Por Valter Pomar (*)

Marcelo Freixo está de casa nova: o Partido Socialista Brasileiro. Ele explicou seus motivos na seguinte entrevista à revista Veja:

https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/de-olho-na-eleicao-freixo-troca-de-partido-civilizacao-contra-barbarie/

A entrevista tem ótimos momentos. Vale destacar, divergências políticas à parte, que Freixo merece todo respeito e solidariedade, especialmente mas não unicamente pelo enfrentamento que trava contra as milícias.

Isto posto, havia uma expectativa de que Freixo regressasse ao PT, partido do qual ele se desfiliou no dia 26 de setembro de 2005. ALiás, há certa polêmica sobre o que teria ocorrido na época, como se pode ler aqui:

https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2016/09/20/marcelo-freixo-diz-que-saiu-do-pt-bem-antes-do-mensalao-sera/

Seja como for, Freixo preferiu ir para o PSB, decisão que segundo ele teria tido o aval de lideranças do próprio PT. No PSOL, onde esteve filiado por 16 anos, a notícia foi recebida de maneiras diferentes, a tal ponto que a executiva nacional daquele Partido se dividiu meio-a-meio na hora de divulgar uma nota a respeito. A nota da executiva estadual do PSOL do RJ pode ser lida aqui:

https://esquerdaonline.com.br/2021/06/11/nota-da-executiva-estadual-do-psol-rj-sobre-a-saida-de-marcelo-freixo/

Também integrante do PSOL, a tendência Movimento Esquerda Socialista divulgou a seguinte nota:

https://movimentorevista.com.br/2021/06/posicao-do-mes-sobre-a-saida-de-marcelo-freixo-do-psol/

Freixo não é o único que está trocando de partido. Outras lideranças de esquerda estão fazendo o mesmo. E o PSB não é o único a receber novos filiados. Mas falando de memória, é notável como grande número de petistas ou ex-petistas buscou abrigo no PSB nas últimas décadas.

Jacó Bittar, por exemplo, foi para o PSB quando rompeu com o PT, nos anos 1990! Luiza Erundina passou por lá, Ricardo Coutinho segue lá. Infelizmente, Ciro Gomes, Garotinho e Paulo Skaff também foram “socialistas”. Más línguas falam que um picolé de chuchu estaria pensando em fazer o mesmo.

A decisão de Freixo pode ser avaliada a partir de vários ângulos. Um deles é o estritamente eleitoral e sobre isso vários especialistas vem se manifestando. Outro ângulo é o partidário, mais exatamente o que revela acerca dos rumos tomados por alguns setores da esquerda brasileira.

Freixo é um militante de esquerda e, portanto, sabe perfeitamente que para nós os partidos não podem nem devem ser apenas legendas eleitorais. Freixo sabe que as motivações que levam um militante de esquerda a optar por um determinado partido são ou deveriam ser essencialmente ideológicas, programáticas e estratégicas. Portanto, quando um militante de esquerda decide entrar ou quando decide sair de um partido de esquerda por motivos estritamente ou principalmente eleitorais, estamos diante de um fenômeno que exige um pouco mais de reflexão.

O que Freixo nos diz a respeito, na já citada entrevista à Veja, é que sua mudança de partido “faz parte de um projeto nacional que também inclui a filiação ao mesmo partido do governador do Maranhão, Flávio Dino”. Mas no caso de Freixo, ele diz estar “olhando para dois cenários, o do Rio e o nacional”.

Freixo diz que sua saída do PSOL “permitirá a construção de uma aliança ampla”, necessária porque no Rio se estaria enfrentando “uma situação sem precedentes (…). A disputa no Rio, especialmente, não é da direita contra a esquerda, as da civilização contra a barbárie. O PSOL estará conosco, mas, sem dúvida, teria mais dificuldades de fazer uma frente tão abrangente quanto a que se faz necessária”.

A frente que Freixo deseja é tão abrangente que o apoio de FHC seria, nas palavras de Freixo, “fundamental”. Segundo ele, Lula e FHC estariam “unindo forças para garantir a Constituição de 1988, que se encontra sob ameaça. A eleição de 2022 será um plebiscito sobre se ela continuará valendo ou não”.

Curiosamente, em dezembro de 2017 Freixo tinha dúvidas sobre a necessidade de unir a esquerda. Como alguém já observou, as vezes o esquerdismo pode ser um atalho para a direita. As opiniões de Freixo em 2017 podem ser vistas aqui:

https://valterpomar.blogspot.com/2017/12/a-entrevista-de-freixo.html

Freixo errou (sob o aspecto citado acima) em 2017 e, na minha opinião, erra de novo – mas em sentido oposto – em 2021. Claro, erros todos nós cometemos, o tempo todo. E o erro que Freixo está cometendo agora é compartilhado por muita gente boa. Refiro-me à tese segundo a qual a “barbárie” poderá ser derrotada por uma aliança da esquerda com a direita gourmet.

Para ser preciso: ao contrário do que diz Freixo, a Constituição de 1988 não está “sob ameaça”. As liberdades democráticas sim, estas estão sob grave ameaça. Mas esta ameaça não resulta da ação do espírito santo, mas sim da ação de determinados setores políticos e sociais, que atuam sob o abrigo das instituições e de determinações da mesmíssima Constituição de 1988. O artigo 142 da Constituição, por exemplo, aquela da tutela militar, não está sob ameaça, pelo contrário está sendo aplicado todo santo dia.

O que ocorre, portanto, é outra coisa: os aspectos democráticos e populares da Constituição de 1988 vem sendo destruídos desde sua promulgação. E a turma de FHC é diretamente responsável por isto, desde 1990 até hoje. Basta ver como os tucanos e demais partidos da direita gourmet votaram e votam, na atual legislatura e na anterior, em temas como reforma da previdência, reforma trabalhista, privatizações, teto de gastos, autonomia do Banco Central etc. Portanto, simplemente não é possível “garantir a Constituição de 1988” em aliança com FHC.

O que pode ser feito – em aliança com setores da direita gourmet – é derrotar Bolsonaro. Mas dependendo de como isto seja feito, a vida do povo não necessariamente vai melhorar. Pois Bolsonaro é um perigo, mas não está sozinho e tem um programa. Para derrotar a barbárie, é preciso derrotar este programa e seus apoiadores, não apenas a pessoa do cavernícola.

E para derrotar o programa e os apoios do cavernícola, é necessário que tenhamos a disposição de enfrentar radicalmente determinados problemas que fazem nosso povo sofrer. É exatamente para evitar que façamos isto que a Veja pergunta: “isso quer dizer que com radicalismo, a esquerda não vai para a frente?” E a essa pergunta, a resposta de Freixo é dizer que “ninguém é mais radical que Bolsonaro. Se tem um radical que faz mal ao Brasil hoje, é ele”.

Este senso comum acerca do radicalismo é bastante funcional para certa direita, que deseja evitar polarizações, que deseja soluções “ao centro”. A esse respeito, vale ler a entrevista do governador do Espírito Santo, que também é do PSB:

https://www.poder360.com.br/eleicoes/polarizacao-de-lula-e-bolsonaro-empobrece-a-politica-diz-governador-do-es/

A esquerda que estimula este tipo de raciocínio foi ou será vítima dele no futuro, salvo é claro se mudar totalmente de lado. De toda forma, Freixo está sendo absolutamente sincero: ele não é mesmo um “radical”. Quem tiver dúvidas, leia a carta que ele divulgou no segundo turno das eleições cariocas de 2016:

https://valterpomar.blogspot.com/2016/10/a-carta-de-freixo.html

Mas voltemos ao ponto: a decisão de Freixo e de outros, de sair ou de entrar em partidos por razões estritamente ou principalmente eleitorais é reveladora do estado de ânimo que prevalece em alguns setores da esquerda brasileira: o de acreditar que é possível transformar o país essencialmente a partir de dinâmicas eleitorais. E como as dinâmicas eleitorais em nosso país são determinadas em torno de um sistema que transforma os partidos em legendas e supervaloriza os mandatos, é a partir dos mandatos (e da luta por conquistá-los) que certa esquerda organiza todo o seu plano de voo.

Uma política organizada em torno do estritamente eleitoral pode dar eleitoralmente certo e isto pode ter efeitos positivos no curto e médio prazo. Mas uma política organizada em torno do estritamente eleitoral seria suficiente para transformar o Brasil de maneira mais profunda e permanente?

A experiência do PT é sintomática: ganhamos 4 eleições presidenciais, mas não conseguimos colocar o povo na rua para resistir ao golpe de 2016. E o retrocesso que veio em seguida foi e segue sendo brutal.

É como se Sisifo tivesse empurrado a pedra morro acima e ela rolasse e caísse num despenhadeiro, bem abaixo de onde estava no início.

Se Freixo tivesse saido do PSOL e – ao invés do PSB – tivesse escolhido se filiar ao PT, ele mereceria esta crítica?

Por um lado, há diferenças profundas entre o PSB e o PT. Nas palavras de Freixo, o PSB é “uma legenda que facilita o diálogo com todos, do campo progressista ao centro”. O diálogo com “todos” incluiu, é bom lembrar, o apoio a Aécio em 2014 e ao apoio ao golpe em 2016, sem falar de episódios posteriores e mais recentes. Portanto, vir para o PT seria manter-se no campo da esquerda; ir para o PSB é deslocar-se para longe da esquerda.

Por outro lado e falando em tese, se alguém rompe com o PT – fazendo críticas pela esquerda ao eleitoralismo – e depois decide voltar ao PT por razões estritamente eleitorais, não há como não sentir uma dupla tristeza. Primeiro, porque se os críticos pela esquerda que saíram não tivessem saído, a história poderia ter seguido um curso diferente. Segundo, porque ao voltar deste jeito, acabam reforçando os motivos que levaram à sua própria saída.

A luta contra o bolsonarismo e contra o neoliberalismo – aconteça o que acontecer em 2021 e 2022 – não será curta. Será uma maratona. Será preciso muita luta e muita organização. Os partidos têm uma importância fundamental nisto. Mas os partidos de que precisamos para vencer esta luta não podem ser apenas ou principalmente eleitorais. A experiência recente já demonstrou isto. Mas como cita o Paulo Nogueira Batista Jr., no interessantíssimo livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém (2019), para algumas pessoas “a experiência é uma lanterna que se carrega ao ombro: só ilumina o caminho percorrido”.

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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