Por Luana Vitória (*)

Conciliar ou abandonar? Esse tem sido o dilema de muitas mulheres brasileiras que são mães, trabalhadoras e, além disso, precisam estudar em casa, devido à pandemia do novo coronavírus. Não é necessário que haja um caos sanitário, que nos restringe ao lar, para saber que as mulheres precisam enfrentar a dupla jornada de trabalho: o “formal”, aquele que lhes garante o sustento, e o doméstico, um trabalho subalternizado pelo capitalismo, imposto pelo patriarcado, para que as mulheres tenham a sobrecarga dos serviços do lar. Com a pandemia, que desde março de 2020 nos empurrou para o isolamento social, intensificou-se a carga de afazeres domésticos, o cuidado com os filhos em tempo integral, além dos próprios estudos, feitos de forma remota. As mulheres têm se sacrificado, para dar continuidade aos seus sonhos, mesmo sem nenhuma rede de apoio.

Exemplo disso é o caso da Marceli Moreira, mãe, estudante de História na Uninter de Porto dos Gaúchos (MT) e trabalhadora, que teve que enfrentar as adversidades do isolamento social e a jornada tripla de trabalho: “almejo me profissionalizar, e para que isso ocorresse eu precisava ter um curso superior. Eu preciso de um futuro com estabilidade financeira e isso seria possível se tivesse um diploma de um curso superior. E mais uma vez veio o problema (da pandemia), já que um curso superior necessita de uma dedicação maior, e quando você trabalha, é dona de casa e tem filhos, concluir um curso superior complica, mesmo que você tenha garra e foco, e isso eu tenho, a dificuldade foi, ler, fazer trabalhos científicos, trabalhar, cuidar da casa e da minha filha. Marceli relata como foi essa experiência: “trabalhava no horário comercial, brincava com minha filha em horário de almoço, e pós expediente e no período noturno, depois terminar meus afazeres domésticos, alimentar minha filha e colocá-la para dormir, eu ia para o computador, ler, estudar e fazer meus trabalhos, e foi assim que consegui conciliar, faculdade, trabalho, afazeres domésticos e ser mãe durante essa pandemia.”

No relato de Marceli está implícita a sobrecarga emocional e física dessa jovem mulher, que tenta conciliar os seus sonhos com a luta cotidiana de ser mãe e trabalhadora, conciliação que custa caro.

Outro exemplo é o da Aurélia Rezer, que também é mãe, estudante de Biologia na Uninter de Porto dos Gaúchos (MT) e trabalhadora: “Para mim, está sendo muito difícil! Eu tenho minhas atividades da faculdade. Tenho que ajudar minhas filhas, uma que está no ensino fundamental e outra que está na creche e tenho que trabalhar todos os dias… Muito complicado… E tem serviço de casa ainda.”

A situação de Marceli e Aurélia são evidências do patriarcado enraizado em nossa sociedade. O patriarcado define quais são os papéis das mulheres, de modo que pareçam naturais e universais; certamente, muitas pessoas que sabem da história dessas mulheres não acham estranho as mesmas passarem por todas essas dificuldades para se formarem. Poucos, no entanto, se perguntam: “onde estão os pais dessas crianças na divisão das tarefas?”. Esse questionamento raramente surge porque a divisão sexual do trabalho, que sobrecarrega as mulheres, está materializada na vida de todas nós, que sofremos com a romantização do nosso trabalho triplo: o cuidar de si, do lar e dos filhos, como se o cuidado fosse inerente à mulher.

Como disse a pensadora Márcia Tiburi: “O trabalho é uma necessidade que a civilização nos impõe. O trabalho é o oposto do prazer. Ora, o prazer custa caro em uma sociedade capitalista”. O cansaço físico e psicológico faz com que muitas desistam de seus trabalhos “formais”, para cuidar da casa e dos filhos, deixando a emancipação financeira em segundo plano, diferente do caso de Marceli e Aurélia que ainda lutam com a dupla opressão: patriarcado e capitalismo. No dia a dia da pandemia, essa tripla jornada se expressa através do dilema: conciliar ou abandonar os estudos?

O ano de 2020 comprovou que ainda há muito pelo que lutar. Marceli e Aurélia são apenas duas das milhões de mulheres, mães e estudantes que tiveram que se desdobrar para passar pela pandemia. É extremamente necessária a construção de uma luta que coloque as reivindicações das mães estudantes no centro da discussão. Precisamos de mais investimentos no Pnaes para garantir mais vagas nas creches, mais políticas que construam uma rede de apoio a essas mulheres e, principalmente, uma luta incessante pelo fim do machismo que nos quer subordinadas e fora dos espaços acadêmicos. Queremos as mulheres entrando, permanecendo e transformando a universidade – e também a sociedade.

(*) Luana Vitória é estudante de Enfermagem na UFPI e Diretora de Mulheres da UEE – PI


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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