Saiu a edição de julho do Jornal Página 13, de número 213. Você pode acessar a versão em pdf clicando ao lado: Jornal Pagina 13 de julho .  Abaixo, segue o editorial. Boa leitura!

É preciso fazer tremer

Este Página 13, de julho de 2020, é editado num ambiente geral que segue no fundamental o mesmo já analisado em edições anteriores, ou seja, de agravamento da situação sanitária, social, econômica, ambiental, psicocultural, política, geopolítica, nacional e mundial. Uma crise sistêmica para a qual devemos apresentar uma alternativa sistêmica. Um momento em que a realidade impõe uma vinculação explicita entre tática e estratégia, entre programa de curto prazo e programa de médio prazo.

O contexto específico das últimas semanas é marcado pelo agravamento da catástrofe sanitária (quase 60 mil mortos, mais 1 milhão e 200 mil contaminados);pelo aprofundamento da luta interna no condomínio golpista, especificamente entre o bolsonarismo e a cúpula do sistema judiciário; e pelas tentativas de construir uma saída por cima, que preserve a política econômica, mesmo que as custas de manter Bolsonaro e a tutela militar.

O crescimento exponencial da contaminação e dos óbitos está sendo acompanhado de uma pressão, do empresariado e do governo federal, em favor de um relaxamento ainda maior do isolamento social. Quando a situação exigiria um fechamento total, menos de 40% da população está cumprindo algum tipo de isolamento. E cresce a pressão contra os trabalhadores, os governadores e os prefeitos que seguem lutando pelo isolamento. Sendo que já há governadores do campo popular capitulando às pressões, o que levará mais adiante a um lockdown caótico.

Contra os que tentam naturalizar o genocídio, como se 60 mil mortes hoje e 100 mil logo mais pudesse ser tratado como algo “banal”, “trivial”. Para impedir que o “e daí” vire senso comum, é justo estimular, defender e organizar a revolta popular. Sabemos que reações deste tipo – como a que ocorreu nos Estados Unidos – não são suficientes para as mudanças que almejamos. Mas são fundamentais como contraponto à cultura da morte, que converte a “a questão social” em “caso de polícia”.

A prisão de Queiroz e as investigações acerca das fake news, que fornecem mais e mais provas do comportamento criminoso de Bolsonaro e seu clã, deveriam servir como argumento adicional para cassar a chapa ou, pelo menos, para iniciar o processo de impeachment. Mas, na verdade, estão servindo de argumento para construir um acordo por cima.  Como as diferentes facções do golpismo têm como prioridade manter a política ultraliberal, a tutela militar e o isolamento do PT, até o momento todas preferem apostar em um acordo.

O acordo pode assumir diferentes formas: a/Bolsonaro permanece, supostamente domesticado; b/Bolsonaro sai, mas no seu lugar entra Mourão; c/assume um “governo de salvação nacional”. Nenhuma destas alternativas garante uma política adequada contra a pandemia, o fim da política de Guedes e a reconstrução das liberdades democráticas.

O melhor caminho para evitar o acordo por cima é estimulando a mobilização popular, sob todas as suas formas (virtual, simbólica, presencial). Sem mobilização, os que deram o golpe de 2016, os que prenderam e condenaram Lula, os que fraudaram as eleições de 2018, continuarão aplicando seu programa e levando o país de volta ao passado.

É cada vez mais necessário, urgente e indispensável ampliar todas as formas de luta do povo. Há inúmeros obstáculos para que isso ocorra. Um deles é a existência, nas esquerdas brasileiras, de duas táticas na luta contra o bolsonarismo: a tática da mal denominada frente ampla e a tática da frente de esquerda. A mais recente expressão destas duas táticas foi a participação de várias lideranças petistas, psolistas e comunistas no comício virtual “direitos já”, sob a tutela ideológica do tucanismo, que fala muito sobre democracia, nada de impeachment e menos ainda da política de Guedes. Deixando claro que a tática da frente ampla tem como um de seus objetivos neutralizar & cooptar o PT, para uma política de acordo por cima; ou, se não for possível, isolar & derrotar nosso Partido.

Frente a esta situação, devemos nos engajar fortemente nas mobilizações de 10 a 12 de julho, como parte da campanha de massas pelo Fora Bolsonaro e Mourão/impeachment/diretas já, obrigando os que discursam a favor de uma frente ampla pela democracia, a sair da zona de conforto, em que falam de democracia, mas não lutam verdadeiramente por ela.

Faz parte desta mobilização, apresentarmos o que alguns vem denominado de programa de salvação & reconstrução nacional, que articule nossos objetivos imediatos, emergenciais, com nossos objetivos de médio prazo, estratégicos.

Do ponto de vista imediato, é preciso salvar a vida do povo, através da ampliação do Bolsa Família e do pleno funcionamento do Sistema Único de Saúde, financiados por um imposto emergencial sobre as grandes fortunas.

No médio prazo, trata-se de propor as medidas que podem efetivamente fazer do Brasil um país soberano, desenvolvimento, igualitário e livre.

Converter o Brasil e a região latino-americana e caribenha num dos polos do mundo. Não aceitamos o papel de consumidores e fornecedoras de matérias-primas.

Garantir o desenvolvimento nacional, colocando o Estado no comando; colocando o oligopólio financeiro privado sob controle público; consolidando a pequena e a média propriedade rurais, como base de nossa soberania alimentar; levando a todo o Brasil energia elétrica, cabeamento ótico, ferrovias e hidrovias; reurbanizando nossas cidades, atendendo 100% das necessidades de saneamento, moradia, transporte e equipamentos públicos (educação, saúde, cultura, esportes e lazer). A produção destes bens públicos, combinada com a ampliação do consumo de bens privados, será o carro-chefe da reindustrialização nacional. No lugar de uma economia organizada em torno do lucro, do lucro de poucos, de um lucro especulativo, destruidor da natureza, social e culturalmente degradante, uma sociedade baseada na igualdade, na riqueza coletiva, na integração ao meio ambiente, no desenvolvimento sustentável, na defesa da humanidade.

Edificar um Estado de Bem-Estar Social, financiado através da adoção do imposto progressivo sobre a renda e grandes propriedades, da tributação dos milionários e das grandes heranças, garantindo saúde e educação pública, universal e gratuita; emprego com direitos trabalhistas; salário mínimo valorizado; aposentadoria digna. Políticas especiais voltadas para os direitos das mulheres, dos negros e das negras, setores majoritários da classe trabalhadora, que recebem menos e trabalham mais. Políticas especiais destinadas às populações originárias, aos amplos setores sociais vítimas de histórica exclusão e desigualdade, às regiões submetidas a décadas e séculos de desenvolvimento desigual.

Construir um Estado democrático e popular, convocando uma Assembleia Nacional Constituinte e ajustando as contas com a democracia seletiva, o racismo, o patriarcado, a lgbtfobia, o colonialismo, a tutela militar, a ditadura comunicacional, o judiciário partidarizado, o parlamento oligárquico e os governos arbitrários, a polícia militarizada.

Um país verdadeiramente soberano, desenvolvimento, igualitário e democrático é um país socialista. Uma alternativa sistêmica para uma crise sistêmica. A alternativa a isto, construída nos anos 1990 pelos tucanos e, hoje, pelo bolsonarismo, é fazer o Brasil voltar aos anos vinte do século vinte. Esta alternativa reacionária pode prevalecer, até porque em uma conjuntura de confusão, em que tantos vacilam sobre como agir, uma minoria de extrema direita, audaciosa e armada, pode derrotar as maiorias vacilantes e desarmadas.

No plano mais imediato, embora a conjuntura indique crescentes dificuldades para o bolsonarismo, nada indica que as eleições 2020 vão apontar uma força alternativa, muito menos que vão fortalecer a esquerda e o PT como força alternativa. É particularmente grave o que está ocorrendo nas capitais de SP, RJ e MG. E o cenário da região nordeste está muito longe de ser tranquilo. Inclusive no plano eleitoral, o que pode virar o cenário a nosso favor é a mobilização social. Mais um motivo para concentrar todas as energias no luta pelo Fora Bolsonaro & Mourão, impeachment e diretas já, com anulação da condenação de Lula.

Por fim, mas vinculado a isto tudo, esta edição de Página 13 sai logo depois da mobilização dos entregadores de aplicativos. Como se vê, a classe trabalhadora pode se mover. E seu movimento fará tremer a terra.

Os editores

 

 

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