Por Valter Pomar (*)

Lindbergh Farias, Guilherme Boulos e Jilmar Tatto (Foto: PT no Senado | Brasil 247 | Divulgação)

Segundo li no Brasil 247, o companheiro Lindbergh Farias teria dito que “no Rio, o único nome possível para desbancar Crivella é a Benedita da Silva. E, no caso de São Paulo, o nome é de Boulos. Olha só a responsabilidade da esquerda. Precisamos conversar e analisar quem tem condições de ir para um segundo turno”. Ainda segundo o 247, Lindbergh teria criticado Freixo e Haddad por não terem sido candidatos às prefeituras.

Não sei se Lindbergh disse exatamente isto. Seja como for, no atual momento, faltando cerca de um mês para a votação, considero um desserviço fazer o debate nestes termos. Pois na prática o que se está propondo é que o PSOL retire sua candidatura no Rio, em troca do PT retirar sua candidatura em São Paulo. Não sei avaliar qual seria o efeito disto no Rio, nem sei avaliar que efeitos isto teria sobre candidaturas petistas em todo o país, mas o efeito disso em São Paulo não será o de fortalecer a candidatura de Boulos, mas sim o de enfraquecer toda a esquerda.

Posso gostar ou posso não gostar, mas compreendo que setores do PSOL façam de tudo para tentar atrair eleitores petistas. Faz sentido do ponto de vista da estratégia deste partido, mesmo que eleitoralmente isto não leve a esquerda ao segundo turno. Mas não consigo entender por qual motivo dirigentes do PT (ressalto esta palavra: dirigentes) deveriam ajudar nesse mister de “cristianizar”* a candidatura petista.

Afinal, a essa altura do campeonato não existe mais coligação eleitoral. Logo, não haverá soma de horários eleitorais gratuitos. Portanto, o que Lindbergh está propondo, na prática, é que o PT retire sua candidatura e chame voto noutra candidatura. E o que se está supondo é que haveria um grande número de eleitores petistas que hoje não estão aceitando a orientação do PT para votar na candidatura do PT, mas que supostamente aceitariam a orientação do PT para votar numa candidatura… do PSOL.

Na minha opinião, esta suposição foge do problema. O problema real é que uma grande parte do eleitorado petista (ou seja, que em eleições passadas votou no PT) está, até o momento, votando em candidaturas da direita. Outra boa parte ainda não está votando em ninguém. Claro que uma pequena parte destes eleitores pode se decidir, havendo ou não orientação, a votar na candidatura do PSOL. Mas na atual situação eleitoral, o deslocamento desta pequena parte não é suficiente para levar ninguém ao segundo turno. Portanto, na vida real, se o PT viesse a desistir de sua própria candidatura, a tendência é que a maior parte do eleitorado petista permaneça votando em candidaturas da direita ou em ninguém.

A conclusão é que, a essa altura do campeonato, propostas como a de Lindbergh não resolvem o nosso problema, só agravam o nosso problema. Nesse momento do jogo, o que pode e deve ser feito é insistir numa tática eleitoral de polarização, que faça o que é mais fácil: atrair o eleitorado petista a votar na candidatura do PT. Sem prejuízo algum, é claro, de construir, desde já, em todas as cidades onde há várias candidaturas de esquerda, acordos para apoio mútuo no segundo turno.

Por fim, um comentário: ao final, claro que tudo pode dar errado. E, ganhando ou perdendo, certamente teremos que fazer um balanço, tanto da tática eleitoral, quanto das candidaturas escolhidas e das que fugiram do páreo. Mas, nesse balanço, atitudes como essa do Lindbergh não serão lembradas como “eu avisei”. Serão lembradas como “eu ajudei a atrapalhar”.

Funciona assim: no momento em que as decisões são tomadas, certas pessoas não falam nada, não fazem nada, ou fazem menos do que poderiam ter feito para que outra linha política fosse adotada. Mas, depois que se chega a um ponto de não retorno, certas pessoas começam a lutar por uma mudança de linha, agindo como aquele nadador que atravessa um canal, chega na exata metade do percurso, cansa, entra em pânico, pensa que vai se afogar e, para tentar se salvar, decide voltar ao ponto de partida. Nadando…

Haverá um momento para fazer o balanço acerca das candidaturas escolhidas. Mas não é agora. Agora é hora de lutar para vencer. No primeiro turno e no segundo turno. Politizando e nacionalizando as campanhas, em todas as cidades. Também no Rio de Janeiro e em São Paulo. Com Benedita e com Tatto.

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT

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