Por Valter Pomar (*)

No passado, era comum que um partido criasse um jornal.

Mas com a Folha é diferente: trata-se de um jornal à busca de criar um partido.

Para a Folha, este seria o Santo Graal da política brasileira: um partido composto por pedaços do PT com pedaços do PSDB.

A versão mais recente desta fixação é a proposta de uma chapa Lula-Alckmin para disputar as eleições de 2022.

A proposta é tão exdrúxula, que fiquei pensando o que faria alguém achar que se trata de uma boa ideia para o povo, para a esquerda, para o PT, para Lula.

A resposta, claro, está na Folha.

Mais precisamente no UOL, no “balaio” do Kotscho, no texto que pode ser lido no link a seguir reproduzido:

https://noticias.uol.com.br/colunas/balaio-do-kotscho/2021/11/04/uma-chapa-lula-alckmin-sim-e-possivel-e-esta-e-uma-boa-noticia-da-folha.htm

Segundo Kotscho, “o simples fato de esta possibilidade estar sendo discutida é uma boa notícia para o país civilizado que sobreviveu à criminalização da política promovida pela Operação Lava Jato”.

Sobreviveu? Civilizado?

“Civilizado”, como sabem alguns, é o nome às vezes dado às pessoas que nascem numa ilha grega chamada “hipocrisia”. Seus descendentes migraram para o Brasil e deram origem à direita gourmet, que usa punhos de renda e aprendeu a ordem com que se usam talheres e copos num banquete.

Esta direita gourmet é a principal responsável pela situação que resultou em Bolsonaro. Dilma foi alvo de um impeachment ilegal. Lula foi condenado e preso. O golpista Temer implementou sua “ponte” para o passado. O povo brasileiro sofreu horrores com tudo isso. Alckmin está entre os “civilizados” que foram cúmplices ativos ou passivos disto tudo.

Eles viveram. Nós, parte de nós, sobrevivemos.

Já estou ouvindo alguém murmurar “não vamos ficar olhando no retrovisor, o que passou, passou. Vamos nos unir contra o inimigo principal”.

Acontece que o inimigo principal não é apenas a pessoa física de Bolsonaro, nem mesmo o bolsonarismo ou a extrema direita. Fazer com que acreditemos nisto é muito conveniente para quem deseja dar continuidade às políticas de Bolsonaro, sem Bolsonaro.

O inimigo principal é o contubérnio entre bolsonarismo e neoliberalismo.

Claro que para gente de “classe média”, tirar Bolsonaro já estaria de bom tamanho. Mas para a imensa maioria do povo, não basta tirar Bolsonaro. Ou se criam as condições para que as pessoas possam ter emprego, não passar fome, ter saúde, ou de nada adiantará tirar Bolsonaro.

No fundo, é um problema de classe: quem aplaude a “possibilidade” de uma aliança entre PT e PSDB acha que é possível ter liberdades democráticas sem ter bem estar social.

Kotscho diz que uma aliança entre Alckmin e Lula teria “pelo menos” uma vantagem: “o país não votaria no escuro num salvador da pátria, como aconteceu em 2018: Lula já foi presidente da República por dois mandatos e deixou o governo com quase 90% de aprovação, enquanto Geraldo Alckmin governou São Paulo umas três ou quatro vezes. Virtudes e defeitos dos dois são de amplo conhecimento público, assim como a biografia política de cada um. Ninguém poderá dizer mais tarde que foi enganado”.

Enganado? Algum tucano votou “no escuro” em 2018? Bolsonaro escondeu o que era?

Quando era presidente da Câmara, Temer salvou Bolsonaro de uma cassação certa, porque ele havia ameaçado a vida de FHC. E nem isto foi suficiente para FHC – segundo ele próprio – votar em branco em 2018.

Nem os tucanos, nem a maioria dos que votaram em Bolsonaro votaram “no escuro”. Aliás, se o cavernícola tem alguma qualidade, é esta: não esconde seus cadáveres no armário.

Este argumento sem pé nem cabeça utilizado por Kotscho é acompanhado de outro, pior ainda: dizer que a aliança seria boa porque reuniria pessoas testadas e aprovadas.

Kotscho releva dois “detalhes”: Lula foi presidente porque derrotou os tucanos; Alckmin foi governador em oposição ao PT. Ambos partidos – PT e PSDB – defendiam e seguem defendendo programas profundamente diferentes. Uma aliança deste tipo teria que base programática?

Não é esta questão que aparece na lista que Kotscho faz, das “dificuldades” que “precisam ser contornadas” para “viabilizar a ideia”.

Em primeiro lugar aparece convencer “tanto Lula quanto Alckmin”.

Que alguém pense assim, é normal: parte da esquerda brasileira se deixou contaminar pelo jeito oligárquico de fazer política, no qual os “líderes” decidem e a massa “manobra”. Já vimos no que isso deu em algumas eleições, por exemplo em 2018 e 2020.

Indo ao grão: esta chapa poderia “funcionar não apenas para ganhar as eleições, mas especialmente para governar”? Isto seria o “melhor para o país”?

O texto de Kotscho diz o seguinte: “Acima do cacife eleitoral de cada um, está a capacidade de ambos de dialogar com as diferentes forças políticas e entidades da sociedade civil, em busca de convergências. O grande desafio não é como ganhar a eleição, mas como governar depois, sem ter que distribuir emendas secretas para ter maioria no Congresso”.

Pergunta: “maioria” para aprovar o quê? Para aprovar a política do PT, da esquerda, dos setores democráticos e populares? Ou maioria para aprovar a política do PSDB, da direita, dos setores neoliberais e conservadores?

Sem responder a esta singela questão – o programa – não há como provar que uma aliança deste tipo seria boa para o país. E vamos lembrar, durante 20 anos (1994-2014) o PT e o PSDB se confrontaram diretamente. Depois de 2014 o confronto continuou, as vezes direto, as vezes indireto. Uma aliança de primeiro turno entre estes dois partidos não seria, portanto, algo trivial. Como disse recente o próprio Lula, recentemente e com palavras diferentes das que seguem, qual sentido teria uma aliança para manter o Guedes e/ou sua política?

A esse respeito do programa, Kotscho escreve várias frases pomposas, mas totalmente vazias de conteúdo concreto: “Num ambiente político tão conflagrado e beligerante como vivemos ultimamente, com um país em ruínas, que clama por equilíbrio, paz e união, para promover a reconstrução nacional, precisamos de homens públicos que se coloquem acima das picuinhas e dos projetos pessoais, experimentados na lida da vida pública e voltados para promover o bem-estar social. Ambos já estão velhos para alimentar vaidades”.

A última frase é totalmente falsa. Já as demais caberiam no discurso de qualquer demagogo, de qualquer partido, porque não dizem absolutamente nada sobre o que deve ser feito no âmbito da economia, do emprego, do setor financeiro, da política agrária e agrícola, das políticas sociais, da política externa, dos meios de comunicação, das forças armadas, da segurança pública etc.

Kotscho conta em seu texto duas histórias, uma meio natalina, outra meio chinesa. Como a memória é dele, vou falar em tese: não deu certo então e não dará nem daria certo em 2023, porque PT e PSDB expressam programas diferentes, interesses sociais diferentes.

Kotscho parece não compreender isso, como demonstra o seguinte trecho de seu texto: “Os 16 anos dos governos FHC e Lula, que se sucederam, foram os melhores e mais tranquilos do período pós redemocratização”.

Destes 16 anos, os 8 de FHC foram marcados por privatizações, desemprego, fuga de capitais, apagão e financeirização etc etc. Colocar no mesmo patamar – “melhores e mais tranquilos” – os 8 anos de FHC e os 8 anos de Lula é um prêmio para os tucanos e uma ofensa para os petistas.

E por falar em ofensa, apresentar Alckmin como “último remanescente do PSDB histórico” é uma barbaridade. Não sei o que Covas e Montoro defenderiam, se ainda estivessem vivos. O exemplo de Serra e de FHC – que não são citados, mas são tão “remanescentes” quanto – mostra que a idade não faz bem para certas pessoas. Mas Alckmin sempre foi mais conservador do que os “históricos” citados e sua possível mudança de partido não se dá por razões político-ideológicas que possam ser louvadas.

Dizer que Alckmin é “apegado a valores democráticos e com olhar generoso em relação aos problemas sociais do Brasil” é pura e simplesmente uma mentira. Para não cansar o leitor com citações, lembro apenas do que Alckmin disse quando a caravana de Lula no Rio Grande do Sul, bem como a sede do Instituto Lula, foram alvo de atentados a bala e bomba.

Apesar disso tudo e otras cositas más, Kotscho comemora o “fato novo mais importante da atual campanha eleitoral: a disposição de Lula de caminhar em direção ao centro e a de Alckmin de se aliar a um antigo adversário, com quem já disputou a presidência”. Não faço ideia das fontes em que ele se baseia para afirmar isso, mas tenho certeza de que uma aliança deste tipo teria o feito oposto ao pretendido: fortaleceria as alternativas à esquerda e à direita.

E isto tem que ver com um detalhe que Kotscho desconsidera, quando lembra da campanha das Diretas. Aquela campanha não foi vitoriosa e o que veio depois foi o Colégio Eleitoral. E naquele momento o palanque das diretas se dividiu. De que lado ficaram os personagens que hoje são tucanos? Foram se aliar com a turma da ex-Arena, ex-PDS, então PFL e hoje DEM (até que mude de novo).

Em resumo: “melhor para o país” é conquistarmos um governo disposto a transformar o Brasil, em benefício da maioria de nosso povo. Não está em jogo uma pessoa física, mas uma pessoa jurídica, que encarne um programa. Lula pode vencer se for visto não apenas como um ex-presidente que foi exitoso, não apenas como uma alternativa a Bolsonaro, mas principalmente se for visto como um instrumento a serviço de um futuro melhor para a imensa maioria do povo brasileiro.

Quem defende uma aliança entre Lula e Alckmin deixa tudo isso de lado. Ou seja, deixa de lado os interesses materiais e concretos da maioria do povo.

Há quem diga que esta proposta foi inventada por alguns estrategistas de fundo de quintal, que acham que com ela poderiam abrir caminho para uma vitória na eleição para o governo do estado de São Paulo.

Não sei dizer se tal acusação procede.

Mas tenho certeza de que a proposta de uma chapa Lula-Alckmin é muito funcional para um setor da elite, que desta forma não precisaria gastar energias tentando domesticar Bolsonaro, nem tentando criar uma “terceira via”, nem tampouco aprovando um semi-presidencialismo ou qualquer mandracaria do tipo.

Com a chapa Lula-Alckmin, estaria tudo resolvido.

O povo elegeria Lula e junto dele viria o vice que realmente presidiria o país, depois do impeachment.

O gênio que inventou esta fórmula merece ganhar o prêmio “cilício de ouro” da Opus Dei!

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT

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