Por Valter Pomar (*)

Luis Felipe Miguel

Recebi de vários lugares diferentes um interessante texto de Luis Felipe Miguel sobre o apoio da esquerda a Baleia Rossi, que segundo ele seria “a alternativa possível”.

O texto citado está reproduzido ao final e pode ser lido no seguinte endereço:  https://www.brasil247.com/poder/luis-felipe-miguel-defende-apoio-da-esquerda-a-baleia-rossi

Luis Felipe critica três argumentos que estariam sendo utilizados pelos setores da esquerda contrários a apoiar Baleia: 1/a teoria da covardia&traição; 2/o “maquiavelismo digno de Cebolinha”, segundo o qual juntar a esquerda com Maia seria na verdade um “plano de Bolsonaro”; 3/o “purismo” de quem acha que o acordo é troca de cargos.

Luis Filipe está certo quando lembra que “cargos” fazem parte da política. Acontece que não foi por “purismo” que muitos petistas criticaram a tática que prevaleceu na bancada, mas sim devido ao peso desmedido que os “cargos” tiveram em definições táticas importantes.

Seria possível, por exemplo, ter um bloco próprio e uma candidatura própria no primeiro turno; deixando para derrotar o candidato de Bolsonaro no segundo turno. Mas isso provavelmente afetaria a conquista dos pretendidos cargos.

Luis Filipe defende que a “questão precisa ser enquadrada de modo pragmático: o que se ganha e o que se perde fechando com o candidato de Maia no primeiro turno. E o que se ganha e o que se perde marcando posição com algum candidato sem absolutamente nenhuma chance de vitória”.

Na verdade, o “modo pragmático” de Luis Filipe não é tão pragmático assim.

Pragmatismo para valer seria “ficar com quem vai ganhar”, com o objetivo de garantir os tais “cargos”. Mas esta posição não prevaleceu.

O pragmatismo que prevaleceu é do tipo “politicamente correto”, tipo assim: já que vamos votar contra Lira no segundo turno, por qual motivo não apoiar Baleia Rossi já no primeiro turno e garantir assim o que deveria ser nosso por direito proporcional, um cargo desses que parecem um kinder ovo?

Claro, antes e além disso viriam alguns “compromissos”. Pois até os mais pragmáticos afirmam que a política está no comando.

Luís Filipe defende o pragmatismo porque considera que a “eleição na Câmara é intranscendente. Pouco gente a acompanha, não tem interesse para o público. Marca-se posição para quem já tem posição”.

Acontece que há, na atividade política em geral e na vida parlamentar em particular, muitas situações desse tipo, que pouca gente acompanha, que não tem interesse para o público. Se “marcar posição” em situações assim for inútil ou desnecessário, então proponho inaugurar oficialmente a festa do caqui do oportunismo.

Por outro lado, a eleição da Mesa pode parecer, mas não é verdadeiramente “intranscendente”. Aliás, se fosse, não estaria ocupando as nossas atenções há tantas semanas.

Por pensar assim é que sigo considerando que teria sido muito útil, para a esquerda, ter uma candidatura que fizesse o debate público em torno da vacina, da ajuda emergencial, do impeachment e do desemprego etc.

Sem este debate público, o que será “intranscendente” serão os compromissos que o PT apresentou e que até agora não vi Baleia firmar.

E aí vem o problema adicional: não sei com base no que podemos acreditar que a vitória de Baleia Rossi seria capaz de “colocar obstáculos ao avanço de partes” da agenda de Bolsonaro.

Lembro que nas votações Rossi foi mais fiel ao governo do que Lira.

Também não sei com base no que devemos esperar que Baleia Rossi vá contribuir para “condições melhores para a luta popular”.

Na minha opinião, difundir este tipo de crença contribui para que setores da esquerda acreditem na tal “frente ampla”.

Para que o apoio a Baleia Rossi fosse meramente “pontual”, como defende Luis Felipe, seria melhor que ele fosse dado no segundo turno.

Do jeito como está sendo feito, estamos alimentando a ilusão de que o centrão gourmet é algo que ele não é.

Uma das vezes em que acreditamos nisso, foi quando se confiou a articulação política do governo no Congresso a Temer et caterva, em 7 de abril de 2015.

Deu no que deu.

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

 

SEGUE ABAIXO O TEXTO CITADO

Luis Felipe Miguel defende apoio da esquerda a Baleia Rossi

Por Luis Felipe Miguel, em seu Facebook

Ainda sobre a eleição na Câmara: os opositores ao acordo em torno de Baleia Rossi têm lançado mão de um novo argumento, apresentado pioneiramente, até onde sei, por Wilson Luiz Müller, de que esse seria o plano de Bolsonaro.

O acordo comprovaria, para a base bolsonarista, que Maia e esquerda são farinha do mesmo saco – e, portanto, que o capitão é de fato estranho à velha política. Todas as movimentações recentes do governo, incluindo as atrocidades ditas sobre a presidente Dilma Rousseff, são lidas à luz dessa teoria. Teriam sido milimetricamente planejadas para empurrar o PT para os braços de Maia.

Eu já me posicionei a favor do acordo – e penso que, diante das circunstâncias, é a alternativa possível. Mas acho que o tema merece debate e que os argumentos contrários são dignos de atenção.

A ideia de que é uma jogada maquiavélica de Bolsonaro, no entanto, é risível. A presidência da Câmara é estratégica e o governo está pondo todas as suas fichas em Arthur Lira. A política real não se faz com planos mirabolantes, mas com cálculo de forças.

E a razão mais básica: Bolsonaro não precisa produzir evidências para convencer seu gado. Ele já vem convencido de fábrica. Por que arriscar uma derrota na Câmara se qualquer imbecilidade disparada nas redes sociais já surtiria o mesmo efeito?

Outro argumento, que recebeu o tratamento mais enfático em texto de Aldo Fornazieri, é que apoiar Baleia Rossi é traição e covardia. Uma percepção ingênua, para dizer o mínimo, da ação política. “Fiat iustitia, et pereat mundus” – devemos ir valentemente para o brejo, é isso?

Se o argumento anterior cobria Bolsonaro de um maquiavelismo digno do Cebolinha, aqui falta um pouquinho de Maquiavel do nosso lado. De resto, Valter Pomar (que por sinal é contra o acordo na Câmara) já fez a crítica ao “machismo-leninismo” de quem “interpreta todos os problemas da esquerda com base no binômio traição/coragem”.

Por fim, há o purismo de quem critica o acordo como sendo a busca por “cargos”.

Sim, está em jogo a distribuição dos cargos na mesa diretora e também nas comissões – que têm menos visibilidade, mas que são onde ocorre o grosso do trabalho legislativo. E a política institucional se faz por meio de cargos. A não ser que se esteja propondo abandoná-la, ambicionar cargos não é nenhum demérito.

A meu ver, a questão precisa ser enquadrada de modo pragmático: o que se ganha e o que se perde fechando com o candidato de Maia no primeiro turno. E o que se ganha e o que se perde marcando posição com algum candidato sem absolutamente nenhuma chance de vitória.

Já argumentei que se ganha muito pouco marcando posição porque a eleição na Câmara é intranscendente. Pouco gente a acompanha, não tem interesse para o público. Marca-se posição para quem já tem posição.

É importante, por outro lado, impor a derrota a Bolsonaro – tanto por colocar obstáculos ao avanço de partes de sua agenda quanto pelo desgaste que a presença de uma presidência da Câmara não alinhada a ele causa à sua persona política “mítica”.

E é importante ter um novo presidente da Câmara que tenha um compromisso básico com a vigência de direitos e liberdades liberais – exatamente para garantir condições melhores para a luta popular, em relação à qual a política institucional deve ser entendida como subsidiária.

Por isso, é fundamental que o apoio a Baleia Rossi seja claramente enquadrado como o que de fato é: um acerto pontual, que não implica diluição da esquerda em qualquer “frente ampla”, nem a redução de sua agenda aos compromissos mínimos acordados para a eleição, nem comprometa a independência de ação das bancadas em relação ao novo presidente da Câmara.

Até onde posso ver, esse é o caminho que está sendo trilhado.

  1. Um elemento importante da equação é a disputa interna no PT e no PSOL, pela hegemonia dentro de cada partido. Não participo dessas brigas. Mas acho ruim se a dinâmica da disputa interna determinar as posições quanto a uma questão assim importante.

 

Comente!