Por Valter Pomar (*)

José Dirceu

Acompanho sempre o que escreve José Dirceu, não porque concorde, mas porque considero um “marcador” importante.

Explico: Dirceu e Lula tiveram papel destacado em três momentos diferentes da história do PT: a década heroica dos 1980; o reposicionamento entre 1990 e 2002; e no governo federal a partir de 2003.

Devido a esse papel destacado, ambos converteram-se em alvo prioritário da Operação Lava Jato; e não apenas politicamente, mas também no terreno pessoal, pagaram muito caro pelo que fizeram de positivo em favor da classe trabalhadora, mas também pelas ilusões e equívocos que cometeram no trato com o grande capital, o aparato de Estado e as forças de direita.

Ninguém melhor do que eles, portanto, para fazer um balanço crítico e autocrítico, não apenas da experiência de 40 anos de PT, mas principalmente do que fizemos de 2003 até hoje.

Dos dois, o que está melhor posicionado para fazer este balanço é, sem dúvida, José Dirceu. Lula tem uma dificuldade, proveniente do seu “tamanho” político: nem sempre pode falar, pública e expressamente, tudo que pensa. Já Dirceu, embora siga influente, tem maior margem de manobra para expressar seu ponto de vista sobre temas delicados.

É fato que o “tomo primeiro” das Memórias que Dirceu vem lançando por todo o Brasil, não corresponde a tal expectativa: http://valterpomar.blogspot.com/2018/09/o-presente-de-dirceu-versao-integral.html

Mas como a esperança, além de vermelha, é paciente, fomos conferir o que Dirceu diz em artigo publicado no dia 3 de março, no endereço https://www.metropoles.com/colunas-blogs/jose-dirceu/antes-de-qualquer-frente-as-esquerdas-precisam-se-entender

Logo no início, Dirceu afirma que “Frente de Esquerda, na prática mais simples, torna-se mais difícil hoje. Estamos falando de aliança entre PT, PDT, PSB, PSol e PC do B. Tudo indica que não há acordo entre esses partidos sobre 2022, embora estejam do mesmo lado na oposição a Bolsonaro e concordem com os riscos que ele representa”.

Será verdade que estamos “do mesmo lado” e concordamos com “os riscos” que Bolsonaro representa?

Vale lembrar que o PSB não marchou conosco no primeiro turno de 2018, o PDT de Ciro Gomes fez o que não fez no segundo turno e a postura de ambos partidos na reforma da previdência deixou a desejar. Aliás, não faz muito tempo que Ciro Gomes afirmou que Bolsonaro não era um risco para a democracia, como se pode confirmar aqui:

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2018/11/20/interna_politica,720426/bolsonaro-nao-e-um-risco-para-a-democracia-afirma-ciro-gomes.shtml

Se formos para o âmbito dos estados e municípios, também encontraremos grandes diferenças entre o PT, PDT, PSB, PSOL e PCdoB.

É também por isso que “tudo indica que não há acordo entre esses partidos sobre 2022”. E como as esquerdas não estão unidas, fica muito mais difícil construir uma frente mais ampla. Salvo, é claro, que a direção desta frente esteja não mão do centro-direita. Centro-direita, que como Dirceu lembra bem, apoia a “politica econômica do governo levada a cabo por Guedes e a política capitaneada por Moro e sua cruzada, acima da lei e da Constituição”.

Na opinião de “alguns” – suponho que Dirceu refira-se aos setores hegemônicos no PCdoB, no PDT e no PSB—isto não seria necessariamente um problema, já que o “principal é enfrentar a ameaça autoritária; depois, veremos o que fazer no fronte econômico”. Mas como Dirceu bem lembra, “a política de desmonte do Estado nacional e de bem-estar e a convivência e tolerância com as milícias, quando não o apoio a elas e ao aparato policial judicial da Lava Jato, são igualmente atentados à democracia”.

Ao que Dirceu afirma, caberia acrescentar, um Estado de mal-estar social transforma toda questão social em caso de polícia. O problema, portanto, não está “apenas” na Lava Jato, nas PMs e nas milícias; o problema é que o ultraliberalismo alimenta o neofascismo.

Assim, mesmo que possamos e devamos fazer “frentes amplas” em torno de questões “pontuais” (Dirceu cita várias, realizadas em épocas e dimensões diferentes), a questão chave é construir uma frente de esquerda.

Nesse ponto seria essencial que Dirceu analisasse o que fizemos ou deixamos de fazer, a esse respeito, durante o período em que estivemos no governo federal. Aguardemos o segundo tomo das Memórias.

Seguramente, não haverá uma “frente de esquerda” sem o PT. E, portanto, Dirceu diz que cabe ao PT agir sem “hegemonismos e patriotismo de partido”.

Penso que há que levar em conta os russos! Afinal o PT é alvo de uma duríssima campanha orquestrada por nossos inimigos e de uma forte concorrência por parte de nossos, digamos, amigos (mesmo que potenciais). Não enfrentaremos esta situação sem, vamos falar assim, um pouquinho de patriotismo de partido.

Por exemplo: Dirceu diz que “nas eleições municipais deste ano teremos uma prova importante de nossa disposição frentista”. Verdade. Mas também é verdade que, se nas eleições de 2020 o PT não aproveitar para se defender, ninguém o fará pelo PT.

O mesmo pode ser dito sobre 2022. Uma parte dos nossos potenciais aliados trabalha, desde já, com a perspectiva de ter candidatura própria ou de construir alianças sem o PT. Não se trata propriamente de uma questão programática, mas sim de uma visão estratégica que eles têm acerca do PT.

Portanto, se é verdade (e é mesmo) que “a unidade das esquerdas é mais do que necessária” e que “sem ela, seremos apenas coadjuvantes na luta contra Bolsonaro”, também é verdade que para ter a tal frente de esquerda, será necessário fortalecer o PT. E muito.

(*) Valter Pormar é professor na UFABC e integrante do Diretório Nacional do PT

 

Segue o texto comentado:

Antes de qualquer Frente, as esquerdas precisam se entender

JOSÉ DIRCEU

03/03/2020 5:30,ATUALIZADO 03/03/2020 12:25

Está na boca do povo, nos jornalões, nas redes, o debate sobre frentes, seja Democrática, Ampla ou de Esquerda. Parte-se do pressuposto de que a Frente, qual seja ela, é imprescindível diante da ameaça real de autoritarismo e obscurantismo, de retrocesso nas liberdades democráticas conquistadas na luta contra a ditadura militar e consagradas na Constituição de 1988. As diferentes forças políticas e sociais devem se unir para impedir o avanço do autoritarismo do governo Bolsonaro.

Frente de Esquerda, na prática mais simples, torna-se mais difícil hoje. Estamos falando de aliança entre PT, PDT, PSB, PSol e PC do B. Tudo indica que não há acordo entre esses partidos sobre 2022, embora estejam do mesmo lado na oposição a Bolsonaro e concordem com os riscos que ele representa.

Por que o acordo sobre as próximas eleições presidenciais é tão difícil? Ao analisar a posição política de cada um desses partidos, vemos o PDT com Ciro Gomes numa postura anti-PT e anti-Lula; o PC do B, frente às dificuldades que enfrenta, por não ter atingido a cláusula de barreira em 2018, faz um forte movimento para se reformar com o “movimento 65″ e dos “Comuns” em direção ao “centro democrático”; o PSB está em processo de autorreforma; e o PSol passa por uma mudança ao se aliar ao PT no Parlamento, nas eleições em segundo turno em 2018 e, agora, em importantes cidades.

De resto, qualquer frente mais ampla exige que as esquerdas, no sentido amplo, estejam unidas, condição para que uma frente contra Bolsonaro não seja dirigida pelos setores que na prática apoiam toda politica econômica do governo levada a cabo por Guedes e a política capitaneada por Moro e sua cruzada, acima da lei e da Constituição.

Na opinião de alguns, o principal é enfrentar a ameaça autoritária; depois, veremos o que fazer no fronte econômico. Acontece que a política de desmonte do Estado nacional e de bem-estar e a convivência e tolerância com as milícias, quando não o apoio a elas e ao aparato policial judicial da Lava Jato, são igualmente atentados à democracia.

Assim, para além da divergência principal com os liberais em torno do programa econômico ultraliberal e de direita, temos uma ameaça autoritária também na Lava Jato, nas PMs e nas milícias, com a qual não podemos compactuar.

Opções de alianças

Frentes amplas, não só o PT, mas todos os partidos de esquerda, sempre fizemos quando necessário – e continuaremos fazendo. No passado, na campanha das Diretas e no impeachment de Collor, nas eleições presidenciais e nos governos estaduais e municipais em todo o país.

Frente de Esquerda já fazemos no Parlamento em Brasília, na proposta inovadora e justa de reforma tributaria, na luta contra a reforma da Previdência e contra o pacote anticrime, no embate em defesa do meio ambiente, contra a censura, em defesa da autonomia das universidades, nos bairros e ruas de todo o Brasil em defesa dos direitos dos trabalhadores, das mulheres, dos negros, dos indígenas e da democracia.

Temos uma longa e duradoura experiência de Frentes de Esquerda no país, que devem ser construídas de baixo para cima, não como tarefa ou função apenas das lideranças nacionais dos partidos, mas da militância e dos cidadãos que apoiam e votam nos partidos de esquerda.

O momento histórico exige de nós a renúncia de hegemonismos e patriotismo de partido. O que está em risco são nossa liberdade e soberania nacional, nossos direitos políticos e sociais conquistados após quatro décadas de luta por gerações de lutadores e pelo novo povo trabalhador.

Testes

É nosso dever assumir em cada espaço de luta e nas relações políticas uma postura de unidade e construção de uma Frente de Esquerda com um programa que retome o fio de nossa história e garanta avanços na luta contra a desigualdade e a pobreza, na construção de uma nação justa e igualitária, democrática e com voz ativa e presença no mundo. Nas eleições municipais deste ano teremos uma prova importante de nossa disposição frentista.

Sabemos que a direita liberal apoia Guedes, fala em combater a desigualdade, busca nos atrair para uma aliança apenas para procurar o poder. Até aí tudo faz parte da disputa eleitoral. Mas devemos ter consciência dessa realidade antes de qualquer decisão sobre alianças.

O desafio das esquerdas é primeiro se entender para enfrentar o inimigo e as ameaças à democracia. Sem isso, seremos fracos em qualquer Frente, ou mesmo sem Frentes quando da alternância do poder.

O segundo desafio para as esquerdas é mobilizar a sociedade, ir para as ruas, sem medo e unidas, contra o autoritarismo, contra a politica econômica que causa tantos estragos e só fará aumentar a precarização do trabalho, a desigualdade e a pobreza.

Vamos estar juntos na luta, nas manifestações das mulheres no dia 8 de Março; no dia 14, em memória de Marielle, em protesto pelos dois anos de seu bárbaro e covarde assassinato ainda não esclarecido, impune. E no dia 18 em defesa da democracia e contra os retrocessos do governo Bolsonaro e as ameaças às liberdades democráticas e aos direitos sociais.

Nós estaremos sempre alinhados com todos os que se opõem ao autoritarismo e ao obscurantismo.

Mas Frente para disputar as eleições presidenciais no primeiro turno, visto que no segundo a expectativa é de que estaremos inevitavelmente contra Bolsonaro, coloca uma questão central: com quem e com qual programa vamos nos aliar? A unidade das esquerdas é mais do que necessária. Sem ela, seremos apenas coadjuvantes na luta contra Bolsonaro.

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