Por Valter Pomar (*)

O professor Luis Felipe escreveu um texto, eu comentei e ele respondeu.

Os dois primeiros textos podem ser lidos aqui:

http://valterpomar.blogspot.com/2021/01/luis-felipe-miguel-o-baleia-e-o.html

A resposta do professor está reproduzida na íntegra, ao final.

O professor me acusa de ter cometido uma “impropriedade”. Pode ser, sempre pode ser. Mas no caso em tela, eu acho que não cometi e queria tentar explicar.

Reproduzo o que eu escrevi (já corrigindo a grafia, o professor sinceramente me perdoe, quem me conhece pessoalmente adivinhará o motivo de eu ter escrito Filipe e não Felipe):

Luis Felipe defende que a “questão precisa ser enquadrada de modo pragmático: o que se ganha e o que se perde fechando com o candidato de Maia no primeiro turno. E o que se ganha e o que se perde marcando posição com algum candidato sem absolutamente nenhuma chance de vitória”. Na verdade, o “modo pragmático” de Luis Felipe não é tão pragmático assim. Pragmatismo para valer seria “ficar com quem vai ganhar”, com o objetivo de garantir os tais “cargos”. Mas esta posição não prevaleceu.

Luis Felipe afirma que eu confundo “deliberadamente ou não – pragmatismo com oportunismo. E diz que eu passaria a ideia de que, para ele, “o que se ganha e o que se perde” são “apenas os cargos”, “quando meu texto diz bem claramente que é fundamental impor uma derrota a Bolsonaro”.

Para começo de conversa, ao contrário do que o professor parece ter entendido, eu o estava elogiando, não criticando.

Eu o comparei positivamente com aqueles dirigentes e deputados do PT que, em nome do “pragmatismo” (no caso, explícita e assumidamente em nome de conquistar “cargos”) defenderam que deveríamos apoiar Arthur Lira.

Já o professor e muitos outros defendem que o principal é derrotar Bolsonaro e que – dentro destes marcos – caberia sim e/ou seria aceitável agir com “pragmatismo”.

Agora, quanto a distinção entre “pragmatismo” e “oportunismo”, isso encheria páginas e páginas de texto.

Só digo, em defesa da minha suposta impropriedade, que todo oportunista se disfarça de pragmático, embora nem todo pragmático seja oportunista.

Acrescento que no debate em tela, ao menos no PT, há as duas coisas em proporções que infelizmente não são as que eu gostaria.

Luis Felipe diz que me equivoco, também, ao ler “intranscendente” como “desimportante”. E diz que imagina ter sido “só o efeito de uma leitura apressada do texto”.

Novamente, pode ser que eu tenha feito uma leitura apressada do texto, sempre pode acontecer isso.

Mas peço que o professor releia minha crítica: Luís Filipe defende o pragmatismo porque considera que a “eleição na Câmara é intranscendente. Pouco gente a acompanha, não tem interesse para o público. Marca-se posição para quem já tem posição”. Acontece que há, na atividade política em geral e na vida parlamentar em particular, muitas situações desse tipo, que pouca gente acompanha, que não tem interesse para o público. Se “marcar posição” em situações assim for inútil ou desnecessário, então proponho inaugurar oficialmente a festa do caqui do oportunismo.

Como fica explícito na passagem acima, eu creio ter entendido o que o professor quis dizer, apenas discordei de que em nome da “intrascendência” não se deva ou não possa “marcar posição”.

Reitero: é muito comum que este tipo de argumento (“pouca gente acompanha, não tem interesse para o público”) seja usado para justificar concessões aos péssimos costumes da política burguesa mais tradicional.

Talvez a crítica do professor se deva ao trecho a seguir: Por outro lado, a eleição da Mesa pode parecer, mas não é verdadeiramente “intranscendente”. Aliás, se fosse, não estaria ocupando as nossas atenções há tantas semanas.

O professor talvez tenha entendido, pelo que está escrito acima, que eu traduziria “intranscendente” por “desimportante”. E realmente poderia ser entendido assim. Assim, para evitar equívocos, vamos lá, o que eu penso é: a eleição da Mesa transcende o círculo dos diretamente envolvidos e tem potencial para transcender o círculo dos sempre-interessados-em-política.

E como eu defendo que a esquerda deve jogar luz sobre absolutamente tudo que ocorre nas entranhas do Estado, acho conformista o argumento da “intranscendência”.

[Acrescento o seguinte: seria ou não útil para a esquerda ter uma candidatura à presidência da Câmara que defendesse o SUS, a vacinação, o emprego, o impeachment?!]

Por fim, o professor Luis Felipe fez um comentário sobre a necessidade de termos “boa fé” no debate.

Pois bem, em nome da boa fé mútua, sugiro que Luís Felipe releia o seguinte trecho do seu texto: “Como tenho falado, é um debate difícil. Não é fácil apoiar o candidato de Maia, assim como imagino que ninguém ache fácil abrir caminho para a vitória do candidato de Bolsonaro”.

Do jeito que está escrito, fiquei com a impressão de que ele considera que as alternativas são apoiar Baleia ou “abrir caminho para a vitória do candidato de Bolsonaro”. Portanto, apesar que “ninguém ache fácil”, os apoiadores de candidatura própria estariam contribuindo para a vitória de Lira. É isso mesmo ou entendi errado?

Seja como for, da minha parte penso que os defensores do voto no Baleia têm excesso de boa fé.

Não sei se procede a informação divulgada hoje, dando conta de que Temer teria procurado Bolsonaro para garantir que, eleito, Baleia não fará oposição.

Sendo verdade ou fake news, é preciso muita boa fé para apostar nossas fichas, no primeiro turno, em uma operação dirigida por Maia, Temer e Baleia.

Boa fé ou “maquiavelismo digno do Cebolinha”, para usar a genial expressão do professor Luis Felipe. Afinal, quem sabe o espírito de escorpião traidor não faça Baleia repetir uma história recente e promover o impeachment de Bolsonaro?

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

 

SEGUE O TEXTO DE LUIS FELIPE

Na crítica que faz a meu texto defendendo o difícil acordo sobre a presidência da Câmara, Valter Pomar comete uma, digamos, “impropriedade”.

Ele escreve: “Luis Filipe (sic) defende que a ‘questão precisa ser enquadrada de modo pragmático: o que se ganha e o que se perde fechando com o candidato de Maia no primeiro turno. E o que se ganha e o que se perde marcando posição com algum candidato sem absolutamente nenhuma chance de vitória’. Na verdade, o ‘modo pragmático’ de Luis Filipe (sic) não é tão pragmático assim. Pragmatismo para valer seria ‘ficar com quem vai ganhar’, com o objetivo de garantir os tais ‘cargos’. Mas esta posição não prevaleceu.”

Pomar confunde – deliberadamente ou não – pragmatismo com oportunismo. E passa a ideia de que “o que se ganha e o que se perde” são apenas os cargos, quando meu texto diz bem claramente que é fundamental impor uma derrota a Bolsonaro.

A crítica também se equivoca ao ler “intranscendente” como “desimportante”. No entanto, usei “intranscendente” para indicar que não transcende o estreito círculo dos participantes ativos do debate político à esquerda. Imagino que aqui seja só o efeito de uma leitura apressada do texto.

Como tenho falado, é um debate difícil. Não é fácil apoiar o candidato de Maia, assim como imagino que ninguém ache fácil abrir caminho para a vitória do candidato de Bolsonaro.

Justamente por ser um debate difícil, é bom que seja travado de boa fé.

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