Por Amanda Pomar (*) e Eliza Möller (**)

Juiz de Fora é a quarta maior cidade do estado de Minas, conhecida como a terra da facada em Bolsonaro e ponto de partida das tropas militares que iniciaram a marcha para o golpe de 1964. Pelo outro verso, aqui seus eleitores sempre votaram majoritariamente nas candidaturas de Lula e Dilma. Desde sempre, a cidade teve uma relevante expressão política em âmbito estadual e nacional, berço de importantes lideranças. Porém, a princesinha de Minas nunca viveu uma prefeitura petista e nunca foi comandada por uma mulher, isto é, até o momento.

Em 2020, um ano repleto de adversidades com a pandemia e suas condições que restringem aglomerações, em um calendário eleitoral excepcional e sua campanha em prazos apertados – sob circunstâncias que afetaram especialmente as campanhas populares – Margarida Salomão foi eleita no domingo de 29 de novembro.

A cidade tem 568.873 habitantes e 410 mil eleitores aptos a votarem. No balanço do primeiro turno, a candidata petista obteve 102.489 votos, contra seus dois maiores concorrentes, Wilson Rezato e Ione, que receberam 59.633 e 56.699, respectivamente, e saiu favorecida. O candidato opositor se baseou nos discursos de “centro”, frisou sua origem humilde e que “não tem culpa de ter ficado rico”, dialogando com o governo Zema e o discurso da meritocracia típico dos neoliberais.

É significativo que durante todo o ano as três candidaturas mais fortes e com maior intenção de votos não incluíam a delegada Ione (Republicanos), com coligação formada pelo PDT e PSDB, do atual prefeito Antônio Almas, e que insurgiu enquanto potencial concorrente apenas a partir do período oficial de campanha, principalmente após os debates, no final de setembro.

Conforme pesquisa publicada pela ÊXITO — Instituto de Pesquisas de Opinião Pública e Consultoria realizada em 12 e 13 de setembro de 2020, registrada no TSE sob o nº MG4046/2020, tivemos a seguinte intenção de voto para cada candidato: Margarida

Salomão (PT) 19,85%; Wilson da Rezato (PSB) 17,85%; Delegada Sheila (PSL) 16,98%; brancos ou nulos 15,86%; Noraldino Júnior (PSC) 10,24%; não sabiam ou não responderam 8,74%; Delegada Ione (REPUBLICANOS) 4,37%; Dr. Renato Lourdes (PP) 2,25%; Pastor Aloisio Penido (PTC) 2,25%; outros 1,50% e Marcos Ribeiro (REDE) 0,25%.

Até outubro deste ano, conforme a pesquisa do IBOPE registrada no nº MG-04070/2020, das onze candidaturas à prefeitura, as intenções de voto acumulavam-se majoritariamente entre três candidatos que incluíam Wilson Rezato (PSB), um milionário do ramo da construção civil que concorria pela segunda vez ao cargo de prefeito, coligado com DEM/PL/PSD/Cidadania, ou seja, a direita e a extrema-direita; Delegada Sheila (PSL), que, impulsionada pela onda bolsonarista, foi a Deputada Estadual que obteve mais votos em Juiz de Fora em 2016, coligada com Podemos/Patriota/PTB/Solidariedade/MDB/PP, partidos da extrema-direita; e, claro, Margarida Salomão (PT), a mais bem votada Deputada Federal em Juiz de Fora e candidata a prefeita pela quarta vez, numa coligação entre PT e PV.

Todavia, ao longo da campanha, os votos para delegada Sheila esvaziaram-se e também é notável que a rejeição ao PT diminuiu, conforme mostraram as pesquisas dos dias 4 e 5 de novembro, nas quais a porcentagem da população que rejeitava o partido despencou para 10%.

No primeiro turno, a população escolheu Margarida e Rezato para prosseguirem. Sobre a eleição para o legislativo, das dezenove cadeiras da câmara, quatro serão ocupadas por mulheres, entre elas a companheira apoiada pela Articulação de Esquerda, Cida Oliveira do DAP, que foi a vereadora mais votada, com 6.045 votos. Também foram eleitos os petistas Laiz Perrut da DS e Juraci Schaffer (reeleito), enquanto o PSOL obteve sua primeira cadeira, sob a candidatura de Tallia Sobral.

O segundo turno se apresentou cada vez mais favorável à candidata Margarida, sendo esperada uma vitória ainda maior, a qual nos últimos três dias foi abalada por disparos de fake news e bordões antipetistas pelas redes sociais e via SMS. Ao final da apuração, Margarida foi eleita com 54,98% (144.589) dos votos, contra 45,02% (118.349) de Wilson Rezato. Vale ressaltar que, no segundo turno, o candidato do PSB conquistou mais 58.716 votos, tendo um aumento de 49,61% dos votos, enquanto Margarida conquistou mais

42.040 votos, representando um aumento de 29,09% dos votos, incluindo os 4.541 votos que já viriam dos candidatos da esquerda representados pelo Psol, PCdoB e PSTU. Os brancos e nulos no segundo turno representaram em seu total 9,61% dos votos válidos, e 12,36% no primeiro.

Diante de tais resultados, deixamos algumas questões em aberto. Em que medida o antipetismo realmente tem afetado o PT da cidade? Até que ponto Juiz de Fora é uma cidade conservadora? O que precisamos fazer para manter nos próximos anos a nossa vitória, ampliando e aprimorando um verdadeiro debate político?

Sabemos que a vitória foi resultado de diferentes fatores, uma campanha competente, que teve contato direto com a população nos bairros. A clareza de que nossa candidata conhece Juiz de Fora e seus problemas e estava preparada para vencer. O despreparo do outro candidato. A rejeição cada vez maior ao governo Bolsonaro. O quanto Margarida ajudou a cidade em seus mandatos como deputada estadual e federal. As ações do PT com militantes ativos durante as eleições.

Este foi um ano devastador para a cidade e o horizonte permanece incerto. Ainda assim, Juiz de Fora colheu uma vitória e agora cabe seguirmos à luta para escrever a nossa nova história, onde TUDO É PARA TODOS!

(*) Amanda Pomar é militante do PT de Juiz de Fora-MG e da AE 

(**)  Eliza Möller é militante da Juventude da AE em Juiz de Fora, MG


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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