Tese da Juventude da Articulação de Esquerda ao Congresso da JPT

 

Apresentação

Quem não vacila mesmo derrotado

Quem já perdido nunca desespera

E envolto em tempestade, decepado

Entre os dentes segura a primavera”

 Primavera nos dentes – Secos e molhados

Os tempos de guerra nos quais vivemos reservam grandes desafios para a juventude brasileira. O avanço do fascismo, a ampliação do programa neoliberal, o genocídio do povo negro e indígena e mais uma série de retrocessos são sintomas da crise capitalista que assola o mundo. Nesse quadro, a classe trabalhadora da periferia global é condicionada ao subemprego, à violência policial e à morte – seja pela fome, seja pelo Coronavírus, que agravou ainda mais as desigualdades e escancarou as feridas de um sistema tão injusto.

Para materializar nossos sonhos e utopias, precisamos construir uma luta na mesma dimensão daquilo que sonhamos. A juventude possui a árdua tarefa de virar o jogo e reconduzir a luta política na direção das transformações necessárias. Para obtermos êxito em nossas batalhas, é preciso abandonar ilusões e retomar o horizonte vermelho existente em nossa história. Não é suficiente falar apenas em eleições ou reduzir a renovação política à chegada de jovens ao parlamento. A JPT, assim como o Partido dos Trabalhadores, possui a tarefa histórica de organizar e movimentar a juventude brasileira por um futuro socialista. Um futuro onde, de fato, caibam os nossos sonhos e a construção de uma sociedade livre de exploração e opressão.

Essa é a Juventude do PT que queremos construir: uma JPT do tamanho dos nossos sonhos. Convocamos cada jovem petista, da capital ao interior, da cidade ao campo, para construir e fortalecer conosco essa importante ferramenta da juventude trabalhadora. Um partido de massas precisa de uma juventude de massas, socialista e democrática. O momento histórico que vivemos não permite vacilações: precisamos de uma JPT que organize a juventude de norte a sul, fortaleça a disputa cultural e potencialize a nossa luta por emprego, renda, educação e dignidade.

É com a determinação e a esperança de construir um futuro próspero e socialista, que apresentamos nossa tese ao 5º Congresso da JPT e convidamos a juventude brasileira para compartilhar utopias e um projeto de sociedade conosco. Até a vitória, venceremos!

 

Um balanço sobre o passado

             Desde o I Congresso da JPT, realizado em 2008, diversas foram as mudanças na conjuntura e na nossa organização interna. Naquele momento, a Juventude do PT deu um importante passo por mais autonomia e pela construção de uma frente de massas de juventude, diferente do modelo de organização setorial que nos caracterizava até então. Se, por um lado, o I ConJPT permitiu uma mudança de modelo organizativo, por outro lado, essa transformação não ocorreu na prática.

Apesar da importante vitória que representou a mudança na forma de organização, a direção eleita no I ConJPT – que permanece até hoje – não guiou politicamente nem atuou no sentido de viabilizar este novo modelo. De lá para cá, a realização de novos Congressos e as tarefas fundamentais da JPT passaram a ser minimizadas, o que nos trouxe até a situação de refluxo e desarticulação na qual nos encontramos.

A partir do II Congresso, o que se observou na organização da JPT foi o oposto daquilo que o primeiro congresso conseguiu aprovar. Iniciou-se no interior da JPT um refluxo organizativo justamente num período em que o país caminhava para viver um período de grandes mobilizações e de reorganização de setores das juventudes trabalhadoras. Nas jornadas de junho de 2013, por exemplo, a juventude do PT teve papel secundário, justamente no ano em que deveria ser realizado seu III Congresso. Não só este foi adiado, como a leitura equivocada do significado das jornadas e as opções do PT em aprofundar a terceirização da organização da juventude para outras organizações abalou diretamente a JPT.

O III ConJPT realizou-se apenas em 2015, em meio a disputa de rumos do segundo governo Dilma, com a política econômica de Levy e sob a pauta política das chantagens de Eduardo Cunha. O Congresso não chegou ao fim, tendo seu resultado amplamente contestado e sem eleger uma direção nacional legítima – não tendo sido os recursos de fraudes julgados até hoje. De uma importante ferramenta política, com a função de organizar jovens nos municípios, nos estados e por todo o país, a JPT passou a se constituir como um mero fórum de forças políticas, com uma direção cada vez mais ausente e sem uma atuação enquanto frente de massas. Esse cenário contribuiu ainda mais para o desacúmulo e para o refluxo organizativo, que hoje atravessam a atual geração da JPT.

Em 2018, ano em que deveria ser realizado o IV Congresso da JPT, a Juventude da Articulação de Esquerda esteve na defesa da realização do mesmo, porém fomos derrotados em nossa posição. Prevaleceu a proposta de realização de um “Congresso Extraordinário”, sem possibilidade de eleição na etapa nacional e em que a/o secretária/o nacional da JPT será indicado pela tendência do atual secretário. O Congrex, da forma como foi construído, resultou em um processo anti-democrático, esvaziado de debate político e representou um retrocesso na concepção da JPT. Apesar de reconhecermos a falta de legitimidade e de debate político durante o Congrex, estivemos presentes naquele espaço denunciando os erros do processo e mobilizando o descontentamento de jovens petistas com a atual situação da JPT.

Funcionando majoritariamente como um fórum de forças políticas e com uma atuação muito dificultosa na maioria dos estados, a JPT tem, desde o Congrex, colhido os frutos da não realização de um Congresso com todas as etapas formais. A ausência de um IV Congresso legítimo deixou de movimentar a base, fortalecer as secretarias por todo o Brasil, debater os principais desafios da juventude e reorientar estrategicamente a atuação da JPT, principalmente a partir da eleição de Bolsonaro, escancarando uma necropolítica altamente perversa a frente do país.

Com o início da pandemia, que limitou ainda mais as formas de organização e atuação dos partidos de esquerda e movimentos sociais brasileiros, o refluxo organizativo e político da JPT se agravou. Hoje, a Juventude do PT encontra-se em um marasmo – com poucas secretarias que funcionam, com uma organização de juventude muito aquém dos desafios e com uma transição geracional que não ocorreu.

Além da nossa organização interna, devemos observar com atenção as mudanças na conjuntura. O Brasil de 2022 não será o Brasil de 2002. Portanto, centralizar o debate nas eleições do ano que vem é uma atitude perigosa. A crise capitalista reverberou no Brasil através de uma ascensão do fascismo e do programa ultraliberal. O golpe à companheira Dilma Rousseff e a prisão do companheiro Lula mostram a que estão dispostas as elites brasileiras, subordinadas ao imperialismo e capazes de rifar os direitos do povo em troca de capital.

Desde o golpe, em 2016, e a aprovação de uma série de medidas, como o Teto de Gastos, a Reforma Trabalhista, a Reforma da Previdência e outros retrocessos, as desigualdades foram agravadas e as conquistas obtidas durante os nossos governos colocadas em cheque. O passado recente nos ensina uma lição: é preciso abandonar ilusões e mudar a estratégia do Partido dos Trabalhadores.

Nos últimos anos, a juventude brasileira tem sido empurrada à fome, à miséria, ao desemprego, à violência policial, ao êxodo rural, à evasão escolar e à expulsão da universidade. Para reverter esse quadro, é preciso fazer mais do que um balanço crítico da conjuntura e da nossa organização interna: devemos também apresentar respostas à altura. A possibilidade de virar o jogo e construir outro futuro para o PT e para a nossa geração depende de muitas circunstâncias. Algumas dizem respeito ao lado de lá e ao quanto estão dispostos a fazer o fascismo avançar. Outras circunstâncias estão relacionadas à nossa estratégia, às nossas táticas e à forma como construiremos a luta daqui em diante. É preciso fazer um balanço consequente, mas além disso, é preciso implementar uma nova práxis organizativa e de luta para a JPT e para o Partido dos Trabalhadores.

 

Um olhar para o presente

             A chegada da pandemia do novo Coronavírus trouxe imensos desafios para a classe trabalhadora e nossas formas de organização. No Brasil, a crise sanitária agravou as desigualdades já ampliadas pelo governo fascista de Jair Bolsonaro, que se concentra em “passar a boiada” e implementar uma agenda de retrocessos. Desde o golpe, vivemos um contexto de retirada de direitos, aparelhamento das instituições públicas e crescimento das desigualdades. Nesse quadro, a juventude se encontra no olho do furacão: condicionada ao desemprego, ao subemprego, ao trabalho plataformizado ou à morte, seja pela polícia, seja pela fome.

Para fortalecermos a luta da JPT, devemos visualizar a dimensão dos nossos problemas e a diversidade existente dentro da juventude brasileira. Nas universidades, a falta de políticas de assistência estudantil condiciona os estudantes à evasão. Nas escolas, a falta de apoio pedagógico, as condições materiais de muitas famílias e a falta de políticas de inclusão digital também fazem com que muitos estudantes larguem os estudos para tentar arrumar um emprego. A juventude rural, que vivencia um desmonte nas políticas de educação do campo e de apoio à agricultura familiar, é engolida pelo agronegócio e condicionada ao êxodo. A juventude negra é o alvo permanente de um genocídio deliberado e de um racismo estrutural que exclui, segrega e violenta. O avanço do conservadorismo exige das jovens mulheres que permaneçam subordinadas e caladas diante da violência de gênero. A juventude indígena enxerga sua população ser massacrada e sua história ser deixada para trás. Enquanto isso, as e os jovens LGBT+ vivenciam o aumento da violência no país que mais mata LGBTs no mundo.

Nosso olhar para o presente precisa dar dimensão à raiz dos nossos problemas: não se trata apenas de uma questão nacional ou administrativa, mas sim de um projeto político que vem de cima para baixo com o objetivo de acumular capital em detrimento dos direitos da nossa classe. A opressão dos nossos é o que garante o crescimento da exploração e o acúmulo do capital. Se a juventude passa por tantas dificuldades e retrocessos, é preciso mobilizar a indignação existente contra esse sistema de violência e morte.

Nesse quadro, não há espaço para posições vacilantes, que depositem todas as fichas no pleito eleitoral de 2022. As eleições serão um momento importante para a disputa de projeto e para polarizarmos com o lado de lá, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. A JPT possui a tarefa de organizar, desde já, uma frente de massas de juventude capaz de disputar corações e mentes e construir outro futuro para os jovens brasileiros.

Precisamos combater a ideologia neoliberal que promove o individualismo e o ódio à política. Não há saída para a crise que não seja coletiva e socialista, por isso, devemos fazer uma avaliação profunda sobre o presente com vistas a construir um novo futuro. Nossa luta é aqui e agora, pela construção de uma JPT do tamanho dos nossos sonhos.

 

A esperança em relação ao futuro

             A construção de um novo amanhã está intrinsecamente ligada à luta e ao acúmulo de forças que construímos hoje. O crescimento das lutas de rua no último período, com grande protagonismo da juventude, sinalizam que a indignação tem se manifestado através da luta social. É preciso compreender que essa juventude aspira por uma transformação da situação angustiante em que se encontra, e é tarefa da JPT ser este importante pólo de organização e transformação.

Para isto, não é suficiente falar em políticas públicas, disputa de orçamento e eleição de lideranças jovens. É preciso ir além, convidando a juventude a pensar alternativas para o aqui e agora, conectadas com a necessidade de um projeto de país que atenda seus anseios.  Essa transformação só pode ocorrer mediante pressão e por meio de um governo dos trabalhadores. É nesse quadro que a Juventude do PT e o conjunto do Partido dos Trabalhadores devem ser postos como ferramentas para a construção de outro horizonte.

É preciso confrontar o mundo existente com o mundo possível, e para isso, é necessário que a JPT e o PT também estejam convencidos de que outro projeto de sociedade é possível. O socialismo não pode ser visto como uma utopia, que está no horizonte e se afasta conforme se caminha, mas pelo contrário, deve ser entendido como uma construção diária e nosso objetivo estratégico, articulado através da ação e da participação da juventude.

É imprescindível que a juventude e o partido se debrucem sobre os desafios dos novos tempos e busquem novas formas de organizar a classe trabalhadora. É preciso apresentar alternativas aos anseios do povo articulando a demanda por políticas públicas com transformações estruturais de caráter permanente. Essas transformações só serão possíveis através da construção de uma maioria na sociedade, que precisa estar consciente sobre as tarefas do futuro.

É preciso mudar profundamente a atual situação da JPT, que se encontra num refluxo organizativo e de atuação. Para avançar na luta, a JPT deve se constituir como ferramenta e garantir o movimento da juventude trabalhadora, com uma estrutura e construção que não gire em torno da disputa de forças internas, mas privilegie a ação política, a integração da juventude e a coesão no encaminhamento das lutas. Nos resta questionar, qual o objetivo deste Congresso da JPT? Uma mera troca de direções desgastadas e sem condução política? ou a real tentativa de reconstrução da ideia de JPT enquanto frente de massas da juventude trabalhadora do país?

É preciso dimensionar a realidade e os nossos desafios para construir uma JPT do tamanho dos nossos sonhos!

 

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