Por Valter Pomar (*)

Este texto é uma continuação de outro, que pode ser acessado aqui:

https://www.pagina13.org.br/estamos-juntos-lula/

Pretendia, nesta continuação, comentar alguns momentos da “audiência pública” realizada pelo Diretório Nacional do PT, no passado 1 de junho.

Mas antes preciso comentar um texto de Jorge Furtado, criticando as declarações que Lula deu, no final da tal audiência, acerca do manifesto “Juntos”.

Na primeira frase de seu texto, Furtado resume seu ponto de vista: “Lula foi um dos maiores líderes políticos da história do Brasil”.

“Foi”!!!

Furtado diz que votou em Lula oito vezes, sem arrependimento. Mas acrescenta o seguinte: “Há poucos dias, Lula declarou que não mais seria candidato, mesmo que pudesse. Espero que ele não mude de ideia, pois é evidente que Lula não está bem”.

“Lula não está bem”?!

Furtado está bem, por acaso? Quem do bem poderia estar bem, no meio desta situação catastrófica em que estamos?

O comentário de Furtado deve-se a uma frase dita por Lula em entrevista ao Mino Carta, a saber: “ainda bem que a natureza (…) criou esse monstro chamado coronavírus”.

Furtado mesmo reconhece que Lula “logo pediu desculpas” (ato raríssimo comum entre lideranças políticas).

Além disso, Furtado diz que esta foi a “maior besteira” dita por Lula em sua “longa carreira”.

Buenas, depois de décadas de militância (e não de “carreira”, como diz Furtado), atire a primeira pedra quem não tiver dito muitas “besteiras”.

A questão é que Furtado viu naquela frase não apenas uma “besteira”, mas um “deslize”, um “terrível ato falho”, que “revelou alguém que podia, de alguma maneira, ver qualquer coisa de positivo numa doença que mata mil brasileiros por dia”.

Sugiro a Furtado dar um google: encontrará frases de muita gente boa que, agora e em outros momentos de crise, fez raciocínios de conteúdo similar ao de Lula, a saber, a de que grandes tragédias, grandes catástrofes, grandes dificuldades, provocam desgraças e também geram reações, reações que acabam permitindo à humanidade dar saltos em sua história.

Sugiro, igualmente, que Furtado acesse no youtube o discurso feito por Lula no 1º de maio de 2020, onde ele diz: “A humanidade desperta todos os dias torcendo para que o número de mortos de hoje seja menor que o de ontem. Estamos vivendo os mais tenebrosos dias da nossa história. O vírus, que ataca a todos, indistintamente, mostrou que a raça humana não é imortal e pode até desaparecer. A História nos ensina, porém, que grandes tragédias costumam ser parteiras de grandes transformações”.

Fiz as sugestões acima, mais por desencargo de consciência. Afinal, não é possível que Furtado desconheça o que foi citado acima.

Sendo assim, porque “golpear abaixo da cintura”?

Meu palpite é: a ideia de que Lula já “foi”, “não está bem”, seria insensível a morte de mil brasileiros por dia, reforça uma “narrativa” difundida todo santo dia por diversos porta-vozes.

A saber: a de que precisamos combater e superar os extremismos de esquerda e de direita. A saída estaria pelo centro.

Não por acaso, seu texto passa imediatamente, sem mediações, da crítica contra Lula, à crítica contra a “corja de alucinados, incompetentes, patifes, vigaristas” que governa o Brasil, corja comandada por “um psicopata torpe e idiotizado, que desdenha da pandemia e atenta diariamente contra a democracia, o bom senso e a lógica”.

Furtado desemboca no elogio a “textos” (ele não diz quais) que fazem um “apelo à razão, a superação das diferenças mesquinhas, em defesa da democracia, da ciência, da boa política, da paz”.

Para começo de conversa, não há textos e textos.

“Basta”, por exemplo, é diferente de “Juntos”.

Não dizem a mesma coisa, não expressam a mesma coisa.

No texto https://www.pagina13.org.br/estamos-juntos-lula/  analisei o “Juntos”.

Voltando a Furtado, será que ela acha “mesquinho” lembrar que a corja só chegou à presidência, porque contou com a entusiasmada ajuda de alguns dos signatários do “Juntos”?

Será que ele acha ser “boa política” não falar de Bolsonaro, não falar do impeachment, não falar de novas eleições, não criticar a tutela militar, não falar do neofacismo e, acima de tudo, não falar do granadeiro Guedes??

Guedes e o que ele expressa constitui, na minha opinião, o centro de toda a confusão.

Lula alertou o PT e a quem mais quis ouvir, que o “Juntos” faz parte de uma operação: tirar Bolsonaro, para dar continuidade ao bolsonarismo, para dar continuidade à política do Guedes.

Furtado concluiu seu texto dizendo ser “triste ver um grande líder, que sempre defendeu os interesses do país, tornar-se pequeno”.

Da minha parte, acho que defender os interesses do país exige defender os interesses da grande maioria, que é a classe trabalhadora.

Ao defender estes interesses, mesmo que remando contra o senso comum, inclusive contra o senso comum de boa parte do seu partido, da esquerda e da classe trabalhadora, Lula demonstrou que não “foi”: é.

(*) Valter Pomar é professor da UFABC e integrante do diretório nacional do PT

Este post tem um comentário

Comente!