Por  Milton Pomar (*)

O governo da Índia, país com menos de 500 casos confirmados, tomou a decisão, dia 24 de março, de impor isolamento social a todos os seus 1,3 bilhão de habitantes. Os Estados Unidos, cujo presidente não acreditava na pandemia do coronavírus, já estão com quase 90 mil casos – como a sua população é de 350 milhões de habitantes, a contaminação norte-americana equivale a quase 300 mil casos na China (1,4 bilhão de habitantes, 82 mil casos). Hoje, dia 27 de março, talvez Trump tenha se convencido do tamanho da encrenca que poderá ocorrer no país, caso a pandemia mate lá como está matando na Itália e Espanha. É regra de três: com 60 milhões de habitantes, a Itália já contabiliza quase nove mil mortes – se os Estados Unidos mantiverem a proporção, terão mais de 50 mil mortos, em um mês… Por isso, Trump divulgou carta aberta à população dizendo para ficarem em casa.

Defensor da “seleção dos rebanhos”, o primeiro-ministro inglês está com coronavírus. Obrigado a voltar atrás em sua política de “deixar acontecer para ver quem é que vai morrer”, ele agora pode ser uma das milhares de vítimas fatais da “gripezinha”.

O prefeito de Milão disse que o seu compartilhamento do vídeo “Milão não pode parar”, há um mês, quando a região tinha 258 casos confirmados, foi “provavelmente errado”. Milão é capital da Lombardia, região mais atingida pela pandemia do coronavírus. Hoje, tem mais de 35 mil casos confirmados, e quase cinco mil vítimas fatais. Apesar das cinco mil mortes (há um mês, a Itália inteira tinha 12 mortos pelo coronavírus) em Milão, o prefeito da cidade diz que seu apoio à campanha para que a população não se isolasse, foi “provavelmente errado”.

Provavelmente será essa a desculpa do governador de Santa Catarina, em maio, quando houver o resultado humano da sua decisão de reverter o isolamento social, atendendo a pedido de seus apoiadores do setor empresarial. (Será que os donos das empresas ficarão junto com os seus “colaboradores” durante toda a jornada de trabalho?)

Há muitos exemplos atuais no mundo, do que deu certo e do que deu errado no enfrentamento da pandemia do coronavírus. Agora que as pessoas estão se dando conta de qual é a questão central: não vai ter hospital para atender todo mundo. Com a explosão de casos, a quantidade de pessoas que precisarão de atendimento hospitalar intensivo será muito maior do que a capacidade existente hoje no Brasil.

Trump e Johnson voltaram atrás, pressionados pela realidade assustadora. Moisés voltou atrás, pressionado por empresários ignorantes. Bolsonaro, o Nefasto, ainda se agarra à sua ignorância criminosa para manter a campanha pelo fim do isolamento social no Brasil. De nada adiantará o seu pedido de desculpas, daqui a um mês, quando o país contabilizar milhares de mortos. Até o governador de Goiás, tão de extrema-direita quanto Bolsonaro, rompeu publicamente com ele, por discordar da postura presidencial contrária ao isolamento social.

(*) Milton Pomar é professor, geógrafo e mestre em políticas públicas.

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