Por Varlindo Nascimento (*)

É nítido e claro que o atual presidente da república não é uma pessoa provida de acervo cultural elevado, nem acúmulo de conhecimento técnico sobre qualquer assunto que esteja diretamente ligado à função que exerce. Essa constatação, por si só, não nos dá elementos suficientes para tecer um julgamento sobre sua forma de governar, nem sobre os resultados do seu governo. Porém, o dia a dia vem mostrando que Bolsonaro alinha perfeitamente a ausência de atributos à uma espécie de orgulho da própria ignorância, procurando transformar sua limitação numa qualidade e aplicando uma espécie de política de salvação messiânica.

No último domingo, dia 22 de março, em entrevista exclusiva à sua aliada TV Record, o presidente soltou mais bravatas e disparates em relação à política de combate ao coronavírus (ou à ausência delas). Diante disso, destacamos três pontos:

Primeiro usou a diferença na densidade demográfica entre Brasil e Itália para justificar um alarmismo exacerbado que tem prejudicado a economia desnecessariamente. É verdade que a Itália é um país mais densamente povoado, com mais habitantes por quilômetros quadrados. Mas a Itália também tem uma distribuição muito mais uniforme da sua população, enquanto que o Brasil tem grande parte do território com baixíssimas taxas de ocupação, como na Amazônia, no cerrado e no semiárido nordestino. Em contrapartida, outras áreas, principalmente no litoral, são extremamente populosas. São Paulo e seu entorno, por exemplo, comportam mais de 20 milhões de habitantes, enquanto que a área urbana de Milão, a maior da Itália, tem pouco mais de 4 milhões de pessoas. Isso sem nem mencionar as condições de abastecimento d’água, de saneamento e de uma série de outros serviços essenciais, que são muito mais precários aqui do que lá, aumentando os efeitos de uma crise epidêmica.

Num segundo momento, quando questionado sobre ataques que tem desferido aos governadores, Bolsonaro se defendeu dizendo que não ataca ninguém, ao contrário, que tem sido atacado por políticos com objetivos eleitorais. Ou seja, para ele o debate público não passa de uma birra, como uma criança que briga na rua e, quando a mãe o repreende, se defende alegando que o outro começou a contenda. Diante dessa impostura crônica até aqui, não há nenhuma política nacional articulada com as unidades federativas para o combate aos efeitos do vírus, o que provavelmente repercutirá diretamente no número de vítimas.

Num terceiro ponto, já no final da entrevista, ele irresponsavelmente reverbera, como feito numa live dias antes, que determinado medicamento teria efeitos positivos no combate ao COVID-19, mas sem nenhuma comprovação científica. Cita uma série de laboratórios farmacêuticos, fazendo propaganda como se fosse um “merchan”. De concreto os efeitos de mais essa irresponsabilidade foi a procura demasiada pela medicação, eliminando seus estoques e prejudicando pacientes crônicos que dependem dela para viver.

Enfim, Bolsonaro governa sabendo dos seus limites psíquicos, culturais, técnicos e sociais, e isso é um sinal de inteligência. Como um lutador de MMA, ele tenta trazer o combate para a especialidade que domina, transcendendo da ignorância pura para uma ignorância consistente e perigosa.

(*) Varlindo Nascimento é militante petista em Recife, bacharel em Geografia, pós-graduado em Sindicalismo e Trabalho, graduando em História e mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas. 

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