Por Ariana C Rumstain (*)

Os debates e discussões que se iniciam no dia da eleição e, sobretudo, no pós-eleição, relacionados à contagem de votos e acusações de fraude algures já seriam o bastante para render uma reflexão, mas vou me ater a algo que considero igualmente grave: todo o processo que antecede o dia das eleições, e que envolve a montagem das chapas, a elaboração de uma tese, os debates e as conversas com os militantes com o intuito de discutir as propostas. Assim, partindo do caso concreto de São Bernardo do Campo, procuro trazer elementos para avaliação do PED e um apelo à insurgência da militância.

A montagem de uma chapa deveria ser um processo encarado com certa naturalidade no que chamamos de democracia. Ter que explicar, já na construção da tese, as razões pelas quais estávamos montando uma chapa, todavia, foi uma espécie de didatismo necessário, após uma desrespeitosa e covarde ação contra uma alternativa para a disputa que estava sendo construída. O que se sucedeu, após uma reunião em que participaram um bom número de parlamentares (ou seus representantes) e de militantes para defender o nome de um companheiro valoroso para presidência do diretório, foi uma desmobilização generalizada. Aqueles que apresentavam falas firmes de apoio claro ao companheiro, na certeza de que o nome indicado era o único capaz de articular uma proposta de enfrentamento ao momento atual de forma crítica e coerente, propondo a construção de uma chapa, foram desmobilizados de forma surpreendente na reunião seguinte.

Essa desmobilização foi, na verdade, um golpe baixíssimo. Tal “convencimento” para abandonar as convicções dos apoiadores de outra alternativa, foi dotado de uma covardia que envolveu argumentos ofensivos a um companheiro de lutas que já foi, inclusive, presidente do diretório de São Bernardo em outros tempos. A surpreendente e efetiva força desse empenho em desmobilizar a construção de uma chapa que enfrentaria a CNB no PED municipal, no entanto, é também reveladora da potencialidade e dos anseios de muitos militantes em mudar a proposta do campo majoritário na condução do diretório.

Gostaria ainda de destacar outros três elementos que marcaram o processo antes do dia da eleição: a construção da tese, o debate e o processo de convencimento da militância. O primeiro, que se refere à construção de uma tese, é revelador do desprezo pelas ideias e da certeza que alguns possuem da vitória.  A tese apresentada pela chapa da CNB não passava de uma cópia de versões anteriores, com informações descontextualizadas, num claro desrespeito à militância e um indicativo de que a prática não mudará mesmo em um novo momento. Quando questionados, no debate, sobre a participação efetiva dos militantes em todos os processos, inclusive no de disputa sobre a escolha do vice à prefeitura, o candidato eleito da CNB à direção do diretório respondeu que a escolha de vice não é para ser debatida – comparando tal escolha de ordem política a “escolher uma mulher para outro se casar”. Quanto ao segundo elemento, nota-se que, embora seja obrigatória a realização de debates no processo, há várias formas de impedir que isso ocorra de fato. A criação de eventos paralelos ao dia do debate e o próprio desprezo pela elaboração do documento de apresentação da tese já reforçam essa desqualificação do debate.

O terceiro elemento, por fim, é o processo de convencimento dos militantes para compor ou votar na nossa chapa, que foi lançada a despeito do ato absolutamente repugnante que impediu a possibilidade de compor com outros grupos e militantes. Quando falávamos com alguns companheiros era claro o receio de se contrapor à chapa do chamado “campo majoritário”, uma vez que um dos principais apoiadores dela era o ex-prefeito. Isso porque alguns têm receio de, ao se contrapor, acabarem se “queimando”, afinal, “estamos alguns desempregados… ainda…” – alegou um militante, ainda que revelasse estar descontente com as práticas políticas adotadas pela CNB no município. Um claro sinal de que a lógica eleitoreira é utilizada para submeter os militantes e trabalhadores.

Alguns de nossos dirigentes, com argumentos de que agora não seria o momento adequado para dividir o “partido” e de que temos que nos unir em razão da situação, esquecem-se de que o surgimento do próprio PT e sua riqueza são frutos não da produção de consensos que confluem para um pensamento único, mas da discussão de ideias e de propostas, sem a qual não há construção possível.

(*)Ariana C Rumstain é militante do Partido dos Trabalhadores, estudou Antropologia Social no Museu Nacional/UFRJ e é socióloga na Prefeitura de São Bernardo do Campo.

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