Por Olavo Brandão Carneiro (*)

Nesta semana, que começa em 13 de abril, veremos se há ou não tinta na caneta de Bolsonaro, após o ministro da Saúde confrontá-lo no programa Fantástico, da Globo, transmitido no domingo. Mandetta deu entrevista à emissora que é considerada pelo presidente da República como uma de suas principais inimigas. Defendeu o distanciamento social. E reclamou que a população não sabe se escuta o ministro ou presidente, sendo necessário um discurso único.

Este confronto ocorre uma semana depois de Bolsonaro enquadrar Mandetta, após ameaçá-lo de demissão. O ministro e a sua esquipe passaram a dizer que o isolamento social é uma decisão dos governadores e prefeitos, com base nas estatísticas organizadas pelo ministério da Saúde (MS). Ou seja, o MS passa a ser um emissor de boletins com dados e análises e não mais um coordenador das medidas de combate ao covid-19.

Ao longo da última semana Bolsonaro intensificou ações públicas de desmoralização do isolamento social. Os governantes têm como papel, entre outros, de serem exemplos e conscientizadores, um papel psicológico. A Procuradoria Geral da República passa a estudar medidas de restrição aos decretos estaduais e municipais de isolamento social. Nas redes sociais o bolsonarismo promove várias ofensivas para a disputa ideológica. Entre elas, memes com ataques aos governadores e suas iniciativas legais para promover o isolamento social. O presidente liga para governantes pressionando para afrouxar as medidas de isolamento, como fez com Zema de Minas Gerais.

Por que Mandetta resolveu confrontar o chefe após escolher a sua permanência no cargo uma semana antes? Pois é de conhecimento público a divergência de Bolsonaro com o isolamento e seu rechaço a verdades que não sustentem as suas posições. Uma hipótese é que apenas ele, Mandetta, cumpriu o acordo ao mudar a postura do MS. Somado ao diagnóstico de que nestas condições a explosão do contágio e o consequente colapso do sistema de saúde e a tragédia humanitária serão inevitáveis. E/ou o ministro tenta recuperar poder de decisão sobre isolamento para evitar este cenário anterior descrito, enquanto ainda há tempo.

Bolsonaro tem tinta na caneta? Veremos nesta semana. O presidente não mudará suas convicções e o comportamento delas derivado. Alias, é típico dele não cumprir os acordos que faz. Vide a reunião com Toffoli e Alcolumbre sobre as manifestações de 15 de março, quando disse que não reforçaria mais o movimento claramente contra os outros dois poderes e no dia seguinte estava discursando em Roraima, chamando para a manifestação. Bolsonaro foi confrontado pelo seu subordinado em cadeia nacional na emissora de maior audiência do país.

A tese de que Bolsonaro não governa mais será testada esta semana. Se Mandetta ficar e recuperar o protagonismo do MS na defesa e promoção do isolamento social, a tese parece ser correta. Se Mandetta for exonerado, a tese se mostra equivocada. De qualquer forma não é irrelevante que os generais ministros Braga Neto e Luiz Eduardo Ramos tenham acompanhado o presidente na caminhada com populares em Goiás sábado. É mais sinal de enquadramento dos generais do que tutela.

A semana tende a ter algumas definições políticas tão sérias quanto a expansão da doença, ao passo que vidas humanas continuam a ser perdidas. Mas isto é irrelevante para quem defende tortura, torturadores e eliminação física de adversários políticos, de gays, indígenas, sem-terra e quilombolas.

Ainda no campo da política, cabe observar uma esquerda burocratizada e pautada pelo republicanismo (que hoje só existe para ela) com dúvidas sobre o #ForaBolsonaro e #NovasEleições. Pouco importa o formato concreto que tomará a palavra de ordem, que cumpre papel fundamental de agitação e reforço da necessidade do fim do governo e seu programa ultraliberal.

(*) Olavo Brandão Carneiro é Secretário Estadual de Formação Política do PT-RJ

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