Por Marcos Jakoby (*)

Luís Nassif publicou no dia 18/11 um texto intitulado “Xadrez do pacto político entre PT e a centro-direita”, que pode ser acessado aqui: http://bit.ly/2qtMQ5x . O texto é uma defesa de um pacto entre o PT e o que ele denomina de “centro-direita em torno de Huck”, pois seria o único modo de “impedir que a terra de Santa Cruz se transforme no inferno do bolsonarismo”.

Ao ler o texto, chama atenção a sua abordagem do cenário político. A análise se concentra em torno de “grandes personagens da política” como FHC, Luciano Huck, Armínio Fraga, Lula, além de outros, e mais lateralmente os partidos. Tudo seria resolvido com um pacto, espremido por essas lideranças, a fim de derrotar a extrema-direita nas eleições de 2022. As classes sociais e os conflitos decorrentes de seus interesses antagônicos estão fora de alcance da análise do nosso autor.

O que Nassif sugere é o velho caminho da conciliação e da pactuação por cima. Contudo, o autor esquece de mencionar é que a “centro-direita em torno de Huck” tem sido um ator fundamental na aprovação das medidas e reformas antipopulares, antinacionais e antidemocráticas.  Que ela é convertida ao programa neoliberal até o último fio de cabelo. Que ela foi fundamental para criar as condições para que o bolsonarismo chegasse ao governo. Mas, para Nassif, trata-se de “superar mágoas, e parar com essa bobagem de exigir autocrítica” e “de zerar o jogo em torno de um objetivo maior”.

A dificuldade enxergada para esse caminho seria a de encontrar  interlocutores que representem essa centro-direita, com capacidade para efetuar a pactuação.  O trecho a seguir é ilustrativo da natureza do acordo defendido por Nassif: “o drama da centro-direita paulista, antes representada pelo PSDB, é a ausência de um interlocutor com senhoridade e a confiança de todas as partes envolvidas. E, seguramente, não é FHC. Em outros tempos, seria Mário Covas, que conquistou o eleitorado classe média de Paulo Maluf, e era confiável e capaz de grandes gestos. Armínio Fraga é um nome que tem crescido, trazendo a visão estratégica do clube dos bilionários esclarecidos dos EUA, que aprenderam que não há segurança jurídica nem política, com desmanche social.”  Nassif ainda ressalta que pactuação exige “desprendimento de lado a lado”  e “que nenhum dos lados busque o protagonismo absoluto”.  

A saída proposta por nosso autor é o suicídio político e a desmoralização completa da esquerda. Por várias razões. O xadrez de Nassif não conta com as peças mais importantes do tabuleiro da luta política: as classes sociais. Ele imagina que fazendo alianças ao centro e à direita teremos maioria eleitoral. Na atividade política nem sempre a lógica é linear. Há alianças inclusive que  não só não somam como subtraem.

O pano de fundo da crise brasileira é decorrência, além da crise internacional, da aplicação do chamado ajuste fiscal, das privatizações, do corte dos investimentos públicos, da precarização das relações de trabalho, da retirada de direitos sociais, do arrocho salarial,  da subordinação da política externa aos EUA, da redução das liberdades democráticas. Acontece que esse é o programa do conjunto da burguesia, de todas as suas frações, sem exceção. Por isso, essa agenda também é a defendida, talvez com algumas nuances, pela “centro-direita”. Não há chances dela abandonar esse programa e adotar outro.

Ou seja, para o PT  e a esquerda realizarem tal pactuação significaria abrir mão da luta contra essa agenda, ou pelo menos de parte expressiva dela. Isso, por sua vez, representa reduzir a força social e política da esquerda, pois estaremos deixando de lutar contra medidas que justamente geram a insatisfação social crescente. Tal situação beneficia, inclusive, o bolsonarismo, como nós presenciamos cotidianamente quando sua agenda econômica e social é blindada pela mesma “centro-direita”. É um caminho que leva a nossa neutralização na luta política e ideológica e, no limite,  senão uma nova derrota para a extrema-direita, abre caminho para uma direita sem Bolsonaro, mas com o mesmo programa e igualmente abraçada ao golpismo.

O caminho da esquerda e do conjunto das forças democráticas e populares é construir uma alternativa política independente das classes dominantes. A política de colaboração com frações da burguesia e suas representações políticas não é capaz de tirar o Brasil da crise social e política, pois justamente nos impede de lutar contra as suas causas. Na verdade, é uma capitulação. E trata-se de uma desmoralização completa ao costurar alianças com aqueles que trabalharam diuturnamente pelo golpe, pela prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro. Que lutam para impor derrotas à classe trabalhadoras e aos setores populares.

Ademais, não custa lembrar: estamos enfrentando uma direita e uma situação política que não será superada  meramente pela via eleitoral. Será preciso muita mobilização social, organização popular e a construção de uma outra hegemonia político-cultural.  A saída proposta por Nassif é incapaz de superar a crise em que estamos imersos e ainda nos levará à  novas derrotas e ao suicídio político.

(*) Marcos Jakoby é militante petista e professor

 

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