Por Marcos Aurélio da Silva (*)

É urgente que a esquerda brasileira estabeleça uma crítica da “Quarta Teoria Política” de Aleksander Dugin, o cientista político russo que começa a fazer a cabeça dos estudiosos brasileiros — e até dos partidos de esquerda — voltados à análise geopolítica contemporânea. A trajetória de Dugin é, com efeito, das mais complicadas, e suas conexões políticas atuais não menos problemáticas.

De fato, deveria bastar uma observação sobre estas conexões para nos alertar quanto aos perigos de uma absorção de suas ideias pela esquerda brasileira, fenômeno pronto a reproduzir a onda de socialchauvinismo de que falou Stefano Azzarà (2019) tratando da esquerda “soberanista” europeia.

A rigor, uma maneira falsa de pôr a importante “questão nacional”, cara ao pensamento marxista pelo menos desde Lenin. Uma forma na verdade aberta ao fenômeno do “novo populismo” — e toda sua narrativa em torno dos falsos culpados, os imigrantes em primeiro lugar (obsessão do populismo de direita), mas não menos os novos movimentos sociais (obsessão do populismo de esquerda), ligados aos direitos civis (negros, gays, mulheres, ambientalistas), por supostamente desviarem a luta do proletariado e a luta contra a dominação imperialista (Azzarà, 2019, pp. 56 e segs.).

Portanto, no lugar de uma redefinição destas lutas, incorporando-as teórica e politicamente como uma specie de luta de classe (Losurdo, 2015, pp. 63-4), estamos diante de um claro processo de aceitação do assédio ideológico da direita, que assim opera no interior do campo adversário aquilo que Gramsci chamou de transformismo — uma “ação hegemônica” de ordem “intelectual, moral e política”, cujo resultado é a “absorção” dos “elementos ativos” do campo adversário (Gramsci, 1975, p. 2011).

Dugin esteve reunido em 2016 com Matteo Salvini — para quem não sabe o capo da Lega Nord, o mais forte partido da extrema direita italiana atualmente — e em 2018 com ninguém menos que Steve Bannon, que então aproveitou para declarar-se fã do livro de Dugin (Teitelbaum, 2020, pp. 94-96).

A história intelectual de Dugin começa nos anos 80, quando ele se liga a um círculo intelectual ‘underground’ de nome Yuzhinsky, cujas origens remontam à Moscou dos anos 60. Os interesses intelectuais do grupo eram o fascismo, o nazismo, o nacionalismo, o ocultismo, o misticismo, tudo misturado com algumas bebedeiras para “abrir as mentes”.

“O grupo era antissoviético”, simpatizando com o nazismo, não necessariamente por amor a Hitler ou ao anti-semitismo, mas porque era “um claro inimigo histórico” (a colorful historic foe) do seu próprio governo (Teitelbaum, 2020, p. 41). Mas não deve haver dúvida que a ênfase nas “identidades”, forma de propor uma superação do “nacionalismo” e do “comunismo”, lança-se a um claro flerte — para dizer o mínimo — com as velhas ideologias völkisch.

Se observamos bem, uma formulação para a geopolítica que é mesmo mais atrasada que aquela do último Vidal de la Blache, que na França do Leste lançou mão não de argumentos étnicos para defender que a região da Alsácia-Lorena ficasse com a França, falando antes em termos políticos e sociais.

Tudo isso é muito complicado, o que significa dizer que a “Quarta Teoria Política”, que embala as formulações de geopolíticas de A. Dugin, está a exigir um urgente e rigoroso exame crítico. Até porque, como acima dito, começa a fazer a cabeça de segmentos da esquerda brasileira, inclusive engajada em partidos, e até professores universitários.

Trata-se, no fundo, de uma espécie de aggiornamento daquilo que Gramsci no caderno 2 chamou “euroasiatismo”, o movimento intelectual que, nos idos de 1921, tendia a estabelecer uma “revisão do comportamento dos intelectuais emigrantes” acerca da Rússia soviética, entendendo-a “mais asiática do que ocidental” (Gramsci, 1975, p. 180) .

Nas palavras de Gramsci, os euroasiáticos “não são bolcheviques, mas são inimigos da democracia e do parlamentarismo ocidental. Eles se comportam frequentemente como fascistas russos, como amigos de um Estado forte em que a disciplina, a autoridade, a hierarquia tem que dominar a massa”; seus integrantes “saúdam a ordem estatal vigente na Rússia dos Sovietes não obstante estes contemplem substituir a ideologia nacional por aquela proletária” (Gramsci, 1975, pp. 180-181).

Como seria de esperar, para os dughistas brasileiros, a “Quarta Teoria Política” figura como a fênix capaz de fazer renascer o nacionalismo pátrio — de reconhecidos serviços prestados na fase do desenvolvimentismo, mas não exatamente organizado pelas classes subalternas.

A um atento marxismo, todavia, trata-se apenas de uma confusão que perde de vista aquela dialética crucial entre o “nacional” e o “internacional” que no caderno 7 Gramsci assinalou ser cara a Lenin. E eis porque o grande comunista italiano preferiu defini-lo não como um “nacionalista”, ou tampouco um “cosmopolita” (esta última uma inclinação observada em Trotsky), mas um revolucionário ao mesmo tempo “profundamente nacional e profundamente europeu” (Gramsci, 1975, p. 866). Vale dizer, um internacionalista no rigoroso sentido do marxismo.

(*) Marcos Aurélio da Silva é prof. no Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina (CFH/UFSC).


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

Referências

Azzarà, S. G. ‘Sovranismo o questione nazionale? Il rinselvatichimento socialsciovinista nella politica odierna. In: Il secondo tempo del populismo. Sovranismo e lotta di classe. Roma: Momo edizione, 2019.

Gramsci. A. Quaderni del Carcere: Edizione critica dell’Istituto Gramsci. A cura di Valentino Gerratana. Torino: Einaudi, 1975.

Losurdo, D. A luta de classe. Uma histórias política e filosófica. São Paulo: Boitempo, 2015.

Teitelbaum, B. War for Eternity: The Return of Traditionalism and the Rise of the Populist Right. Londres: Penguin Books, 2020.

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