX, Éric Hobsbawm, historiador britânico, faz uso da categoria “Era de Catástrofe” pra designar o conjunto de processos históricos que marcaram o mundo entre 1914 e 1945.[1] Entre duas guerras mundiais, regimes nazi-fascistas, a crise do capitalismo em 1929, colonialismo afro-asiático e tantas outras questões promoveram não somente milhares de mortes físicas, mas também ideológicas, diante dos abalos promovidos ao pensamento ocidental em meio às barbáries.

Novas identidades e novas formas de viver o mundo surgiram a partir daquele contexto. É, a partir do reconhecimento daquele conjunto de mudanças que podemos nos questionar sobre o nosso hoje. Não temos guerras envolvendo todo o globo, mas, em comum, um problema de dimensões mundiais. Para além do COVID-19, o contexto internacional já vinha sendo caracterizado por tensionamentos e dificuldades. A crise de 2008 não faz parte de nosso passado. Pandemias como H1N1 e epidemias como o Ebola fizeram parte também de nossa trajetória mais recente. Crise migratória, com respostas autoritárias e xenófobas por parte dos governos das Economias Centrais e de outros países da Europa. Esses e outros elementos nos levam a questionar se estamos, mais uma vez, em evidência de uma Nova Era de Catástrofe? Pois bem…

Anti-Globalismo e o debate civilizacional.

Dois aspectos interligados, mas aparentemente dissociados quanto às consequências do COVID-19 merecem especial atenção. Se, por um lado, o Anti-Globalismo vem sofrendo com abalos fortes, do ponto de vista de seu discurso, o debate civilizacional, também sustentado por alguns de seus defensores, vem ganhando mais força.

Em primeiro lugar, a vitória eleitoral de governos sustentados pela chamada “Nova Direita” em países como EUA, Hungria, Polônia, Brasil, Itália, Grã-Bretanha e outros Estados reforçou um tipo de discurso ideológico de natureza anticientífica, antiglobalização e com fortes contornos de um ressurgimento ocidental.

Sob o manto de uma teoria conspiratória sobre as relações de poder no mundo, lideranças políticas em todo parte ganharam força ao irem de encontro a elementos que pareciam naturalizados no senso-comum, mas que, ao contrário do que se pensa, já possuíam opositores desde décadas atrás. O que se chama de “Anti-Globalismo” nada mais é do que um conjunto de percepções contraditórias quanto ao nível de relacionamento das sociedades humanas, numa mistura de apelo ao fundamentalismo religioso, ao nacionalismo conservador e a um tipo de História Tradicional, desvinculada de percepções que historicizam os diversos sujeitos que compõem uma determinada sociedade.

Este último aspecto é notório, por exemplo, a partir do discurso de Ernesto Araújo, atual chanceler brasileiro, em “Trump e o Ocidente”.[2] Este autor traça uma narrativa breve sobre história do Brasil, considerando sua vinculação com o Ocidente por meio de Portugal, sem considerar as complexidades de um país formado por negros, brancos, indígenas e sob influência de diferentes sociedades.

No âmbito da crise do COVID-19, os esforços de representantes do movimento Anti-Globalista em negar ou diminuir as consequências da pandemia para as sociedades humanas evidenciaram, em mais uma oportunidade, a fragilidade dessa concepção de mundo. O enfrentamento aberto às organizações internacionais e suas agências sofreram abalos diante da situação material dos seus próprios países e as pressões de outros segmentos da sociedade, especialmente os mais afetados pela doença.

Outra vertente do pensamento conservador atual e também antiglobalista, contudo, ganhou força. “O Choque de civilizações”, fazendo referência ao título do trabalho de Samuel Huttington,[3] mais uma vez, acentua-se em meio ao caos. Por meio de discursos sinofóbicos, setores conservadores e reacionários alimentam maiores rivalidades em relação à China, especialmente. Em meio às teorias conspiratórias, torna-se evidente as construções discursivas que estabelecem dicotomias entre Ocidentais e Não-Ocidentais, prevalecendo concepções sobre as disputas de hegemonia política, militar, cultural e, mesmo neste caso, sanitária.

Se, no processo de decadência do Ocidente, os maiores males estariam no interior dessa própria civilização, cabendo a seus novos líderes e pensadores a execução de um processo de restauração ou resgate, o aprofundamento do debate civilizacional desloca o centro do enfrentamento novamente para o lado Não-Ocidental. Nessa narrativa complexa e difusa, a sobrevivência do lado Oeste encontraria ameaçada fisicamente pelo Leste. Deste modo, um quadro de agravamento da situação internacional, algo já enunciado pela selvageria na busca por equipamentos, não deve ser descartado.

Como apresentou Zizek, com algumas ressalvas, além do coronavírus, outros “vírus ideológicos” se proliferam e se aprofundam neste contexto. “Falsas notícias, teorias de conspiração paranoicas, explosões de racismo” (ZIZEK, p.43) não são fenômenos novos.[4] Ao contrário, questões sociais que marcam esta geração, mas que remontam contextos mais antigos e problemas estruturais.

A catástrofe da incerteza

O que será do mundo após o COVID-19? Esta talvez seja uma das grandes questões colocadas por todos nós. Diante do misto de medo e incertezas sobre o futuro próximo e o mais distante, a crise apresenta diferentes efeitos para as diversas dimensões da vida humana. Em uma delas, nos imaginários, o inimigo invisível se espalha na intensidade de questionamentos e reorientações de concepções vigentes nos últimos tempos.

Como naquele início de uma Era de Catástrofes no século XX, formas de enxergar o mundo são questionadas. Se, naquele quadro, o liberalismo político e o liberalismo econômico sofreram abalos, hoje, o pensamento Antiglobalista aparece como uma vítima parcial de um novo cenário de mortes e barbárie. O uso da parcialidade ao invés de enxergar uma totalidade reside no reconhecimento do aprofundamento de outros “males” nas sociedades, verdadeiras “saídas” para a sobrevivência dessa modalidade de conservadorismo. No coração do debate civilizacional, já anunciado pelos “salvacionistas do Ocidente”, o alimento promovido pelo racismo e a xenofobia, verdadeiros “pratos cheios” para um sistema internacional cada vez mais desordenado e imprevisível.

(*) Mateus Santos é mestrando em História Social/UFBA, militante petista e da Juventude da Articulação de Esquerda – Bahia

[1] HOBSBAWM, Eric John. Era dos extremos: o breve século XX 1914-1991. 2ª ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2017, 598 p.

[2]  “Trump e o Ocidente”. Cadernos de Política Exterior. Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, v. 3, n.6, dez. 2017, p.323-357

[3] HUTINGTON, Samuel. O choque das civilizações e a recomposição da Nova Orderm Mundial. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997

[4] ZIZEK, Slavoj. “Um golpe como o de ‘Kill Bill’ no Capitalismo”.  MIKES, David et&al. Coronavirus e a Luta de Classes. Terra Sem Amos: Brasil, 2020, 48 p.

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