Por Queren Rodrigues (*)

O discurso do presidente Lula, por ocasião do 1º de Maio, surpreendeu a todos pela escolha do enfoque: a crítica do capitalismo e a defesa aberta de uma sociedade comunista. Frente às especulações sobre qual seria sua linha política no pronunciamento do ato unificado das Centrais Sindicais, a fala do presidente destaca-se como um dos mais radicais, em certo sentido, dado a completa ausência desse tema nos discursos das principais lideranças e dirigentes da esquerda brasileira. Nesse sentido, ele não poderá nunca ser acusado de ter tido um discurso ‘recuado’.

O que nós esperamos, o que eu espero, é que o mundo que virá depois do coronavírus seja uma comunidade universal em que o homem e a mulher, em harmonia com a natureza, sejam o centro de tudo, e que a economia e a tecnologia estejam a serviço deles – e não o contrário, como aconteceu até hoje.

No mundo que eu espero depois da tragédia do coronavírus, o coletivo haverá de triunfar sobre o individual, a solidariedade e a generosidade triunfarão sobre o lucro.

Um mundo em que ninguém explore o trabalho de ninguém, um mundo em que se respeitem as diferenças entre um e outro, um mundo em que todos, absolutamente todos, disponham de ferramentas para se emancipar de qualquer tipo de dominação ou de controle”.

Por outro lado, em relação à política nacional, Lula foi um tanto quanto omisso e evitou falar abertamente sobre o tema. Em apenas uma passagem ele cita diretamente “o presidente da república”, mas não o nomeia. E passa longe de adotar o Fora Bolsonaro, o grito que vem crescendo frente à crise do governo. A opção aqui foi a de evitar o conflito aberto por meio do pouco detalhamento dos problemas políticos concretos e governamentais. Nisso se diferenciou bastante do discurso da presidenta Dilma.

Mas as grandes tragédias são também reveladoras do verdadeiro caráter das pessoas e das coisas. Não me refiro apenas ao deboche do presidente da República com a memória de mais de cinco mil brasileiros mortos pelo Covid”.

O que ele faz de maneira magistral, como sempre, é um discurso muito bonito, como são os discursos dos líderes históricos inspiradores, grupo no qual ele inegavelmente figura, e para isso se utiliza de um tom que dialoga muito com o imaginário e a cultura popular brasileira, inclusive em sua religiosidade (mais de 85% dos brasileiros possuem uma religião de maioria absoluta cristã, segundo o IBGE): referências à “alma” do brasileiro cheia de “esperança”, “criatividade”, “solidariedade”, “generosidade” e “tolerância”, contra o “ódio”, a “ignorância” e as “trevas”. E percebe-se, aí, claramente uma contraposição ao que representa o bolsonarismo, a cara brasileira do fascismo. De forma indireta, ele consegue ao mesmo tempo caracterizar o brasileiro, nisso usando uma espécie de psicologia reversa (afinal de contas existem muitos brasileiros contaminados por esse discurso de ódio) e ao mesmo tempo contrapor a ideologia dominante, afirmando o que deveria ser, em consonância com a primeira e principal parte do discurso.

O Brasil sempre foi uma terra de esperanças. Apesar das extremas dificuldades, nós que nascemos e vivemos aqui soubemos enfrentá-las e soubemos nos reinventar para crescer. O ódio e a ignorância se alimentam um do outro e são o oposto do que vai na alma brasileira. Como brasileiro, tenho a certeza que sairemos desta tragédia para um mundo melhor, para um Brasil melhor.

E é agora, em plena tempestade, que os brasileiros revelam o que são, o que somos: generosos, tolerantes, solidários. E é com esse espírito, essa alegria e essa criatividade que estamos todos lutando para sair das trevas e fazer chegar, o mais depressa possível, o amanhecer da justiça social, da igualdade e da liberdade”.

No entanto, alguns pontos em relação do discurso de Lula podem ser criticamente destacados, seja por levarem a um entendimento confuso do que seria ou como alcançaríamos essa nova sociedade, seja pela ausência de qualquer menção. Em toda a sua fala existe uma completa ausência de estratégias e táticas políticas necessárias para se construir esse novo mundo. Isso não seria nenhum problema se não fosse o discurso do maior líder popular de esquerda do país, em um pronunciamento do Dia do Trabalhador, em um contexto de crise política institucional (além de sistêmica do capital) e com a impossibilidade de se ir às ruas e construir um palanque real e um movimento de massas – que passaria do ‘bater panela na janela’ para defenestrar de vez o “presidente”.

Do ponto de vista da Estratégia, as reiteradas associações de Lula entre a nova sociedade que virá e a crise do coronavírus, ainda que não explicitadas desta forma, criam uma espécie de automatismo entre uma crise e uma revolução e a impressão de que essa revolução viria pela mudança das mentalidades frente à situação. Os trechos (citados no início) onde ele afirma: “o mundo que virá depois do coronavírus” ou “No mundo que eu espero depois da tragédia do coronavírus” podem até ser encarados como uma disputa de narrativas da crise, entretanto revelam um certo otimismo que crises similares anteriores mostram que não se concretizam automaticamente. Sem uma classe consciente e organizada, o capitalismo pode simplesmente se reorganizar e continuar sua reprodução ampliada até a próxima crise.

A pandemia deixou o capitalismo nu. Foram necessários trezentos mil cadáveres para a humanidade ver uma verdade que nós, trabalhadores, conhecemos desde o dia que nascemos. A tragédia do Coronavírus expôs à luz do sol uma verdade inquestionável: o que sustenta o capitalismo não é o capital.

Somos nós, os trabalhadores. É essa verdade, nossa velha conhecida, que está levando os principais jornais econômicos do mundo, as bíblias da elite mundial, a anunciarem que o Capitalismo está com os dias contados. E está mesmo. Está moribundo. E está nas nossas mãos, nas mãos dos trabalhadores, a tarefa de construir esse novo mundo que vem aí”.

Sim, as crises escancaram as mazelas e a lógica do capitalismo, mas os fatos por si só não são suficientes para que a classe trabalhadora associe seu sofrimento ao sistema e se organize para uma ruptura sistêmica. Se “está nas mãos dos trabalhadores, a tarefa de construir esse mundo que vem aí”, ele vem de onde e como? Esse mundo só será construído por obra da luta política e não é uma decorrência automática. “As grandes tragédias” são janelas históricas que podem ser aproveitadas se as demais condições de preparo da classe e movimentos/partidos existirem também.

Mesmo a faceta neoliberal do capitalismo não está totalmente ultrapassada. Em primeiro lugar porque não é a simples intervenção do Estado que descaracteriza o neoliberalismo. Diferentemente do liberalismo clássico, o neoliberalismo é caracterizado justamente pela incorporação do Estado à uma lógica de mercado que passa a permeá-lo. As tentativas de reformas que retiram ainda mais direitos dos trabalhadores, aproveitando-se da pandemia, mostram isso explicitamente.

Lula afirma logo no início que “O vírus, que ataca a todos, indistintamente”, mas, se é verdade que o vírus tem o potencial de atingir a todos, isso não se dá “indistintamente”. Tanto o contágio como a letalidade, atingem de forma muito mais intensa a classe trabalhadora, que não tem acesso à saúde adequada, sucateada ainda mais nesse governo; moradias com saneamento que permitam isolamento social; emprego e garantias trabalhistas e renda mínima de sobrevivência.

Nesse sentido, o debate político nacional se torna imprescindível não só pelo papel tático no fortalecimento da classe trabalhadora para a conquista do poder e do Estado, como também porque a continuidade desse governo tende a aprofundar a crise, a gerar mais mortes e propor soluções neoliberais para recomposição do capital. É urgente que a esquerda organizadamente adote o Fora Bolsonaro (a exemplo já citado da presidenta Dilma), não só pela ilegitimidade desse governo, a partir do golpe de 2016 e das eleições fraudulentas de 2018, onde o próprio Lula, candidato principal, foi preso ilegalmente, como pelas atuais políticas genocidas do “presidente”.

Viva o povo trabalhador. Viva o Primeiro de Maio. Fora Bolsonaro!

(*) Queren Rodrigues é militante petista de São Paulo

 

 

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