Página 13 divulga artigo de Marcos Jakoby, militante petista, sobre a postura de alguns governadores petistas em relação ao governo Bolsonaro.

 

O episódio de Parnaíba e os governadores do PT

Na última quarta-feira, dia 14/08, Bolsonaro esteve em Parnaíba, segunda maior cidade do Piauí. Entre os seus compromissos estava a inauguração de uma escola militarizada do Sesc, que ganharia o seu nome, e a entrega do título de cidadão parnaibano concedido pela Câmara de Vereadores da cidade. Lembrando que no mês passado ele foi flagrado atacando os nordestinos e os governadores da região: “Daqueles governadores de ‘paraíba’, o pior é o do Maranhão. Não tem que ter nada para esse cara”. Ele também já ofendeu e atacou os nordestinos em outras situações.

Bolsonaro desembarcou no aeroporto de Parnaíba e foi recebido pelo prefeito de Parnaíba, o Mão Santa (PSC), e o prefeito de Teresina, Firmino Filho (PSDB).  O meu espanto foi saber que o governador do Piauí, Wellington Dias (PT), também foi lhe recepcionar. Fez inclusive um esforço para estar presente, pois tinha compromisso em Brasília onde participaria da Marcha das Margaridas. Cancelou a viagem para estar presente na visita.

A comitiva e Bolsonaro fizeram um sobrevoo em projetos de irrigação da região. Wellington Dias então seguiu para Teresina e não acompanhou a fala do presidente em palanque montado na sacada do mesmo aeroporto.  No discurso Bolsonaro atacou mais uma vez os governadores do nordeste: “Quando a gente vê agora pelo Brasil alguns governadores querendo separar o Nordeste do Brasil, esses cabras estão no caminho errado“, afirmou. “O caminho do Brasil é um só: um só povo, uma só raça, uma só bandeira verde e amarela. Mas Bolsonaro não parou por aí: “nós vamos acabar com o cocô no Brasil. O cocô é essa raça de corrupto, de comunista”, “nas próximas eleições nós vamos varrer essa turma vermelha do Brasil”.

Como se vivêssemos numa situação de normalidade política em nosso país, e parece que ignorando todas as agressões cometidas por Bolsonaro anteriormente, Wellington Dias  diz que recebeu “o presidente da República com o devido respeito e ao lado da comitiva fizemos um sobrevoo sobre os Tabuleiros Litorâneos”  (https://www.valor.com.br/politica/6391427/no-piaui-bolsonaro-promete-varrer-essa-turma-vermelha ). Pergunta: que “devido respeito” devemos a uma figura asquerosa e fascista como Bolsonaro diante de tudo o que ele tem feito e dito? Permito-me responder: nenhuma! Deve receber, sim, todo o nosso repúdio e protesto. Em nome de uma liturgia do cargo, deixamos de demarcar e demonstrar para a sociedade que Bolsonaro representa um projeto autoritário, antipopular, antinacional e violento e por isso precisa ser rechaçado e combatido.

Quando Bolsonaro chama a esquerda de um modo tão abjeto como o fez, quando diz que quer “varrer essa turma vermelho do Brasil”, ele está falando a partir de uma visão de mundo e de um projeto político e social reacionário que ele representa. Não se trata de um simples arroubo de um personagem grotesco ou de um discurso para manter coesa sua base social. É mais do que isso. Trata-se de um objetivo do movimento político e social que ele expressa, objetivo esse que está sendo perseguido de forma decidida. Prova disso é que temos vivenciado, com uma frequência crescente, ataques às liberdades democráticas, assim como, assassinatos de lideranças populares, indígenas e camponesas. Presenciamos também uma escalada de violência contra negros, ambientalistas, mulheres, jovens e pobres, estimulada justamente por um ambiente projetado pelo bolsonarismo e seus aliados. Isto está dentro de um contexto. O programa econômico e social do governo Bolsonaro – marcado sobretudo pelo ultraliberalismo – está gerando desigualdade, pobreza, miséria e um grau de exploração numa escala gigantesca e com isso a insatisfação social tende a se tornar cada vez maior. A própria aplicação do programa exige enfraquecer a resistência popular e da esquerda. Trata-se, portanto, de um meio de assegurar a dominação sobre amplas camadas populares.

Por outro lado, precisamos lembrar que Bolsonaro chegou ao posto de presidente por intermédio do golpismo e de uma eleição fraudulenta, que seu governo é sustentado por uma coalizão poderosa e que esse governo possui não somente um caráter ultraliberal, mas também neofascista. Não iremos deter essa ofensiva com “bom-mocismo”. Será necessária muita luta política, social, cultural e ideológica. Muitas lideranças da esquerda e algumas figuras públicas do PT tem dificuldades de operar com isso na prática. De compreender que as classes dominantes e seus representantes políticos estão em guerra com a classe trabalhadora, as forças populares e democráticas.

Por isso, a postura frouxa com que alguns governadores do PT vêm demonstrando é um grande equívoco. No mês passado foi Rui Costa (governador da Bahia), que havia feito um convite a Bolsonaro para cerimônia de inauguração do aeroporto construído pelo estado, em Vitória da Conquista. Resultado: Bolsonaro atropelou o governador, construiu um clima hostil e Rui Costa passaria de anfitrião para excluído da festa. Agora, o governador do Piauí, que deixa de ir à uma marcha importante das mulheres camponesas para recepcionar Bolsonaro no aeroporto, cujo local serviria, poucas horas depois, para um discurso fascista e para atacar os próprios governadores.

Tem gente que se assombra com aquele eleitor do Bolsonaro que sofre na pele as medidas de seu governo e ainda lhe empresta apoio. Mas o que dizer daqueles na esquerda que não conseguem se livrar das amarras e das ilusões da conciliação e do “republicanismo”, mesmo depois de tantos golpes? A quadra histórica em que nos encontramos exige da esquerda, principalmente de suas lideranças, coragem e uma compreensão de que a extrema-direita e seus aliados não serão derrotados com “bom comportamento” e exemplos de que somos bons “republicanos”.

Aliás, Bolsonaro demonstrou, tanto na Bahia quanto no Piauí, que frente a essa postura titubeante da esquerda ele se sente ainda mais à vontade para nos agredir. Ou seja, mesmo que a intenção e o raciocínio fossem contrastar a forma virulenta e baixa com que Bolsonaro age com a nossa postura “respeitosa”, isso não produz efeitos políticos desejados. De um lado, Bolsonaro não sente nem um pouco inibido com essa atitude recuada, ao contrário, ele entende isso como sinal de fraqueza e aumenta o tom das investidas e agressões contra nós; e, por outro lado, a base social e as amplas parcelas do povo veem lideranças nossas se colocarem numa postura rebaixada. Isto é, quem quer respeito precisa “se dar ao respeito”.

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