Por Marcos Jakoby (*)

Ontem, dia 15/05, aconteceu uma reunião da executiva nacional do PT, onde a questão central foi a definição de que o Partido irá encaminhar um pedido de impeachment, como um dos movimentos a serem feitos na luta para derrotar Bolsonaro e seu governo.

Contudo, há um outro elemento importante, levantado durante a reunião, que merece destaque. A princípio, parece algo pontual, no entanto é revelador para pensarmos os caminhos da esquerda e a nossa tática na atual conjuntura. Trata-se do pagamento do auxílio emergencial de R$ 600 aos trabalhadores de baixa renda prejudicados pela pandemia do covid-19.

Comentou-se que a concessão do auxílio seria uma das razões para que, num momento de aprofundamento da crise, Bolsonaro tivesse um relativo respaldo social, de quase um terço da população. E esse apoio, por sua vez, exerceria influência sobre setores do Congresso para não dar prosseguimento a um pedido de impeachment. Em suma, mesmo com pagamento atrasado e as enormes filas diante das agências bancárias, o auxílio estaria ajudando a Bolsonaro a manter uma base social.

O raciocínio parece ter sentido e encontra amparo nas últimas pesquisas de opinião. Bolsonaro mantém a aprovação (ótimo e bom) na casa dos 30%, desde antes da crise, sem grandes variações nessa faixa de avaliação. No entanto, prestando um pouco mais de atenção nos dados, percebe-se uma mudança qualitativa, uma transmutação naquele um terço que lhe empresta apoio.

Deixaram de aprovar Bolsonaro pessoas de extratos sociais com maior renda e escolaridade; e, por outro lado, uma proporção semelhante de pessoas, que tem até o ensino fundamental e uma renda baixa, que as coloca entre as camadas mais pobres da sociedade, passaram a avaliar melhor o governo. Esses setores compõem exatamente o perfil do público que tem direito a receber o Auxílio Emergencial. Portanto, a hipótese de que o benefício tenha ajudado Bolsonaro a alcançar um maior apoio nestes setores sociais não é descabida e tem lógica.

Curioso é que Bolsonaro e o seu governo relutaram muito em aprovar o benefício, na atual configuração, tinham como meta, no máximo, um projeto com um valor muito inferior, de 200 reais. Ademais, o projeto que deu origem ao benefício foi apresentado pelo Partido dos Trabalhadores e previa um valor de um salário mínimo.  Foi a luta da esquerda e da oposição que resultou num auxílio bem superior ao pretendido pelo governo. No fim, de qualquer forma, trata-se de uma vitória do campo popular em defesa dos interesses dos trabalhadores mais desamparados nessa crise, embora persista a luta para efetivá-la.

Contudo, por ironia, quem está capitalizando politicamente com o Auxílio é Bolsonaro. O governo, que foi contra o projeto, que demorou a sancionar, que demorou a operacionalizar e a pagar, e que ainda o faz com filas criminosas e total desrespeito aos trabalhadores, é quem está colhendo, junto a esses setores, um maior apoio. Porque, ao fim e ao cabo, quem paga o benefício, com recursos públicos, é o governo federal.

Quais lições podemos tirar disso? Podem ser várias. Uma delas é de que não basta pautarmos lutas e demandas concretas, ou econômicas, da população, como as medidas emergenciais para combater a pandemia e seus efeitos, sem atrelarmos e apresentarmos com muita nitidez a luta política geral contra o governo, que na atual conjuntura se traduz na luta por afastar Bolsonaro & Mourão.

Em outras palavras, para a esquerda é fundamental, inclusive para ser reconhecida pela população por conquistas importantes como a do Auxílio, nos apresentarmos com um protagonismo capaz de tornarmos em um dos polos da disputa política em curso no país. Por isso, equivoca-se quem, no campo da esquerda, acha que não é momento de “fazer política”, ou de que o “momento é de união”, inclusive com inimigos do povo. Primeiro, porque o lado de lá faz política a cada movimento, e o tempo todo, realiza disputa política permanentemente; segundo, porque quem se beneficia dessa inércia são justamente as forças políticas que têm gerado essa crise e nos levados para uma situação sanitária, econômica e social sem precedentes.

Parte do PT, também algumas outras forças da esquerda, tem titubeado em colocar a luta contra Bolsonaro e seu governo em primeiro plano porque “não seria o momento”. Essa vacilação foi percebida na demora do Partido em aprovar a palavra de ordem “Fora Bolsonaro” e em subscrever um pedido de impeachment. Sem falar de outros movimentos e de uma campanha organizada e sistemática contra o governo. É fundamental que o conjunto da esquerda adote, na prática, uma postura de enfrentamento geral e sistemático a Bolsonaro e seu governo. Dizendo de outra forma, que faça política, pois se não fizermos, outros a farão.

(*) Marcos Jakoby é professor e militante do Partido dos Trabalhadores

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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