Por Antônio Augusto (*)

Não é por acaso que o Brasil ultrapassou nesta sexta, 11 de dezembro, a cifra de 180 mil mortos pela Covid-19.

Exemplo da cumplicidade das autoridades na escalada de mortes é a última medida do prefeito carioca Marcello Crivella: sob o pretexto de “combater a epidemia”, ele permitiu que os shoppings fiquem abertos durante as 24 horas do dia.

Mas como assim? Shoppings cheios, época natalina, grande aglomeração de pessoas, não favorecem a propagação exponencial do vírus?

Crivella então se saiu com essa: ora, se os shoppings funcionarem sem fecharem, “se evitará a aglomeração nos transportes”.

Desfaçatez típica de um picareta “religioso” da Igreja Universal.

Edir Macedo já ensinara: templos abertos 24 horas para “salvar as almas” e… se recolherem contribuições em horário integral, sem interrupções.

 

A VIA-CRUCIS DE DONA DILMA MIRANDA,

PACIENTE QUE MORREU SEM CONSEGUIR UM LEITO

Dilma Miranda, senhora de 61 anos – nos informa o jornal carioca “O Dia” -, morreu na última terça-feira, dia 8 de dezembro, após esperar 12 dias por um leito de UTI; morreu numa ambulância indo do Hospital do Andaraí para o Hospital Ronaldo Gazolla.

Durante 6 dias ela não conseguiu sequer um leito comum num hospital, obrigada a ficar sentada o tempo todo numa cadeira.

Na região metropolitana do Rio, até novembro, cerca de 49% dos pacientes da Covid-19 morreram sem conseguir um leito de UTI. O número, sem dúvida, é maior em dezembro, apesar da precariedade das estatísticas; inclusive com muitas subnotificações de causas de óbitos no interior, como aponta nota técnica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Atualmente, 90% desses leitos estão ocupados, somadas as redes pública e privada. O especialista Diego Xavier, da Fiocruz, alerta que “o Brasil pode viver uma pressão total na capacidade de atendimento. Na maioria dos lugares, a assistência à saúde será incapaz de atender à demanda”. Ou seja, o povo não terá, como já ocorre crescentemente, nem a atenção ultra-precária de agora.

E Crivella dizia que deveria ser reeleito para seguir “seu trabalho contra a epidemia”. Mas o que os bolsonaristas não dizem? O bolsonarismo é demagogia pura no banquete das “fake news”.

O cinismo não é só de Crivella, mas também do governador em exercício do estado do Rio, Cláudio de Castro, que decretou para o estado também a abertura por 24 horas dos shoppings. A decisão foi tomada de comum acordo entre os dois.

Ele surgiu como cantor religioso do extremamente conservador grupo “Renovação Carismática”, da Igreja Católica. Vice de Witzel, assumiu mas está igualmente enroladíssimo em processos de corrupção.

Filiado ao PSC, a mesma sigla de aluguel do governador Wilson Witzel, este afastado por sobrefaturar “hospitais de campanha” contra a Covid que… não atenderam paciente algum.

 

VADE-RETRO, 171s

O PSC é do pastor Everaldo, preso na Penitenciária de Bangu, no Rio, por corrupção, ele, caricatural ex-candidato à Presidência da República.

No seu currículo, ou folha corrida, aparelhou a Cedae (companhia pública de águas do estado do Rio de Janeiro) nomeando pastores, o que redundou em água poluída nas torneiras das casas dos cariocas.

Claro, deu passos largos para a privataria em marcha acelerada da Cedae, pois o pastor também é da “modernidade neoliberal”.

Everaldo, como os picaretas que enriqueceram e fizeram carreira no período da ditadura militar, sempre repetiu que “a ditadura não existiu”.

A Igreja Universal é tão afinada com Bolsonaro que o picareta-mor do país fez campanha para Crivella no 1º turno, e dois de seus filhos (Carlos Bolsonaro, vereador no Rio, e o notório corrupto Flávio Bolsonaro, senador no Rio), após o entrevero entre as milícias do PSC embarcaram no PRB, o braço político da Igreja Universal. No 2º turno, Bolsonaro malandramente sumiu da campanha de Crivella, dada a impopularidade do seu candidato.

Crivella, a exemplo de Everaldo, diz que “quando as coisas vão mal, a gente chama os militares”.

Já imaginaram o “malefício” que seria shoppings não funcionarem as 24 horas do dia em pleno recrudescimento da epidemia?

Como haveria ricos deixando de ganhar dinheiro.

Crivella fez reunião decisiva no final de campanha em 2016 com dezenas de altos empresários no Leblon. O vídeo vazou, e lá ele prometia aos ricos que, como “a Igreja Universal tem penetração popular”, isso auxiliaria os grandes empresários, pois os fiéis jamais incomodariam com reivindicações.

Este picareta manipulador da religião foi agora repudiado e sovado nas urnas. Motes da campanha no Rio foram “Crivella, o pior prefeito da história do Rio” e “Crivella nunca mais!”.

Mas, mesmo no apagar das luzes da sua gestão, ainda espalha males.

Em decreto recente, “proibiu servidores públicos de fazerem críticas ao seu governo”. É claro que é inconstitucional, mas quem tem a ideia fixa de “chamar os militares” não vai se prender a esses “detalhes”.

Felizmente para os cariocas, e através do voto, Crivella foi devolvido para a Igreja Universal. São usuais na seita “missões evangelizadoras” cuja propaganda para atrair desesperados garante que “o paralítico vai andar, o cego vai ver, e o doente de câncer vai ficar curado”.

O único milagre, dos bons, milagre real, diante de tanto estelionato, é que ninguém vai preso por apregoar tais “curas”.

(Com uso de informações veiculadas pelo jornal carioca “O Dia”)

(*) Antônio Augusto é jornalista


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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