Por Augusto Picolo Furini* e Cristian Chiabotto**

No dia 28 de Junho, comemoramos o Dia Internacional do Orgulho LGBT, e para além do orgulho, devemos ter a dimensão necessária da organização e resistência política do movimento LGBT frente a atual conjuntura. O avanço e fortalecimento do conservadorismo, o desmonte das políticas públicas e as diversas outras medidas operadas pelo governo fascista e entreguista de Bolsonaro atingem diretamente a classe trabalhadora. Esta deve ser compreendida como uma classe diversa, muito longe de ser uniforme: assim como as mulheres e a população negra, a população LGBT trabalhadora também possui sua especificidade dentro da exploração capitalista. Por isso, é extremamente necessária a organização e atuação de um movimento LGBT que transcenda a luta pelo orgulho e pela liberdade sexual. Precisamos de um movimento classista e comprometido em construir uma sociedade socialista e livre de opressões.

Dentro da esquerda, a discussão sobre a população LGBT ganha cada vez mais amplitude e espaço. Porém, na maioria dos casos, a questão é tratada apenas como uma opressão setorial correspondente à cultura e a moralidade, o que dificulta a construção de uma crítica anti-capitalista do movimento LGBT e, por vezes, facilita sua apropriação pelo mercado. Não podemos cair em sectarismos vazios, que distanciam a discussão da diversidade sexual e de gênero da estrutura da sociedade capitalista. É tarefa do movimento LGBT, e da esquerda como um todo, compreender e denunciar as formas que o capitalismo precariza e sobre-explora as populações em maior vulnerabilidade, como é o caso dos gays, lésbicas, bissexuais e, principalmente, transgêneros e transexuais. Quando falamos da população LGBT negra, as condições são ainda mais nefastas e esses sujeitos são ainda mais violentados pelo sistema capitalista.

Historicamente, a necessidade de instauração de um modelo nuclear burguês de família – que garantisse a reprodução da força de trabalho – contribuiu para a patologização institucional da homossexualidade. Foi apenas em 1990 que a homossexualidade foi retirada do rol de doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS), porém, no que diz respeito à transexualidade, essa “conquista” se deu somente no ano passado. O Brasil segue no primeiro lugar do ranking mundial de assassinatos de transsexuais e travestis, o que demonstra a maior vulnerabilidade da população trans dentro do contexto LGBT. No mundo do trabalho, 90% das mulheres trans seguem tendo a prostituição como única opção laboral, o que evidencia a exclusão dessas sujeitas na sociedade e no mundo do trabalho.

Além destas questões, existem também outros pontos correspondentes à pauta LGBT que raramente são lembrados pela esquerda: são inúmeros os casos de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais que, ao serem expulsos de casa viram mão-de-obra barata nas mãos do capitalismo. Boa parte destes são absorvidos pelos postos de trabalho em empresas de telemarketing,  que são terceirizadas e exigem um trabalho repetitivo e precarizado a seus trabalhadores e trabalhadoras.

Reconhecer a existência de LGBTs na classe trabalhadora, e por isso, construir uma alternativa à esquerda para o movimento, não nos isenta de dizer que existem LGBTs que andam de mãos dadas com a burguesia e contribuem para a manutenção do sistema – e principalmente da hegemonia – capitalista. No último período, tivemos uma perda de cunho político e revolucionário da pauta LGBT, que acabou sendo utilizada pelas grandes corporações para venda de seus produtos e lucro. Cai-se em identitarismos pós-modernos, que desconectam a pauta LGBT de outras lutas, de tal forma que, o capitalismo transforma essa população subalterna em um nicho de mercado.

É preciso saber que lutar contra a LGBTfobia é lutar contra o capital e suas amarras. É compartilhar de uma revolução por outra sociedade: sem classes e sem opressões. As nossas respostas devem ser coletivas, o que implica a organização do sujeito político coletivo. Especialmente pela via dos movimentos sociais e partidos políticos, a luta LGBT deve ir além das pautas civis, deve estar em conjunto com as pautas da classe trabalhadora, rejeitando a hegemonia de dominação e exploração capitalista, e articulando estratégias juntamente com outros setores da classe trabalhadora na luta pelo socialismo.

Diante disto, é urgente a construção cada vez mais afirmativa de um Partido das Trabalhadoras e dos Trabalhadores comprometido com as pautas do movimento LGBT, que possa se colocar combatente às opressões e promover debates na construção de políticas para estas populações. Que construamos a luta por uma transformação radical do atual modo de produção e reprodução social da vida. Por isso, o arco-íris da bandeira LGBT deve andar junto ao vermelho da luta socialista, compreendendo que nossa luta é para além do respeito à diversidade sexual e às identidades de gênero dissidentes, mas também por uma vida digna, livre de opressões e de exploração.

“É pela teimosia de amar em liberdade e com sentidos radicalmente humanos, sem imposições e opressões, que seguimos em marcha, com punhos erguidos e com firmeza de que o horizonte da emancipação humana exige ser pintado com todas as cores.”

*Augusto Picolo Furini – Militante da Juventude da Articulação de Esquerda e estudante de Serviço Social na UFSM

**Cristian Chiabotto – Militante da Juventude da Articulação de Esquerda e estudante de Psicologia na URI/Santiago

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