Reprodução do fóssil humano (homo sapiens) mais antigo encontrado nas Américas, com cerca de 11.500 a 12.000 anos, que recebeu do biólogo Walter Alves Neves o nome de Luzia.

Por Sônia Aparecida Fardin*

Luzia morreu duas vezes. Sua primeira morte foi há mais de 11 milhões de anos, quando não atendia por esse nome e nem sequer sonhava que um dia seria a pessoa cujo esqueleto se tornaria um marco na história da ciência mundial ao ser encontrada, analisada e identificada como parte de um grupo de negroides que veio caminhando do lugar hoje chamado África para o lugar hoje chamado América.

Sua humanidade foi revivida pelo trabalho de pesquisadores e artesãos que recriaram suas formas e estudaram suas práticas, não apenas as dela mas também de seus pares, uma comunidade que habitava as bandas do que muito tempo depois veio a ser as Gerais.

Ao ganhar um rosto póstumo, ganhou também um nome e passou a fazer parte de livros didáticos e científicos.

A história dessa segunda vida de Luzia é a história do trabalho de muita gente, nela estão inscritas habilidades, saberes e propostas políticas de trabalhadores e trabalhadoras da cultura, das ciências e da educação.

Assim Luzia se tornou uma síntese da capacidade criativa do trabalho humano. Por isso, para muitos de nós, é uma pessoa; não um objeto museal ou uma amostra científica.

Sobre sua primeira morte, há milhões de anos, pouco se sabe, pode ter sido por razões naturais ou um acidente que levou seu corpo até o fundo de uma caverna, no qual ficou preservado por milhões de anos.

Mas, sobre sua segunda morte, no dia 02 de setembro de 2018, sabemos que não foi natural, nem tampouco um acidente, mas um crime.

Crime cometido contra essa e muitas outras pessoas cujas existências e memórias encontram-se sob o comando deste governo golpista que tomou de assalto o Estado Brasileiro; essa confluência de poderes midiáticos, jurídicos, parlamentares e militares a serviço da classe capitalista, cujo projeto político é metralhar e exterminar as Luzias e seus pares de agora.

Por isso o incêndio no Museu Nacional é emblemático.
Muito se falou e ainda vai ser falado sobre a tristeza que nos abateu ao ver as chamas consumindo milhões de anos de história, centenas de anos de pesquisas e incontáveis projetos científicos que ainda nem estavam totalmente formulados, que ocupavam prateleiras, vitrines e armários do Museu Nacional. Uma das perdas mais lamentadas é a morte de Luzia, sua habitante mais conhecida.

A morte dessa nossa amiga famosa tem levado aos noticiários e as redes sociais debates e inquietações sobre patrimônio, memória, legado e preservação de acervos sob a guarda de instituições museais e arquivísticas.

Isso é necessário, sem dúvida, como também é necessário demarcar que não existe preservação de acervos sem uma política de recursos humanos e trabalhistas que a suporte, na qual não cabem as práticas fragmentárias e desumanizadoras da terceirização. Conhecer um acervo demanda comer muito sal com ele.

Também não existe respeito ao legado cultural universal sem o respeito ao direito ao território dos povos originários, o qual não se coaduna com a defesa dos agrotóxicos e das devastações das mineradoras. Preservar cultura indígena é preservar seus territórios e modos de vida, não somente o que se retira deles.

Da mesma forma que não existe preservação de legados culturais dos povos afro-americanos sem a defesa e ampliação da regulamentação das terras quilombolas, que não se sustentam sem a efetiva implantação das reformas agrária e urbana, muito menos sem a condenação da perseguição as religiões de matriz africana.

Assim como não existe política pública de produção de conhecimento científico honesto sem autonomia universitária, que não existirá sem as necessárias ordenações orçamentárias.

Também como não existe produção de conhecimento sobre o passado que progrida de forma justa, diversa e equânime sob regimes ditatoriais e fascistas.

Ou seja, preservar patrimônios culturais é antes de tudo preservar a vida que pulsa hoje, pois o que se expõe nos museus é o reflexo do que vivemos em todos os demais territórios políticos.

Museus são, também, expressões do conflito de classe.

É instigantes pensar que quanto mais o Museu Nacional, originário da hegemonia do baronato, foi se convertendo em um território de afirmação desse conflito e se afastando de uma matriz imperial e colonizadora, mais foi sendo esquecido por fontes de financiamento do mercado cultural.

Por isso, chorar por Luzia e todos os demais ícones de nossa humanidade que queimaram junto com incontáveis suportes de conhecimento no incêndio criminoso do Museu Nacional é um ato inevitável de tristeza, mas que deve ser investido de indignação e luta.

Pois esse incêndio é resultado do projeto de sociedade que o Golpe em curso no Brasil desde 2016 impõe à classe trabalhadora como um todo e, no caso específico, aos trabalhadores dos campos da ciência, da cultura e da educação.

Um Golpe, portanto, contra algo que Luzia bem representa: a capacidade humana de criar e recriar a vida e fazer uso dessa capacidade para emancipar a espécie humana e não curvar-se ao capital.

Na tarde de terça, 04 de setembro, anunciaram que encontram entre os escombros um crânio que pode ser o do esqueleto de Luzia; ótimo que seja confirmado, mas o principal é que a face da pessoa que Luzia representa, que hoje está recriada e reproduzida em muitas formas de comunicação visual, já é parte da história do nosso aprendizado, enquanto trabalhadores da memória e da cultura, sobre nossa capacidade de vencer os que nos querem mortos.

*Sônia Aparecida Fardin é historiadora e militante da cultura
publicado também em: https://ajz.campinas.br/debates/

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