Por Patrick Araújo (*)

Desde a reunião de posse que ocorreu no dia 17 de janeiro, dois meses após a realização do 7º Congresso, o diretório nacional do PT reuniu-se presencialmente outra única vez nos dias 13 e 14 de março. A partir dali, em decorrência da pandemia do novo coronavírus, todas as reuniões, tanto do diretório quanto da Comissão Executiva Nacional, passaram a ocorrer virtualmente.

A transição do espaço físico para o virtual, necessária para assegurar o funcionamento das instâncias e as medidas de proteção à saúde, aprofundou algumas das tendências negativas que se apresentavam desde antes da pandemia. Já naquelas duas únicas reuniões do começo do ano, o método adotado pela maioria para conduzir a direção expressou um alto grau de centralismo, nos encaminhamentos e nas decisões, que com o espaço virtual apenas se potencializou.

Já na primeira reunião, que empossou a nova direção e elegeu a comissão executiva nacional, sequer as resoluções do 7º congresso nacional ocorrido em novembro de 2019 foram votadas (aliás, até hoje não foram aprovadas nem publicadas oficialmente). E o motivo principal foi que entre a maioria, a grande preocupação era unicamente resolver seus próprios problemas para a composição das instâncias. Uma vez resolvido e encaminhado, a reunião foi sumariamente encerrada.

Naquele momento a situação política internacional e nacional já estava extremamente grave, mas o método de condução da maioria da direção do PT impedia que o partido sequer tivesse uma opinião sobre os acontecimentos. Ou seja, ainda quando tinha a possibilidade de se reunir presencialmente, a direção nacional do partido já funcionava num ritmo inferior ao que seria necessário para dar conta dos desafios existentes.

A própria decisão sobre o Fora Bolsonaro que vinha sendo sucessivamente derrotada, inclusive na reunião presencial de março, foi atropeladamente revista em abril numa votação ocorrida pela lista de whatsapp do diretório, após a “decisão” ser tomada numa reunião da bancada federal, que contou com a participação da comissão executiva nacional.

Em resumo, com o novo padrão virtual, o novo normal do diretório nacional passou a ser o funcionamento como instância abonadora de decisões tomadas noutros espaços, que nem sempre são outras instâncias do partido. Reforça este fato as sucessivas vezes e formas em que as opiniões divergentes têm sido sistematicamente rebaixadas, desqualificadas e desconsideradas.

Chegou-se ao ponto em que até mesmo a apresentação de emendas aos textos e propostas de resolução foram restringidas. Numa das votações os integrantes do diretório nacional foram obrigados a escolher entre a apresentação de emendas e a apresentação de um texto alternativo, uma coisa ou outra. O problema é que quem apresentou texto alternativo só foi informado de que estava impedido de emendar o texto vencedor quando já não podia fazer muita coisa.

Se fosse numa reunião presencial, o desfecho do fato narrado certamente poderia ser diferente. Afinal, a democracia interna do partido garante que as minorias, apesar e justamente por serem minorias, tem todo o direito de argumentar, apresentar e defender de várias maneiras as suas posições. Mas no espaço virtual essa capacidade é extremamente reduzida, uma vez que o controle da tecnologia passa a ser uma ferramenta contra a qual pouco se pode fazer.

Há ainda outros dois elementos que constituem esse “novo normal” da direção do partido e que expressam também tendências negativas que se aprofundaram agora, para além do ultracentralismo. A primeira diz respeito ao foco na “militância nas redes”. Evidente que a capacidade de desdobrar ações para além do espaço virtual no período em que o isolamento social é a medida mais eficaz de enfrentamento à pandemia é uma tarefa imensa, mas isso não significa que o espaço das redes passou a ser o único possível.

Aliás, está longe de ser o único possível, uma vez que a grande maioria das trabalhadoras e dos trabalhadores não teve o direito de fazer o isolamento social e foi forçado a continuar se expondo ao vírus. Apesar disso, as medidas e ações mais concretas, principalmente de solidariedade e ajuda a proteção aos trabalhadores e as trabalhadoras ocuparam pouco espaço do debate partidário. O foco “nas redes” em muitos momentos, associado a dinâmica virtual da disputa parlamentar, neutralizou o debate a possibilidade da direção avançar na discussão de medidas mais efetivas junto à população.

Está relacionado com isso o segundo elemento, que diz respeito a redução na mobilização social. Já estava difícil a mobilização antes da pandemia, basta recordarmos que em 2019 a luta contra a reforma da previdência esteve muito aquém do mínimo necessário. Com a pandemia a dificuldade foi multiplicada inúmeras vezes. No entanto, para um partido como o PT e numa conjuntura como a que vivemos, a discussão sobre a necessidade da mobilização social é absolutamente necessária.

Não à toa setores populares se mobilizaram em alguns momentos deste primeiro semestre, apesar da pandemia, como as torcidas organizadas, o movimento negro e os trabalhadores de entrega por aplicativo. A direção do partido, entretanto, teve uma postura em grande medida reticente, chegando ao apoio mas não discutindo efetivamente a convocação, por exemplo.

Talvez algumas dessas questões não estejam tão visíveis, pois um último elemento desse “novo normal” é justamente a tentativa de aparentar que as coisas estão funcionando no seu conjunto. Faz parte desse esforço as transmissões feitas de partes das reuniões em que pouco ou nada é efetivamente debatido. Ou pior ainda, a convocação de reuniões em que a pauta é totalmente voltada para a transmissão, como uma grande palestra em que os membros do diretório compartilham suas telas.

Mas apesar deste esforço, o fato é que o método e a política adotada pela atual maioria da direção do partido segue muito longe de ser suficiente para este momento. Um tempo de tamanha “anormalidade” precisava de um “novo normal” que não fosse mais do mesmo.

(*) Patrick Araújo é integrante do Diretório Nacional do PT

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