Por Marcos Jakoby (*)

O jornal Folha de São Paulo publica hoje, 07 de fevereiro, uma entrevista** com Aloízio Mercadante. O título da entrevista é “Temos que fazer autocrítica sincera, afirma Mercadante nos 40 anos do PT”. Ou seja, era uma oportunidade para apresentarmos um balanço que nos ajude a construir condições políticas para enfrentarmos a coalizão bolsonarista e a ofensiva das classes dominantes. Mas não foi isso que se viu ao longo da entrevista.

Na segunda pergunta, a Folha afirma que “muitos associam o PT à corrupção”. Mercadante primeiro responde que houve uma “campanha violenta e o uso do lawfare e da Justiça partidarizada”. Então, o repórter insiste em perguntar se não houve erros do PT.  Mercadante responde que “o problema de financiamento de campanha era sistêmico. Evidente que houve corrupção. O que é inaceitável é a ênfase que se deu ao PT e a total omissão e rigor em relação a outras forças políticas.”  Ou seja, o problema foi o “rigor” com o PT e a “omissão” com os outros partidos, assim, praticamente, nivelando o Partido com a direita, quando se sabe que muitas das denúncias, processos e acusações contra o PT não tem fundamento, não passaram de instrumentos a serviço do golpe.

Na sequência, é indagado se ainda é socialista, responde “Seguramente. Tivemos 388 anos de escravidão, 4 séculos de colônia. Isso ainda está muito presente na cabeça da nossa elite“. Curioso não fazer menção a décadas de capitalismo. Ora, o socialismo é justamente a transição do capitalismo para outro modo de produção, baseado na propriedade social dos meios de produção. Talvez porque o horizonte máximo do socialismo de nosso companheiro seja vencer aqueles resquícios que ainda persistem “na cabeça das elites”, no âmbito do capitalismo, com vistas a torná-lo mais “republicano” e “solidário”.

Questionado sobre as alianças feitas nos governos Lula/Dilma com frações da burguesia, responde dizendo que não teria outra forma de governar dada à “correlação de forças reais”. Nenhuma reflexão de que poderia ter existido outra forma de buscar a governabilidade e de que essas alianças contribuíram para nossa derrota, visto o golpismo da classe dominante e a sua interdição de reformas estruturais. Pior, ao não fazer aqui nenhuma autocrítica corrobora com a narrativa de que o Partido, chegando ao governo, faz e fará as mesmas alianças que as demais forças políticas realizam, de que não há coerência entre o “discurso e a prática”, como bem sugeriu o jornalista. “PT também governa com as elites”.

Mas adiante, Mercadante é questionado sobre os problemas na economia durante o governo Dilma, e a justificativa recai sobre as chamadas pautas-bombas, ou seja, aquelas pautas que colocaram obstáculos a uma política de ajuste fiscal. Mercadante deveria reconhecer que a política econômica levada à cabo no início de 2015 (baseada no ajuste fiscal), com a anuência da maioria do Partido, foi um fator que criou divisão na nossa base social, fragilizou a economia e criou condições para o avanço do golpismo. Ao concentrar seu argumento de que o problema foram as pautas-bombas, acaba cedendo à hegemonia neoliberal de que a crise que se desenhou naquele ano se deveu à falta de ajuste fiscal mais profundo e anterior. E o caminho, como em 2008/2009, era exatamente o oposto.

Por fim, para fechar com chave-de-ouro, cede à pressão do repórter e “reconhece” que a Venezuela está vivendo um regime autoritário. Não explica porque tem esse entendimento, diferente do Partido, e limita-se a dizer que a Venezuela sofre uma ameaça externa.

Mercadante fala muito em autocrítica, mas acaba fazendo a autocrítica desejada pelas elites. Precisamos, sim, de um balanço crítico, mas de um balanço que nos ajude a reconstruir as condições para disputar os rumos políticos do nosso país. Uma autocrítica do ponto de vista dos interesses da classe trabalhadora e das forças democráticas e populares. Não é cedendo à hegemonia conservadora que faremos isso.

(*) Marcos Jakoby é professor e militante petista

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 (**) ENTREVISTA DE MERCADANTE AO JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO

”Temos que fazer autocrítica sincera, afirma Mercadante nos 40 anos do PT”* – Ex-senador, ex-ministro e um dos fundadores do PT, Aloizio Mercadante, 65, diz que uma autocrítica sincera do partido na política e na economia é necessária, mas não pode ser “autoflagelante” nem “autocomplacente”. “A obra que nós construímos é muito maior do que os erros, que não foram poucos, nem pequenos, que nós cometemos”, diz ele, ao comentar os 40 anos do partido, a serem celebrados na segunda (10). Uma das figuras históricas do PT, Mercadante afastou-se do debate público após o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e dedicou-se mais à agenda interna da sigla. Agora, pretende voltar ao centro da discussão, como presidente da Fundação Perseu Abramo, braço de estudos do partido. Mercadante diz que a esquerda tem dificuldade em debater a pauta econômica e reconhece que haverá algum crescimento econômico neste ano, embora em “voo de galinha”. No campo externo, recusa-se a chamar Nicolás Maduro de ditador, mas admite que seu governo na Venezuela é autoritário.

– Qual a marca do PT aos 40 anos?
– O eixo de nossa história sempre foi reduzir a desigualdade. Bolsa-Família foi uma criação do PT, salário mínimo teve crescimento real nos nossos governos. Uma segunda vertente é a luta pela democracia. Nunca abdicamos de valores republicanos, liberdade de manifestação, de imprensa, de cátedra. E a promoção da cidadania. Estimulamos novas formas de participação popular.

– Muitos associam o PT à corrupção também.
– Sofremos uma campanha violentíssima, marcada pelo lawfare, a Justiça partidarizada para a disputa política. A direita sempre soube usar esses instrumentos.

– É tudo uma campanha contra o PT? Não houve erros do partido e do governo?
– O problema de financiamento de campanha era sistêmico. Evidente que houve corrupção. O que é inaceitável é a ênfase que se deu ao PT e a total omissão e rigor em relação a outras forças políticas. A Vaza Jato explicita isso.

Figuras importantes da história do partido deram credibilidade a essas acusações. O Palocci, por exemplo.
– Tudo tem que ser apurado rigorosamente e investigado. Mas eu li parte do que ele disse, principalmente o que foi vazado na véspera de eleição pelo Moro. Tenho absoluta convicção de que são diálogos impossíveis de terem acontecido.

– O jovem Mercadante, ao fundar o PT, imaginaria que 40 anos depois teria que falar sobre corrupção no partido?
– Quando você é jovem, nunca pensa o que você vai fazer 40 anos depois. Essa pergunta não tem o menor cabimento [risos]. A causa que me levou ao PT há 40 anos é a mesma de hoje. Não aceitamos esses valores do individualismo, do consumismo. Queremos criar uma economia mais generosa, mais solidária.

Ainda é um partido socialista?
– Seguramente. Tivemos 388 anos de escravidão, 4 séculos de Colônia. Isso ainda está muito presente na cabeça da nossa elite.

Uma elite à qual o partido se aliou. Governou com banqueiros, industriais, latifundiários…
– Você tem de ter muito realismo para governar o país. Não consegue sem maioria no Parlamento.

– Não fica contraditório o discurso com a prática?
– Você tem de ter um projeto estratégico e uma correlação de forças reais. No Senado, foi uma luta duríssima: ProUni, Bolsa Família, salário mínimo. Se não fizéssemos aliança, não teríamos realizado essas políticas. Nós conseguimos colocar os pobres no Orçamento. Mas não tivemos força para fazer os ricos pagar mais impostos.

– Como o sr. vê o cenário econômico?
– O governo Bolsonaro tem um tripé: o primeiro é o obscurantismo. Nesse aspecto você tem uma frente cada vez mais robusta para enfrentar. O segundo é o autoritarismo, que reúne Moro e o núcleo militar. Aqui, já não há a mesma disposição. E o terceiro é o projeto neoliberal. Esse é o debate mais estratégico, e o mais difícil.

Essa dificuldade não está na falta de credibilidade do PT na economia, com dois anos seguidos de recessão perto de 4%?
– Nós chegamos no governo [em 2003], o país estava quebrado. Não tínhamos reservas cambiais e devíamos US$ 55 bilhões ao FMI, situação semelhante à da Argentina. Em três anos pagamos o FMI, depois emprestamos recurso para o FMI. O Brasil cresceu com estabilidade. Fizemos distribuição de renda.

– Aí veio a Dilma…
– A crise de 2009 atingiu a América Latina fortemente. O desabamento dos preços das commodities teve impacto em toda a região. Pega o Chile, modelo neoliberal, paraíso do Paulo Guedes. O cobre caiu fortemente.

– Mas só o Brasil caiu 4%.
– Nós tivemos uma articulação golpista. Toda vez que a gente não cedia em alguma negociação não aceitável, recebíamos pauta-bomba fiscal. A política sabotou a economia e agravou a crise. Deixamos US$ 380 bilhões de reservas cambiais. O pré-sal diziam que não tinha nada, hoje. dois terços do petróleo é pré-sal. Fiquei muito feliz de ver o Armínio [Fraga, ex-presidente do Banco Central] dizer que está preocupado com o social. Por eles são obrigados a se preocupar? Porque o povo vai voltar a cobrar distribuição de renda. Quando o [Bill] Clinton [ex-presidente dos EUA] foi reeleito, a frase que ficou famosa foi “é a economia, estúpido”. Eu diria: “é a desigualdade, estúpido”.

– Cobra-se muito do PT autocrítica pelos escândalos. Na economia ela não é necessária?
– Tem dois tipos de autocrítica. Uma autocrítica autoflagelante, que é a que vocês insistem que a gente deva fazer, e uma autocomplacente, que não resolve coisa alguma. Eu acho que a autocrítica sincera nós temos de fazer internamente, corrigir as nossas propostas, apresentar ideias novas. Nós tínhamos que ter colocado muito mais ênfase nas reformas política e tributária. Na política econômica temos muita coisa para reconsiderar, rever, erros que cometemos, dificuldades que tivemos. Mas a obra que nós construímos é muito maior do que os erros, que não foram poucos, nem pequenos, que nós cometemos.

– O pêndulo na próxima eleição voltará um pouco para a esquerda?
– Você tem o campo popular, em que o Lula é a grande liderança. Tem a extrema direita, hegemonizada pelo Bolsonaro. E há o bolsonarismo envergonhado, que o apoiou na eleição ou se omitiu. E que hoje está horrorizado com o obscurantismo. Na campanha, com quem estavam Doria, Eduardo Leite, Luciano Huck, que o apoiaram explicitamente?

– No time dos omissos o sr. inclui o Ciro [Gomes]?
– Aí não é uma linha auxiliar do bolsonarismo. Mas ele se omitiu no segundo turno, o que foi muito grave historicamente.

– E como evitar que esse pêndulo pare no centro, em nomes como o de Luciano Huck?
– O processo político está polarizado entre o legado do PT e a extrema direita. A economia vai melhorar? Ela pode melhorar. Não há condições para um crescimento sustentável, mas um voo de galinha está dado. Mesmo porque essa recessão é a mais longa da história do Brasil, a mais profunda. Você tem capacidade ociosa, alguma melhora pode ter. Não sei se suficiente para embalar esse pacote de perda de legitimidade e credibilidade.

– Ao longo de quatro décadas houve uma evidente lulodependência do PT. Isso é saudável?
– Os grandes ciclos de mudança numa sociedade tão autoritária como a nossa tiveram grandes lideranças no grupo popular e trabalhista. Ele [Lula] ganharia a eleição, todas as pesquisas mostraram isso.

– Ele é seu candidato em 2022?
– Se tiver condições, seguramente é o melhor candidato que nós teríamos.

– Por que o PT tem tanta dificuldade em ter postura mais crítica com relação ao Maduro?
– O PT tem um princípio fundamental, a autodeterminação e respeito à democracia. Eu não vejo vocês cobrarem com a mesma veemência o [Sebastián] Piñera [presidente do Chile]. Tem 160 baleados, milhares presos. Os caras atiram nos olhos dos meninos. E a repressão continua todos dias.

– O sr. não considera o Maduro um ditador?
– Não. Você pode falar que tem um regime autoritário. E que está tentando se defender de uma intervenção externa. O Trump disse que vai esmagar o Maduro.

– O Maduro impede deputados eleitos de entrar no Parlamento.
– Mas também não conheço ninguém que se autoproclame presidente sem ter tido um voto. A [Jeanine] Añez na Bolívia é o que? O partido dela teve 4% dos votos. E ela se instituiu presidente da República. O que nós não vamos fazer é ficar ao lado de uma intervenção externa. A Venezuela que resolva seu problema democraticamente.

 

 

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