Por Silvio Queiroz (*)

Passou quase despercebido, neste 12 de abril, o aniversário de 50 anos do início da Guerrilha do Araguaia. O movimento armado de maior envergadura contra o regime militar foi combatido e vencido, na selva do sul do Pará, sob o silêncio quase absoluto da censura à imprensa e da repressão implacável nas grandes cidades.

Entre abril de 1972 e os primeiros meses de 1975, quando foram abatidos os últimos guerrilheiros, o Exército mobilizou cerca de 10 mil efetivos – o maior contingente empregado em combate desde a participação da FEB na 2ª Guerra Mundial. Foi apenas a partir de 1978, com o fim da censura prévia, que a imprensa – de início, os jornais alternativos – começou a levantar o véu.

Os 70 a 80 combatentes do Araguaia eram, na maioria, jovens militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), saídos do movimento estudantil. Formavam, com os militantes da guerrilha urbana, àquela altura praticamente aniquilada, a vanguarda da geração que saiu às ruas em 68 e fez balançar a ditadura.

Já naquela altura, enquanto as primeiras ações armadas se sucediam nas cidades, o PCdoB trabalhava discretamente na implantação de seu projeto para a guerrilha rural. Com o AI-5, a criação dos DOI-Codis e a militarização da repressão política, o deslocamento dos futuros combatentes convergiu para a área onde por fim se travaria o enfrentamento com o Exército.

No ambiente do final dos anos 60, o Araguaia teve poder de atração sobre a juventude radicalizada. Era como se somar, no Brasil, ao lema lançado na célebre conferência internacional de Havana: criar um, dos, muitos Vietnãs. Não por acaso, produziu produziu personagens como Oswaldão, Dina, Helenira Rezende e tantos mais.

Os ecos do Araguaia continuaram reverberando uma década mais tarde, na retomada do movimento estudantil. Foi como “o partido da guerrilha” que o PCdoB atraiu uma parcela da nova geração militante, quando a história do movimento começou a ser revelada com maior amplitude.

Mas a história se tece também de paradoxos e ironias. A mesma jornada de luta que projetou seus organizadores motivou, a partir de abril de 72, uma perseguição implacável ao partido, que culminou com a chacina da Lapa, em dezembro de 76. Lá, guiada por um delator infiltrado, a repressão cercou uma reunião do Comitê Central, capturou cinco participantes e executou os veteranos dirigentes Pedro Pomar e Angelo Arroyo. Um dos presos, João Batista Drummond, foi morto sob tortura.

A queda da Lapa, além do golpe que representou para o PCdoB, truncou o processo de discussão e avaliação da experiência guerrilheira. Este foi retomado algum tempo depois, condicionado por disputas e fraturas que deixaram igualmente seu impacto na trajetória do partido e de diferentes setores da militância.

Passados 50 anos desde a ofensiva militar no sul do Pará, parece sintomático que a data seja praticamente ignorada. Até por ter o Araguaia na raiz do meu ingresso na militância política partidária, em 79, tinha a expectativa de ler e ouvir mais sobre a guerrilha nesses dias.

Muito se pôde conhecer sobre os dois a três anos de conflito desde a redemocratização. Em especial, com a atuação da Comissão da Verdade, no governo Dilma. Os restos de alguns guerrilheiros foram localizados, graças à persistência dos familiares, mas a maioria permanece na lista dos desaparecidos na ditadura.

Muito mais resta a descobrir, analisar e refletir sobre a Guerrilha do Araguaia e os ensinamentos que deixa para os comunistas e a esquerda em geral. Mesmo, ou até mais ainda, no ano em que lutaremos para tirar do Planalto o presidente miliciano que se elegeu, há quatro anos, fazendo apologia do regime militar, da tortura e do assassinato dos seus opositores.

Mas 12 de abril é, mais que tudo, dia de prestar tributo aos guerrilheiros. Ao exemplo de coragem e compromisso com a luta da classe trabalhadora e do povo brasileiro.

Não é muito meu costume, mas vale fechar essa memória do Araguaia com versos de Aldir Blanc, cronista do cotidiano e da história, que perdemos para a covid em 2020. Preparando a última estrofe do samba Mestre-sala dos Mares, ele convoca a homenagem ao marinheiro João Cândido, o Almirante Negro, que liderou em 1910 a Revolta da Chibata:

Glória
a todas as lutas inglórias
que através da nossa história
não esquecemos, jamais

(*) Silvio Queiroz é coordenador-geral do Sindicato dos Jornalistas do DF e militante do PT

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