Por Raquel Mirian*

Existe uma ilusão embutida na dita “transição democrática” que supõe uma sobreposição da democracia aos tipos de governos anteriores. Todavia, essa falsa ideia de superação está nos moldes do sistema democrático atual, ao qual de fato o povo não delega o Poder, e a panaceia imposta pela superestrutura para o exercício da democracia representativa encontra-se devidamente institucionalizada.

Em vista disso, o sistema de freios e contrapesos baliza o funcionamento das instituições democráticas, assim como a efetivação do partidarismo e da mobilização social, mas as instituições não forjam a democracia. E o partidarismo atrelado a elas movimenta-se em sua atuação, já o meio popular vem sendo reprimido. O atual presidente não corresponde assim, ao papel do leão.

Marx se reporta à fábula de Esopo, na qual o leão contém bravura e Poder. ele se refere à parábola em que o leão, o lobo, o chacal e a raposa entram em consenso sobre dividir a presa em busca de sobrevivência. Logo o leão se coloca como possuidor do primeiro pedaço por ser o rei dos animais, depois do segundo pedaço por ser o chefe da caça, do terceiro por ser o pedaço que lhe é conveniente e do subsequente porque nenhum deles terá a astúcia de confronta-lo. A Bolsonaro, no entanto, não condiz ter a maior e a melhor parte do bolo como um leão, pois seu Poder é remanescente de um desígnio político comandado pelo capitalismo, que é operado na liquidez da realidade pelas instituições.

Na sequência, foi propositadamente cogitada por Eduardo Bolsonaro a reedição do A1-5, frente ao fantasma de uma reação radical das massas. Em uma investida para fazer esquecer o episódio que relaciona o atual presidente da República com o assassinato do motorista Anderson Gomes e a vereadora eleita Marielle Franco – mulher negra, socialista e defensora da coisa pública. Essa artimanha de engavetar um assunto sensível com uma pauta posterior passou a ser usual na Política. Enquanto alguns poucos alardeiam, a esquerda em geral segue em movimento exclusivamente responsivo aos enfrentamentos.

Nesse episódio da publicação do depoimento do porteiro desnudou-se a falta de honestidade numa ala do Judiciário – e que afeta em comum o conjunto das instituições políticas. Todavia foi o funcionário quem sofreu o linchamento moral por grupos bolsonarianos, mesmo trabalhando há 10 anos no condomínio onde reside o atual presidente, passou a ser rotulado como mentiroso sob orientação da esquerda. Tal ação se articula com a agilidade do Ministério Público em se valer de uma “perícia técnica” (que nem se deu ao trabalho de apreender o computador da guarita) para, em menos de três horas, apontar contradições e desmentir a fala do porteiro. O que nos leva a questionar, diante da falta de evidências de motivação para criação de uma denúncia infundada, que interesses estariam por trás da não elucidação do caso e do acobertamento do possível envolvimento de familiares do mandatário da Nação – ou dele próprio – no crime?

Desemprego, insegurança e instabilidades econômicas

A partir deste contexto, em que os pensamentos fluem como criações sociais que refletem ativamente na construção de nossas práticas, e a praticidade da verdade na política é em geral angustiante. As ideias consolidadas como caminho de dinamismo do real são notoriamente ilusórias, exemplo disso foram as fake news usufruídas na eleição de 2018, e a democracia participativa digital, que consagrou a falência das representações políticas e fortaleceu o desencantamento do mundo de boa parte da população que não mais acredita nas práticas políticas.

A falta da verdade passou a ser atributo político, e muitas figuras que estão na linha de frente do Poder se escondem por trás dessa artimanha. Porém, neste último sábado, o presidente da república brasileira – agora estranhamente interessado no caso Marielle, depois de ter se imposto um silêncio sepulcral sobre o tema – ultrapassou todos os limites da decência, ao informar que recolheu os áudios da guarita do condomínio onde mora, para supostamente evitar que o material fosse “adulterado”. As provas que deveriam ter estado com a “perícia” do caso, para seu parecer “isento” sobre a veracidade do depoimento do porteiro.

Diante disso, só nos resta o sentimento de justiça para com Marielle e Anderson. E também a preocupação com o porteiro, que certamente não encontrou facilidades ao realizar um depoimento que associa figuras públicas relevantes a ações de milicianos. O maior sentimento que fica é o da angústia, pela sensação de que não temos em quem nos apoiar ou recorrer, já que as instituições sociais aparecem em meio a um complô de corrupção política que exalta torturadores, oprime mulheres, faturam-se universidades, retroage o estatuto de crianças, vulgariza a justiça e inviabiliza a independência dos meios de comunicação e a democracia.

*Raquel Mirian é estudante de Ciências Sociais na Univasf e militante da AE em Petrolina-PE

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