Por Valter Pomar (*)

Humberto Costa e Rodrigo Pacheco

O Diretório Nacional do PT delegou à Comissão Executiva Nacional.

E a Executiva Nacional delegou às bancadas decidir a tática na eleição das Mesas do Senado e da Câmara dos Deputados.

Na Câmara, a bancada do PT decidiu (27 votos a favor, 23 contra) participar do bloco do Maia e apoiar a candidatura de Baleia Rossi já no primeiro turno.

Argumento?

Impedir a vitória do candidato apoiado por Bolsonaro.

No Senado, a bancada do PT decidiu por unanimidade apoiar a candidatura de Rodrigo Pacheco, senador pelo DEM de Minas Gerais.

Argumento?

Impedir a vitória do candidato apoiado por Bolsonaro?

Não pode ser, afinal pelo menos até o momento Rodrigo Pacheco é o candidato de Bolsonaro.

Qual o argumento então?

A bancada do PT divulgou uma nota, que pode ser lida aqui:

https://ptnosenado.org.br/bancada-do-pt-e-a-eleicao-da-mesa-do-senado-federal/

Em off, alguns senadores disseram que apoiaram Pacheco porque a alternativa (do MDB) poderia ser pior, como se explica aqui:

https://noticias.uol.com.br/colunas/tales-faria/2021/01/12/pt-decidiu-por-apoio-a-bolsonarista-para-fugir-de-simone-tebet.htm

Em on, o senador Humberto Costa deu outra explicação.

A explicação de Humberto pode ser lida aqui:

https://revistaforum.com.br/politica/humberto-costa-rodrigo-pacheco-tem-apoio-de-bolsonaro-mas-nao-tem-compromisso-com-suas-ideias-estapafurdias/

Se as declarações colhidas e publicadas pela Forum forem exatas, Humberto Costa teria dito que:

…“o PT se definiu no Senado pelo apoio à candidatura de Rodrigo Pacheco por entender que, nesse momento, a principal questão em jogo no nosso país é a preservação da liberdade, da democracia, o respeito à Constituição e a possibilidade de nós barrarmos quaisquer tentativas de Bolsonaro e seus apoiadores de conduzirem o Brasil para uma ditadura”…

…“no debate que tivemos com o senador Rodrigo Pacheco e também no histórico da sua atuação no Senado Federal, nós chegamos à conclusão que ele preenche essas preocupações que nós tínhamos anteriormente”….

… “nessa articulação, nessa composição, nós teremos condições de desenvolver um trabalho mais aprofundado, mais intenso de oposição ao governo Bolsonaro”…

É a dialética, na variante schlingel: apoiando a candidatura apoiada por Bolsonaro, teremos melhores condições de fazer oposição a Bolsonaro.

Afinal, apesar de apoiado por Bolsonaro, Pacheco não tem “qualquer compromisso com essas posições estapafúrdias do presidente da República que ameaçam permanentemente a liberdade e a democracia no nosso país”.

Ou seja: bolsonarismo pode, desde que não seja estapafúrdio.

*

A alternativa, ter candidatura própria do PT, parece ter sido descartada in limine pela bancada do PT no Senado.

O motivo para o descarte, suponho, seja garantir os famosos espaços na Mesa, nas comissões, nas relatorias etc.

A direção nacional do PT precisa determinar à bancada do Senado que mude sua posição.

Ou ficará a impressão-quase-certeza de que o argumento utilizado para não lançar candidatura própria e apoiar Baleia Rossi no primeiro turno — ou seja, derrotar Bolsonaro — nunca passou de retórica de ocasião.

E o que realmente estava em jogo era outra coisa.

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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