Por João de Deus (*)

A complexa e delicada situação política do Maranhão coloca, principalmente para a esquerda, um desafio. O de seguir em frente na corda bamba e cumprir o trajeto de superação do sarneysmo, mantendo a linha de conquistas até aqui alcançadas em dois mandatos do governador Flávio Dino (ex-PCdoB, atualmente no PSB) e apontar para novas e possíveis conquistas políticas e sociais. Ou seja, o desafio de não permitir a restauração conservadora e seguir em frente. Trata-se de missão espinhosa já que, até há bem poucos dias, a liderança do governador não havia logrado uma pré-candidatura de esquerda para substituí-lo no governo do estado nas eleições de 2022.

Há meses, duas candidaturas da base do governo têm corrido o Maranhão, em megaeventos de campanha, arregimentando forças e disputando a preferência do governador, que, candidato à frente nas pesquisas para a vaga no Senado, ainda não se definiu quanto à candidatura ao governo do estado. São eles, o vice-governador Carlos Brandão (PSDB), ligado ao agronegócio, e o senador Weverton Rocha (PDT), em segundo nas pesquisas, atrás apenas de Roseana Sarney (MDB). Esta última, de oposição, dificilmente sustenta-se como candidata com seu grupo fora da máquina governamental e sem o apoio de Lula de outrora. Também de fora da base do governo, e também pela direita, estão as pré-candidaturas do deputado federal Josimar de Maranhãozinho (PL), envolto em escândalos de corrupção por desvios de verba pública da saúde, e Edivaldo Holanda Jr. (PSD), ex-prefeito de São Luís; candidaturas que, apesar de menos cotadas, não devem ser menosprezadas. Ainda não se sabe o rumo que tomará o senador em fim de mandato, Roberto Rocha (PSDB), que ora lidera o bolsonarismo no Maranhão.

Muitos ventos ainda passarão por baixo e por cima desta corda bamba, mas por hora tem por mais importantes no cenário estadual os dois primeiros, Brandão x Weverton, ambos a cortejarem não só o apoio do governador, mas também de Lula, franco favorito no Maranhão à presidência da República (62%, nas pesquisas).

Sim! Apesar de seus partidos (PSDB e PDT) terem presidenciáveis em âmbito nacional, não poupam promessas de neutralidades e apoios recíprocos. Se bem que Brandão parece ter jogado a toalha neste quesito, declarando publicamente apoio a Eduardo Leite contra João Doria nas prévias internas do PSDB. Porém, o certo é que, para a esquerda, essas candidaturas representam um risco de restauração conservadora frente ao que temos, isto é, um governo de amplíssima base de apoio que vai da esquerda à direita (PT, PCdoB, PSB, PDT, DEM, PP, PTB, PRTB, PSL, Republicanos etc.), mas sob uma direção de centro-esquerda.

Ocorre que, partindo da esquerda da base de sustentação do governo, vem ganhando força nas últimas semanas a proposição de uma pré-candidatura própria do PT ao governo do estado, colocando o nome do secretário estadual de Educação e recém-ingresso no partido Felipe Camarão, à frente da tarefa. Em muito pouco tempo (dias), a pré-candidatura de Camarão conseguiu juntar forças dentro e fora do PT, nos movimentos sociais e populares, abriu diálogo com PSB, PCdoB, Psol, REDE e outros partidos, culminando com um lançamento realizado em São Luís, no último 4 de novembro, reunindo cerca de 3 mil pessoas! Isso é sintomático de duas coisas: 1) do vazio representado pela falta de uma candidatura minimamente à esquerda no cenário político de 2022, que possa, com legitimidade, sustentar um programa vinculado ao horizonte das lutas sociais no Maranhão e; 2) da vontade que há, e vinha sendo contida, por parte das bases petistas e dos movimentos sindicais, populares e de juventude, de uma alternativa à esquerda, que possa dar coerência e esperança para seguir em frente (ainda que numa corda bamba), evitando, ao mesmo tempo, o retrocesso (da oposição de direita) e os dois lados do abismo conservador (Brandão X Weverton).

Além disso, o ambiente de polarização política e social do presente deve se estender ainda por muito tempo. A base social de ultradireita seguirá viva após 2022, sobrando menos espaço para as posições ao centro. A direita tradicional (DEM, PP, PSDB, MDB etc.), que luta para constituir uma terceira via, não caminhará com Lula em 2022 se puder evitar. Então, no Maranhão (e em qualquer outro estado da Federação), é extremamente arriscado, para o PT e os partidos mais à esquerda, deixar de apresentar uma candidatura que, agregando forças e movimentos do campo social democrático e popular (que, de outra forma, seriam caudatários), possa fazer frente de modo coeso a todos os ataques que certamente serão desferidos pelo bolsonarismo e por todas as outras vias que a direita tem à disposição (Leite, Doria, Datena, Moro, Ciro etc.). Até o momento, só a candidatura própria do PT, com Felipe Camarão, poderá cumprir esse papel. Para todas as demais isto sequer é preocupação.

Por isso, é preciso, no caso do PT, de um palanque próprio para Lula, e, no caso da esquerda em seu conjunto, de um que resgate sua autonomia e impulsione a eleição de Flávio Dino ao Senado e deputados e deputadas comprometidos com as lutas sociais à ALEMA e à Câmara Federal, para que não nos lamentemos de ter em 2023 mais um “pior Congresso da história”. Na corda bamba, a saída para a esquerda é seguir em frente.

(*) João de Deus Castro é servidor público federal e militante do PT/São Luís-MA

 

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