Por Fausto Antonio  (*)

Os   atos de  3  de julho de 2021 imbricaram, e notadamente  impulsionaram, de muitas maneiras, uma continuação dos atos de 29 de maio  e de 19 de junho de 2021, cuja bandeira central foi sintetizada, do ponto de vista dos movimentos negros e antirracismo, no Fora Bolsonaro e golpistas, vacina para todos, contra o racismo e a violência policial.  A radicalidade do movimento, convulsionado pelas ruas e massas,  ganhou materialidade no mando e predomínio do  vermelho e, sobretudo, no comando popular contra a presença do PSDB, MBL, Força Sindical dos patrões e  do PDT do juramentado direitista Ciro Gomes.

Alguns dos problemas que rondaram os atos de maio e junho foram neutralizados pelas ruas e no transcorrer das manifestações,  que como luta negro- popular e dos trabalhadores (as) se opuseram ao  nexo reacionário  do verde amarelo, expressão da frente ampla sem classe, raça, gênero, PT e Lula. Assim, a radicalização à esquerda e sem golpistas ganhou ou tomou forma, ganhou dimensão política à esquerda e com força popular.   No entanto, o desenvolvimento do movimento para derrubar Bolsonaro e mudar o regime político está a exigir a urgente explicitação de uma direção derivada dos partidos de esquerda;  a saber, PT, PCO, PC do B, PSOL, PSTU,  e igualmente  nucleada pela CUT, MST, Movimentos Sociais Negros e outras entidades representativas  de categorias sindicais, populares, urbanas e do campo.

Outro dado a ser considerado passa pela organização, que marcou, de maneira equivocada, primeiramente o ato para 24 de julho e, num segundo erro, agendou a manifestação contra Bolsonaro para o dia 3 de julho de 2021.  Dentro desses limites e erros, os  atos de 3  de julho não cresceram, mas mesmo assim continuaram com força e com sinais de capilaridade, caráter popular e conteúdo hegemonizado pela esquerda brasileira. Na outra ponta, à direita,  a  imprensa burguesa enfatiza a CPI e o remoto e pouco provável impedimento de Bolsonaro.

Vale destacar que há uma política para dispersar o movimento. Os atos de 3 de julho, relevando as políticas do verde amarelo e do deslocamento para o impedimento de Bolsonaro,  não arrefeceram  a força das ruas. Por outro lado,  o ato de 3 de julho, marcado pela ingerência da frente ampla e parlamentares desse campo, gerou confusão, mas mesmo assim  não jogou o movimento  para trás. A tentativa frustrada de colar a dinâmica dos parlamentares defensores da frente ampla golpista  fracassou e ganhou base concreta no fora PSDB, DEM, MBL e direitistas assemelhados.  O processo põe em evidência a necessidade de organização, com os partidos de esquerda e movimentos sociais e sindicais, a partir da nominação dos organizadores  e, sobretudo, é preciso plenárias abertas  nos bairros,  municípios, estados e com uma direção nacional convergente e alinhada com as deliberações das respectivas plenárias. A mesma organização se aplica às categorias de trabalhadores (as) e movimentos sociais.

O ato de 3 de julho revelou um dado central, que está na raiz da frente ampla e que merece atenção.  A direita histórica  não tem base para comandar ou convocar um ato de rua.  Desse modo, a direita faz discursos de centro e pede e tem o apoio de setores da  esquerda pequeno burguesa. Não é por outra razão que  PSDB, Cidadania  e PDT vestem o verde amarelo. O centro, a rigor  a direita,  não tem militantes, quem tem militantes é a esquerda e a extrema direita. Eis  a razão pela qual a frente ampla é um entrave para os atos de Fora Bolsonaro e para a disputa eleitoral e política de longa duração. Os votos recebidos pelo  PSDB e DEM, entre outros partidos de direita, estão referenciados no poder financeiro, jurídico e midiático.  É  útil negritar, no que toca à direita, que partidos artificiais  são  impulsionados  pelo dinheiro e não pelos movimentos convulsionados pelas ruas.

Outra leitura, indispensável para a radicalização à esquerda, prende-se à burguesia como classe social, que  está, no conjunto mais expressivo, com Bolsonaro e sempre com o imperialismo.

Há, nucleada pela luta de classes e contra o racismo, uma radicalização à esquerda e com a materialidade do vermelho e das bandeiras contra Bolsonaro e o regime.  A  propósito de radicalização à esquerda, vaias e acenos explícitos ao confronto com golpistas dizem tudo e muito à respeito da não conciliação com os acenos da frente ampla . Por ser expressão das ruas e da luta popular, o deslocamento à esquerda foi ratificado no 3 de julho. PC do B  e PSOL não, mas os dirigentes do PT vetaram os golpistas e representantes de direita, vide PSDB, suporte de Bolsonaro, que não passou pelo crivo das massas. As direções petistas ouviram o brado popular, sem dúvida. Na ótica das massas e das ruas prevaleceu o  fora PSDB.  As ruas expressaram a vitória dos militantes combativos, a manifestação não foi tomada de assalto pela direita, o movimento é vermelho e radicalizado pelas políticas de fora Bolsonaro e golpista, posição política que inclui o rechaço à frente ampla sem o povo preto, pobre e trabalhador.

Os atos de 3 de julho reafirmam que é preciso organizar em baixo. Na mesma linha, não basta tirar  Bolsonaro e colocar qualquer político, partido e projeto. Bolsonaro não pode ser tomado e considerado isoladamente, ele não é o único problema.  Para a luta contra o golpe e contra o racismo, é fundamental tirar Bolsonaro e colocar Lula. Em outros termos, é  vital definir a politica e nucleá-la a partir de Lula. No geral, o  movimento deve mobilizar  a população e realizar plenárias  e aumentar a participação popular nos atos de 24 de julho de 2021. Avultam, dentro dessa perspectiva, plenárias dos partidos de esquerda, dos movimentos sociais, sindicais e de categorias de trabalhadores (as).

(*) Fausto Antonio  é  professor da Unilab- Bahia, escritor, poeta, dramaturgo e articulista da Rede TV Matracas


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

Comente!