Por Patrick Araújo (*)

No dia 17 de janeiro, em São Paulo, reuniu-se e tomou posse uma nova gestão do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores. Eleito para um mandato de quatro anos, a nova direção é resultado do contestado processo de eleições diretas (PED) realizado em setembro de 2019 e do 7º Congresso nacional do PT, ocorrido em novembro.

A reunião teve como pauta: o ato de posse do diretório nacional e eleição da comissão executiva nacional; conjuntura, com uma exposição da professora Marilena Chauí; as resoluções pendentes de aprovação do 7º Congresso Nacional do PT; o calendário eleitoral e o “Refis”; o festival PT 40 anos; e informes.

Apesar da evidente necessidade de tempo para que se pudesse dar conta da pauta apresentada, a reunião foi convocada para um único dia. Apesar, também, de competir ao conjunto do diretório nacional aprovar os nomes dos componentes da Comissão Executiva Nacional, eles não foram oficialmente conhecidos até o início da reunião. Tampouco foi apresentado, pelo atual grupo majoritário ou pela direção cessante, qualquer texto que subsidiasse o debate de conjuntura.

Os subsídios para a reunião foram: um texto sobre a situação internacional, apresentado pela chapa Optei pelo socialismo Lula Livre/Em tempos de guerra a esperança é vermelha, texto que publicamos nesta edição do jornal Página 13; e um texto de “Reflexões sobre a conjuntura econômica e social do Brasil”, assinado por integrantes do Núcleo de Políticas Públicas (NAPP) de economia.

A reunião de apenas um dia e a ausência de um projeto de resolução elaborado previamente pela instância não são fatos excepcionais ou surpreendentes. Pelo contrário. Infelizmente, parece que este é um método de trabalho, ou uma forma adotada pela atual maioria na condução do partido. Afinal de contas, a primeira reunião do Diretório Nacional do PT, realizada em meio a situação por que passa a maioria da classe trabalhadora no mundo, na América Latina e no Brasil, deveria ser um dos mais importantes espaços de reflexão, debate e produção de orientações políticas para a militância petista. Não foi.

A reunião cumpriu um papel quase protocolar, centrada em torno da eleição da nova comissão executiva nacional e das tentativas do setor majoritário do partido de resolver seus problemas e disputas internas. Não à toa que, eleita a comissão executiva nacional e feita a exposição sobre conjuntura, com um pequeno número de inscrições para debater, a presidenta do partido não se furtou em colocar em votação o encerramento da reunião, horas antes do previsto para seu fim.

Além disso, absolutamente nenhuma proposta de resolução política foi discutida ou aprovada pelo diretório. Nem mesmo aquelas pendentes dos debates ocorridos no 7º Congresso e remetidas justamente para que esta reunião aprovasse. A impressão que fica é a de que existe um grau elevado de descolamento e de desconexão da maioria eleita para dirigir o PT e a vida da grande maioria da classe trabalhadora. Sequer o tema das eleições municipais foi objeto de discussão. Não fosse a fala do ex-presidente Lula, enfática sobre o PT ter o maior número de candidaturas possíveis, o assunto não ocuparia espaço na reunião.

Outro tema que não compareceu foi a tática que o partido adotará frente ao governo Bolsonaro. Afinal de contas, será no caminho da oposição exclusiva ou principalmente parlamentar que o partido seguirá investindo, muitas vezes em detrimento das mobilizações de massas, ou a nova direção buscará organizar o enfrentamento combinando a luta institucional, com a organização popular, a mobilização de massas e a disputa cultural? E se for isso, como será feito? Qual o papel que o companheiro Lula terá? Como avançaremos no sentido de garantir que ele além de solto, fique de fato livre, inocentado e recuperando plenamente seus direitos políticos?

Eram as respostas para essas perguntas, entre tantas outras questões, que deveriam ter sido profundamente debatidas pelos dirigentes do PT. A opção feita por aqueles que possuem a maioria de ignorar estas questões e se concentrar em resolver seus próprios problemas (quem vai ocupar que cargo) em detrimento do conjunto do partido é sintomática de como deverá ser sua condução ao longo do próximo período.

A energia gasta para acomodar seus aliados e para tentar neutralizar opiniões divergentes também demonstra isso. A terceira chapa mais votada foi excluída dos 6 cargos mais importantes (tesouraria, comunicação, organização, geral, relações internacionais e formação) da Comissão Executiva Nacional. A primeira chapa (CNB) ficou com três desses cargos: tesouraria, comunicação e organização. Aliás, desde 1995 até hoje, por 25 anos, uma única tendência controla ininterruptamente as finanças nacionais do Partido. A segunda chapa ficou com a formação. A quarta chapa com a geral. E a quinta chapa com as relações internacionais.

Em resumo: a primeira reunião do novo diretório nacional evidenciou que, mesmo tendo uma nova direção, o problema que enfrentamos é fundamentalmente a política que essa direção expressa. E no caso do novo diretório, ele parece não carregar nada de novo, mas sim, a mesma política que foi uma das responsáveis por conduzir o PT até a situação em que ele se encontra hoje.

(*) Patrick Araújo é integrante do Diretório Nacional do PT.

 

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