por Wladimir Pomar (*)

Parece ser consenso em certas correntes políticas a suposição de que as loucuras bolsonaristas não se sustentarão, entre outras coisas porque, supostamente, ninguém quer conviver com discursos e ações odiosos.

Historicamente, se tal teoria fosse extensível a todo o mundo, as loucuras hitleristas, mussolinistas e dos belicistas japoneses não teriam levado o mundo a mergulhar na trágica Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos também não teriam invado o Vietnam, Trump não teria mandado assassinar o mais importante general iraniano etc etc etc.

Infelizmente, o que assistimos no Brasil e em várias partes do mundo é um esforço continuado de algumas classes sociais e de seus representantes políticos para transformar seu ódio em ação prática, destruindo tudo do que discordam. Aliás, em termos explícitos, ao contrário de alguns, Bolsonaro jamais escondeu que pretende destruir, com ódio, todas as realizações do passado que não contaram com sua concordância, se possível revivendo os horrores da ditadura militar de 1964 a 1984.

Nesse sentido, a experiência chilena pode ser útil àqueles que continuam ingenuamente supondo que as loucuras bolsonaristas, como as pnochetistas, não são ou não eram sustentáveis. Pior do que a experiência brasileira, o processo destrutivo da sociedade chilena continuou por cerca de cinco décadas após o fim da sua ditadura militar. Causou imensos sacrifícios a seu povo, até que um aparentemente simples aumento de passagens do metrô o levasse a explodir e, finalmente, a dizer basta, em meio a um supostamente “estado democrático”!

Aqui, a resistência às loucuras bolsonaristas talvez devesse começar por uma disputa intensa relacionada com as reformas na previdência, no sistema tributário e creditício, na segurança pública, na propriedade estatal, nas políticas sociais e na educação. Primeiro porque nas propostas ao Congresso não constam as reformas agrária e industrial. Segundo, porque as reformas encaminhadas pelo bolsonarismo, com a participação de vários setores da burguesia e das classes médias, embora tenham consequências profundas na vida da maior parte da população brasileira, impedem a participação popular no debate.

Para piorar, essas reformas têm como diretriz básica não só manter os privilégios dos grupos milionários, mas ampliá-los ainda mais, e escancarar as portas do país à exploração das grandes corporações transnacionais, principalmente dos Estados Unidos. Portanto, a questão das reformas bolsonaristas não reside na necessidade ou não de realizar reformas, mas na natureza de cada uma delas. Ou seja, a quem elas pretendem beneficiar e às custas de quem?

Alguns teóricos das reformas bolsonaristas reclamam que no Brasil não existe um alto consenso social, que alimente um ambiente reformista. Isso porque existe um conflito distributivo em torno de rendas intermediadas pelo Estado, pagamentos a políticos e protecionismo comercial e regulatório. Infelizmente, eles não explicitam quem pratica e se beneficia desse protecionismo, embora as evidências empíricas apontem para os agronegociantes, as empresas estrangeiras, os banqueiros e os financistas, assim como para as camadas intermediárias a serviço desses setores.

Não se tem notícia de que os quase 13 milhões de desempregados, os outros milhões de desalentados, os trabalhadores empregados nas indústrias, comércios e agricultura, assim como a maior parte da classe média empregada em diversos setores da economia e do Estado, tenham condições de praticar qualquer tipo de protecionismo comercial e regulatório.

No entanto, o agronegócio, as empresas estrangeiras, os banqueiros e os financistas, além de concentrarem a parte do leão da renda gerada pelo país, ainda se empenham em impedir que parte ínfima dos recursos públicos sejam utilizados em qualquer tipo de proteção social.

O protecionismo comercial e regulatório, por sua vez, é praticado por um oneroso e caro sistema oligopólico de empresas estrangeiras e do agronegócio, cuja infraestrutura tem por base rodovias e caminhões, ao contrário de ferrovias e transportes marítimos e fluviais. O que gera um custo muito mais alto no processo de circulação das mercadorias. Num país razoavelmente sério, o desmonte das ferrovias e do transporte marítimo, como a que ocorreu no Brasil, seria certamente julgada como crime de lesa pátria.

Nessas condições, todas as reformas apresentadas para resolver o conflito distributivo das rendas intermediadas pelo Estado brasileiro têm se orientado no sentido de piorar ainda mais a situação dos trabalhadores, tanto dos incluídos quanto dos excluídos do sistema produtivo. No Brasil atual convivem 13 milhões de desempregados, outros tantos milhões de desalentados, mais de vinte milhões de empregados de baixa renda, numa perspectiva flutuante de crescimento econômico de 1%, na melhor das hipóteses.

Nessas condições, reformas de diferentes tipos, que reduzam ainda mais os ganhos dos trabalhadores e aposentados, legalizem e incentivem ainda mais a letalidade policial, autorizem ruralistas a matarem a quem, suposta ou verdadeiramente, invada terras, perdoem bilhões de reais das dívidas do agronegócio, e não imponham qualquer ônus aos dividendos que as transnacionais exportam para suas matrizes, só apontam no sentido de concentrar e centralizar ainda mais a riqueza de quem já a monopoliza.

Numa operação ideológica de vulto, para amolecer a resistência social a tais reformas, há um empenho crescente de também reformar a educação e a cultura através de uma verdadeira guerra contra a diversidade e a liberdade cultural, contra a produção científica (terra plana não necessidade de cálculos complexos), contra o ensino de humanidades e contra a liberdade de pensamento.

Paralelamente, num sentido ainda mais dependente e desnacionalizante, embora bastante complexo nas atuais condições do comércio internacional, há o empenho em desmatar e desnacionalizar as terras indígenas e as florestas tropicais e amazônicas, substituir os atuais parceiros comerciais do Brasil, mesmo que tenhamos superávit comercial com eles e subordinar ainda mais o deficitário comércio externo brasileiro aos Estados Unidos.

Em tais condições, as loucuras bolsonaristas não pretendem, de forma alguma, retomar um processo de crescimento e desenvolvimento do Brasil. Sua perspectiva real é não só desmontar as conquistas sociais dos anos Lula, mas também intensificar a desindustrialização, o desemprego e a exclusão social. Ou seja, piorar ainda mais a guerra civil não declarada que mata mais de 60 mil brasileiros por ano, assim como intensificar outras mazelas que empanam a sociedade brasileira.

Portanto, achar que as loucuras bolsonaristas não se sustentarão porque ninguém quer conviver com discursos e ações odiosas é tão enganoso quanto a ideia de que as reformas bancadas pelos teóricos neoliberais também morrerão por ineficiência e inanição.

Na verdade, não basta se contrapor às loucuras bolsonaristas e às reformas neoliberais. O Brasil necessita de uma série considerável de reformas de profundo conteúdo nacional, democrático e popular, abrangendo os aspectos políticos, sociais, econômicos e culturais. Essa é a única forma de modernizar o país e atender às necessidades de seu povo. Somente com um programa que abranja tais reformas será possível conquistar os corações e mentes de milhões de brasileiros e se contrapor efetivamente tanto às loucuras bolsonaristas quanto às reformas que tendem a piorar ainda mais sua situação econômica, social e cultural.

Nessas condições, o que espanta é que, um ano após a vitória eleitoral de Bolsonaro e sua constante prática de loucuras e, mais do que elas, de desmonte das conquistas econômicas, sociais e políticas dos anos anteriores, as forças políticas de oposição a tais horrores não tenham sido capazes de construir um programa de reformas que se contraponham ao desmonte neoliberal.

E, pior do que isso, algumas dessas forças continuam acreditando que as loucuras bolsonaristas não poderão sustentar-se por si próprias, bastando esperar que o desastre ocorra. Só isso pode explicar que bancadas oposicionistas com forte presença no Congresso tenham sumido do noticiário e não se saiba o que elas estão fazendo lá.

Argumentar que a grande mídia boicota o noticiário por se achar mancomunada com as loucuras bolsonaristas pode aliviar a consciência de alguns. Mas, convenhamos, desde quando isso passou a ser argumento para justificar a inação?

(*) Wladimir Pomar é jornalista e escritor

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