Página 13 repercute matéria publicada na revista The Economist ,  traduzida por Rodrigo Cesar, sobre o risco de guerra depois dos ataques à Aramco, a petrolífera estatal saudita.

Estados Unidos e Arábia Saudita podem sentir-se compelidos a retaliar o Irã

16 de setembro de 2019

O PRESIDENTE DONAL TRUMP diz que forças americanas estão “a postos” [lock and loaded] para atingir os responsáveis pelos ataques devastadores com drones e mísseis à indústria da Arábia Saudita em 14 de setembro. Estará ele prestes a puxar o gatilho para outra guerra no Oriente Médio?

A responsabilidade pelos ataques nos campo de petróleo em Khurais e as instalações de processamento de petróleo – a maior do tipo no mundo – em Abqaiq foi reivindicada pelos rebeldes Houthi apoiados pelo Irã que lutam contra uma coalizão liderada pelos sauditas na guerra no Iêmen. Mas autoridades americanas descartaram esta possibilidade. Eles não apenas dizem que o armamento utilizado foi fabricado no Irã. Também acreditam que os ataques vieram não do sudeste da península arábica, ou seja, o Iêmen, mas do norte, do Iraque, onde o Irã organiza milícias xiitas; ou de fato do próprio território iraniano. “O Irã lançou agora um ataque sem precedentes no suprimento mundial de energia”, tuitou Mike Pompeo, o secretário de Estado. “Não há evidencia de que os ataques vieram do Iêmen”.

Trump foi mais belicoso mas, notavelmente, menos específico. Ele não nomeou o Irã, mas sugeriu que os EUA sabiam quem foi responsável pelos ataques e estava aguardando confirmação da Arábia Saudita quanto ao culpado. Em questão de horas, a coalizão liderada pelos sauditas lutando contra os Houthis no Iêmen deu sustentação à declaração de Pompeo.

Ainda assim, Trump já esteve nesta mesma situação com suas ameaças de guerra. Ele utilizou a mesma frase “a postos” [lock and loaded] para ameaçar a Coréia do Norte em agosto de 2017, antes de conhecer “se apaixonar” por seu ditador, Kim Jong Um, no ano seguinte. E há apenas três meses, Trump revelou que os EUA estavam “a postos” quando abortou um ataque aéreo contra o Irã apenas dez minutos antes devido à possibilidade de vítimas civis.

O ataque planejado serviria de punição ao Irã por abater um drone de vigilância americano, uma das muitas provocações do Irã nos últimos meses. Elas incluem sabotagens a navios no Golfo atribuídos a representantes iranianos; frequentes ataques com drones pelos Houthis no Iêmen (Pompeo tuitou que o Irã estava por trás de “cerca de 100” ataques na Arábia Saudita); e o anúncio do Irã em julho de que ultrapassou os limites impostos ao seu estoque de urânio pouco enriquecido que havia aceitado em 2015 no acordo com as potências mundiais para coibir seu programa nuclear, o Plano de Ação Conjunto (Joint Comprehensive Plan of Action – JCPOA).

Trump foi eleito com a promessa de tirar os Estados Unidos de suas prolongadas guerras no Oriente Médio e muitas vezes procurou reduzir a presença militar americana na região. De fato, sua relutância em recorrer à ação militar é uma das muitas diferenças de opinião que levaram à saída de seu conselheiro de segurança nacional, John Bolton.

No entanto, os ataques a Abqaiq e Khurais – se o Irã foi de fato responsável – são as provocações mais sérias até o momento. Essa é uma das três razões pelas quais as ameaças mais recentes de Trump podem ser mais substanciais do que as anteriores. A segunda é a própria familiaridade. Um homem tão consciente de sua própria imagem e importância quanto o presidente não vai querer ser conhecido como um lobo que chora repetidamente.

A terceira é o que Emile Hokayem, analista do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, um think-tank de Londres, chama de “falha de projeto” na política de “pressão máxima” sobre o Irã que os EUA adotou quando Trump o elaborou no JCPOA ano passado. A política de prejudicar a economia do Irã por meio de sanções na esperança de forçá-lo a abandonar seu programa nuclear e controlar seus representantes em outras partes do Oriente Médio, “carece de uma estratégia de escalada”. O Irã, por sua vez, certamente tem esta estratégia. À medida que aumenta constantemente suas provocações, os EUA e seus aliados sauditas correm o risco de parecer banguelas.

No mínimo, pequenas esperanças de que Trump encontre o presidente do Irã, Hassan Rouhani, nas próximas semanas parecem frustradas. A ideia da primeira cúpula presidencial desde a revolução iraniana em 1979 foi impulsionada pelo presidente da França, Emmanuel Macron, na cúpula do G7 em Biarritz no mês passado. Trump e Rouhani pareciam ter recebido bem a ideia, mas ela sempre foi contestada pelo líder supremo do Irã, Ali Khamenei, e pelo poderoso Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica. Alguns acham que o ataque à Arábia Saudita é uma tentativa dos linha-dura de acabar com qualquer esperança de reaproximação.

O mercado de petróleo, profundamente afetado pela produção perdida, pode de fato desencorajar uma ação militar americana. Parte do aumento imediato no preço (de cerca de 20% inicialmente, antes de recuar) foi resultado de um choque de oferta. Reduziu a produção de petróleo saudita em quase 60% e a do mundo em 6%. Autoridades sauditas disseram que esperam restaurar um terço da produção até o final de segunda-feira. Mas voltar aos níveis pré-ataque levará semanas.

Em resposta, Trump autorizou no domingo a liberação de estoques da Reserva Estratégia de Petróleo dos EUA para “manter os mercados bem abastecidos”. Ele também disse que o governo aceleraria a aprovação de projetos de petróleo no Texas e em outros lugares. A pressão sobre o preço, no entanto, não vem apenas do grande corte na produção, mas do medo crescente de conflito – isto é, de uma futura perturbação muito mais grave. Com as crescentes preocupações em torno dos problemas que a economia global enfrenta uma guerra no Oriente Médio dificilmente seria uma solução.

Fonte: The Economist         

Tradução: Rodrigo Cesar

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