Por Mateus Santos*

Ao final das eleições de 2018, muito se falou acerca de uma resistência ao governo Bolsonaro sendo construída a partir dos Nordeste. O expressivo desempenho de Fernando Haddad e dos candidatos aos governos estaduais aliados ao PT chamaram atenção daqueles que acompanham mais de perto a conjuntura política brasileira. Dos 9 candidatos vitoriosos, ao menos 4 venceram com percentuais superiores à 70% dos votos, números tão significativos que levam a crer que suas oposições estão fragmentadas e desmobilizadas. Na Bahia, quarto maior colégio eleitoral, Rui Costa foi um desses campeões de urna. Seu desempenho atingiu níveis que foram vistos pela última vez há mais de 20 anos. Seu segundo mandato, o quarto do PT a frente do palácio de Ondina, supostamente indicaria uma situação de conforto para o partido na conjuntura política baiana. Mas, números, isolados de uma leitura conjuntural, não nos dizem muita coisa…

Voltar ao processo eleitoral do ano passado é fundamental para o entendimento de questões que são centrais, no meu entendimento, para a compreensão dos desafios e dos caminhos apontados para o PT baiano. Primeiramente, em nível nacional, apesar de todo o esforço realizado diante de uma campanha fraudulenta, a derrota de Haddad representou uma retração eleitoral do partido, voltando aos níveis de 1989. Mesmo tendo recebido apoio dos setores mais reacionários e entreguistas da sociedade brasileira, a vitória de Bolsonaro se desenhou também por meio da adesão de parcela do eleitorado mais pobre que se desgarrou do lulismo e da esfera petista, num processo de criminalização da legenda e de seu principal líder. Ainda assim, em Estados como a Bahia, a força do petismo, aliado também aos efeitos do golpe de 2016 para a região como um todo, foram notáveis, a ponto do partido não somente manter os níveis eleitorais nesse colégio eleitoral, como também superar marcas em territórios historicamente ligados à oposição, como o caso da capital Salvador.

Conciliação de classes. Esse conceito caro nas discussões políticas acerca da estratégia de um partido do tamanho do PT também é um aspecto a ser considerado em seu passado mais imediato, mas ainda em seu presente. Se a nível nacional, 2018 representou a falência desse modelo, nos Estados, inclusive aqui (na Bahia) ela ainda se apresenta como elemento estruturante nas relações políticas. O debate acerca da formação da chapa majoritária foi apenas um dos momentos mais evidentes desse processo. A escolha de Ângelo Coronel como candidato ao senado, em detrimento do nome de Lídice da Mata, demonstrou a fragilidade desse modus operandi da política brasileira, na medida que, em nome de uma suposta governança, promove-se um visível desequilíbrio no tamanho das forças que compõem o governo, permitindo o avanço de grupos que não necessariamente coadunam com as bandeiras mais históricas do partido.

Diante da radicalização dos setores de direita e extrema-direita em diversas partes do país, um novo caminho para o Partido dos Trabalhadores é fundamental. O Nordeste de luta contra a ofensiva bolsonarista, discurso muitas vezes repetido no pós-eleição, só se encaminhará para tal, caso, do ponto de vista institucional, opte por trilhar um caminho que tenha como horizonte a construção de um projeto emancipatório, capaz de discutir e apresentar reformas estruturais à população. Dessa maneira, recusar a conciliação de classes é a primeira e mais dura etapa. A condução do processo político na Bahia, especialmente na formação da nova equipe de governo e nos acordos envolvendo sua base, demonstraram que há um esforço grande por insistir nessa estratégia fracassada. Numa política de acomodação dos mais diversos setores que compõem o governo, a direita ganha cada vez mais espaço institucional, gerando dúvidas acerca do que de fato representa a gestão para parcela significativa do eleitorado que aderiu a esse projeto, contrapondo-se aos adversários golpistas em nosso estado.

Algumas das discussões com relação ao processo eleitoral do próximo ano são de fundamental importância para o debate estratégico. Em Feira e em Salvador, é mais notável a divergência entre o projeto do governo e a tática defendida por setores do partido. Enquanto o executivo se preocupa aparentemente em promover uma nova etapa de acomodação, abrindo caminho para candidaturas de centro-direita nos municípios, parte do PT se movimenta para garantir nomes viáveis nas principais cidades. Esse posicionamento, para além de ser uma possível prévia do que pode vir acontecer em 2022, representa, ao menos, uma demarcação de espaço no interior da própria base governista, na medida em que o partido que hoje ocupa a principal cadeira não pode abrir mão de seu protagonismo na história recente da política baiana.

Hoje, falar de candidaturas próprias não é apenas uma questão relacionada a projetos individuais, mas um esforço coletivo necessário para o PT. Ter nomes dispostos a participar do próximo certame eleitoral é a certeza de que um projeto que se contraponha aos retrocessos empreendidos pelo executivo nacional terá voz nas disputas municipais. Afinal, mais do que o exercício de um cargo, as eleições locais serão espaço também de reflexão política sobre os rumos do país, dos Estados e obviamente dos municípios. Não podemos esquecer também que um projeto petista para 2020 não pode deixar de ter no Lula Livre uma das principais bandeiras. Apesar de uma pequena expectativa quanto a possibilidade de saída do presidente da PF em Curitiba, os arbítrios do judiciário e do projeto golpista como um todo parecem não ter dia pra acabar. Assim, uma voz petista no certame eleitoral é também (pelo menos, espero) um meio de garantir presença dessa que é uma das pautas mais centrais de um debate político  impulsionado pelas esquerdas.

Muita coisa ainda pode acontecer, ainda mais na conjuntura de incertezas como essa que estamos a viver. O fato é que não podemos deixar de perder esse gás acerca do debate estratégico do PT, além de sua tática para o próximo ano. Ainda que determinados setores, mesmo demarcando sua posição de contrariedade aos rumos da política estadual e os acordos para as eleições nos municípios, se neguem ou estejam em silêncio quanto à discussão de uma nova estratégia, o caldo do debate eleitoral pode forçar uma posição mais efetiva e diferenciada no interior do partido. Afinal, em um Estado como a Bahia, pensar nos rumos do PT local não é apenas mera preocupação com o futuro da política em nosso estado, mas uma etapa importante acerca do que a principal legenda da esquerda brasileira poderá fazer em nível nacional. Mudar é preciso.

*Mateus Santos é militante da Juventude da Articulação de Esquerda (JAE) – Bahia

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