Por Roberta Calixto (*)

O continente africano foi o último no mundo a ser atingido pela pandemia do Covid-19. Somente em 26 de fevereiro, quando no mundo inteiro mais de 80 mil casos já haviam sido confirmados, houve o registro do primeiro caso no continente. De lá para cá, o levantamento divulgado no dia 02 de maio pelo Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da União Africana registrou 1.689 mortes, 40.746 casos confirmados da doença, além de 13.383 pessoas recuperadas.

Embora os números africanos sejam bem mais baixos do que a maioria dos  lugares do planeta – somente a cidade de São Paulo, mesmo com altas taxas de subnotificação, já registra mais mortes que toda a África – as expectativas sobre o impacto da doença no continente seguem catastróficas. O afropessimismo, conceito que diz respeito às distorções da realidade africana, construídas a partir da divulgação única de informações negativas a respeito continente, ganha nova força nos discursos produzidos pela mídia e organizações internacionais que, de maneira geral descredibilizam os números apresentados e a capacidade dos governos em lidar com a pandemia.

A Comissão da Organização das Nações Unidas para a África projetou um cenário em que 1,2 bilhão dos 1,3 bilhão de habitante da África seriam contaminados em caso de não-implantação de medidas preventivas por parte dos Estados africanos. A divulgação deste plano de projeção se deu, no entanto, num momento em que diversas medidas já haviam sido implementadas por parte de diversos governos africanos: em África, há 43 países com as fronteiras totalmente fechadas, sete com circulação aérea suspensa, três com restrições de entrada e saída e dois com restrições de entrada a cidadãos de países de risco.

A OMS também revelou preocupações em relação a um possível crescimento da doença diante da precária estrutura dos sistemas de saúde africanos. A afirmação se baseia na comparação com a África do Sul, “uma das melhores economias região”. Mas no caso sul africano, como em outros ao redor do mundo, a desigualdade social e o racismo tem se mostrado tão cruéis quanto o vírus: crescem no país os casos relatados de truculência policial nos bairros mais pobres a partir da decisão do governo de colocar militares nas ruas para garantir o isolamento social. Nesses lugares, de maioria negra, a população precisa sair com mais frequência de casa para realizar tarefas essenciais como buscar água, ou mesmo para buscar comida, uma vez que à população em geral faltam recursos para fazer estoques.

Embora a maioria dos estudos científicos e relatórios de órgãos internacionais insistam na relação entre desenvolvimento econômico e impacto do vírus, o microbiologista Vlademir Cantarelli destaca como, na África, a grande quantidade de pessoas que moram distantes dos grandes centros onde costuma circular o vírus, e a organização de boa parte da população africana em pequenas cidades pode colaborar para minimizar o impacto da doença. Angola, por exemplo, retoma gradualmente o funcionamento em 17 das 18 províncias, uma vez que a capital Luanda concentra todos os casos de Covid registrados no país.

Longe das visões catastrofistas, a África vem realizando um debate interno para conter os efeitos do vírus não só na saúde, mas também nas economias dos países africanos. À exemplo disso, 50 intelectuais africanos assinam um documento em que analisam a situação dos países e propõem que soluções para o continente sejam tomadas em conjunto. Destacam que a reativação do afropessimismo é um dos fatores que mais pode prejudicar a economia no curto e médio prazos e que a principal fragilidade do continente nesse momento é a forte dependência externa. Mesmo diante dessa análise, acreditam na capacidade e criatividade do povo africano e colocam como tarefas urgentes para a África “a produção local de serviços de saúde de qualidade, o processamento local de matérias-primas para criar valor e emprego e a diversificação produtiva da base”.

Um cenário de alta proliferação do vírus na África obviamente não está descartado e as consequências são imprevisíveis, porém nesse momento, tal como em tantos outros na história, o Ocidente tem negado à África o direito de contar a sua história e propor suas próprias soluções. O isolamento social e o fechamento de fronteiras impõem, entretanto, um cenário em que muitas e novas possibilidades de viver e se relacionar podem surgir internamente. Repensar nossos modos de vida é urgente e necessário.

(*) Roberta Calixto é secretária adjunta da juventude do PT-RJ

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