Por Antônio Augusto (*)

Vladimir Herzog e família / Missa em sua homenagem

O assassinato do jornalista comunista Vladimir Herzog chocou a consciência democrática do Brasil e do mundo.

Herzog era diretor de jornalismo da TV Cultura, estação do próprio governo paulista.

Brilhante jornalista da sua geração, trabalhara anteriormente na BBC, em Londres.

Também fora cineasta, autor de importante documentário a respeito da dominação empresarial, inclusive estrangeira, sobre a imprensa no nosso país.

Bem-informado, culto, de elevados padrões morais, ele considerou seu dever lutar contra a ditadura militar, em defesa da democracia e do povo brasileiro.

O melhor modo de fazê-lo, segundo analisou, foi seu ingresso no Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Não chegou a permanecer 24 horas no DOI-Codi SP, central terrorista de torturas e assassinatos da ditadura militar. Antes disso, foi lá assassinado.

OPERAÇÃO JACARTA

A fatal perseguição política a Herzog se deu no bojo da ação repressiva macabramente denominada Operação Jacarta.

Era referência a um dos maiores genocídios da história contemporânea: o golpe militar na Indonésia, em 1965, que depôs o presidente Sukarno, líder da independência da Indonésia do colonialismo holandês, dirigente histórico e fundador do Movimento dos Países Não-Alinhados, criado em 1955, na cidade indonésia de Bandung.

Entre outros dirigentes fundadores, presentes em Bandung, figuras de envergadura histórica como o chinês Zhou Enlai, o iugoslavo Josip Broz Tito, o indiano Jawaharlal Nehru.

O golpe na Indonésia, com o patrocínio da CIA, matou cerca de 500 mil pessoas, das quais a grande maioria pertencentes ao forte Partido Comunista da Indonésia, então o maior PC do mundo em de países não-governados pelos comunistas.

O golpe mergulhou o país asiático numa ditadura sanguinária sob o comando de um ditador perpétuo, o general Suharto – permaneceu mais de 31 anos no poder.

Ditadura que elevou exponencialmente os problemas de um país subdesenvolvido, como a Indonésia, agravou ao paroxismo todos os problemas sociais, sepultou por toda uma era a perspectiva independente, desenvolvimentista e progressista do presidente Sukarno.

Jacarta é a capital da Indonésia, e o nome macabro dado à “operação” do DOI-Codi visava ao extermínio de comunistas e do PCB. A “Operação Jacarta” também representava o ódio da ditadura ao voto popular, era igualmente “revanche” pretendida à espetacular derrota da ditadura militar nas eleições legislativas de novembro de 1974 (mesmo sendo eleições não-livres, debaixo do cerceamento ditatorial). O PCB dera sua contribuição a esta vitória democrática, e a ditadura, acionando os sicários da repressão, achava ser a hora do “ajuste de contas”.

DELÍRIO NAZISTA DOS TERRORISTAS DO DOI-CODI

A prisão dos jornalistas paulistas do PCB, Rodolfo Konder, Paulo Sérgio Markun, Herzog, entre outros, evidenciou ainda mais à militância de esquerda o grau de delírio do aparato repressivo.

Queriam que os jornalistas presos, sob atrozes torturas, revelassem como “agiam sob as ordens de Moscou” o governador paulista Paulo Egídio Martins, e o próprio Cardeal D. Paulo Evaristo Arns, classificados como “agentes soviéticos”.

Aos gritos, também diziam que “o Papa Paulo VI está a serviço do comunismo internacional”.

Sério! O grau de delírio dos nazistas do DOI-Codi chegava a este ponto.

Paulo Egídio era da Arena, o partido oficial da ditadura militar. Governador indicado pela própria ditadura, sem eleição (biônico, na denúncia e linguajar da oposição) como era praxe na ditadura militar, que suprimira as eleições diretas para governador pelo Ato Institucional nº 2, o AI-2, de 27 de outubro de 1965. O AI-2 era a resposta da ditadura a sua derrota nas eleições para governador desse ano na então Guanabara e em Minas Gerais.

LUTA CONTRA A TORTURA E PROTESTOS CONTRA A REPRESSÃO

O assassinato do jornalista Vladimir Herzog, pessoa amplamente conhecida, de vida legal, chocou ainda mais pelo procedimento habitual da repressão, negar seus crimes.

A imprensa foi obrigada a divulgar a versão dos assassinos: “Herzog se suicidara”. Até uma foto os terroristas do DOI-Codi fabricaram: Herzog, com o macacão de prisioneiro, e o cinto amarrado em torno do pescoço. Só que na foto – a farsa era tão gritante, imoral e cínica – Herzog aparecia menor que sua altura, com as pernas dobradas, sem estar suspenso. Até pela foto da imunda farsa, via-se que Herzog “fora suicidado”.

A farsa do suicídio

O que ocorreu de novo diante deste novo assassinato de um opositor democrata foi a intensidade, grande para época, dos protestos. O jornal alternativo “Ex-“ chegou a rodar uma edição de 50 mil exemplares com ampla reportagem sobre o crime político.

O jornal foi em seguida fechado, mas valeu amplamente a coragem de seus jornalistas, Mylton Severiano, Sérgio de Souza, Narciso Kalili, Hamilton Almeida Filho, todos ameaçados de morte por exercerem seu dever de dizer a verdade à população. Eram veteranos da revista “Realidade”, criada em 1966, estrangulada pelo AI-5 e a ditadura do período Médici, a melhor revista que nossa imprensa já teve.

Jornalistas de todo o país assinaram abaixo-assinado de protesto.

A ABI denunciou o crime em edição, em cima do fato, no “Boletim da ABI”.

O presidente do Sindicato dos Jornalistas de SP, Audálio Dantas, também cumpriu seu dever, e bravamente fez o que deveria ser feito, denunciou o crime, cobrou responsabilidades, estimulou protestos da categoria profissional, uniu-se ao cardeal Arns no grande ato ecumênico em memória de Herzog na Catedral da Sé.

Notícias, mesmo de parte da “grande imprensa”, insinuavam nas entrelinhas a farsa montada pela repressão.

O Cardeal D.Paulo Evaristo Arns, este grande brasileiro, cardeal dos Direitos Humanos, oficiou ato ecumênico em memória de Herzog, na Catedral da Sé, junto com o reverendo presbiteriano Jaime Wright e o rabino Henry Sobel.

Foi o segundo protesto de massa, pós-68, contra a bestialidade da repressão. O primeiro fora a missa de sétimo dia, rezada por D, Paulo também na catedral em memória do estudante da USP, Alexandre Vannucchi Leme, assassinado debaixo de torturas em março de 1973. Os terroristas do DOI-Codi, uma repartição oficial das Forças Armadas, sob o comando do então major Carlos Alberto Brilhante Ustra, tiraram a vida de um rapaz de 22 anos, que obtivera o 1º lugar no vestibular de Geologia.

CLIMA DE TERROR

O ato por Herzog na Sé realizou-se num clima de perseguição terrível, mas 5 mil pessoas compareceram à catedral.

Agentes da repressão ocuparam armados a Praça da Sé e intimidavam os passantes.

Todos os que assistiram ao ofício ecumênico foram ostensivamente filmados dentro da igreja. Fila a fila a fila, banco a banco, os agentes do DOI-Codi, durante o próprio culto, jogavam luzes e mantinham a filmadora ligada, a câmera encostando no rosto dos presentes.

O clima de terror fez com que o jornalista Ricardo Kotscho desistisse de entrar na catedral. Nas imediações da Praça da Sé, fez meia volta e foi embora. O episódio é honestamente confessado no livro de memórias jornalísticas dele, “Do golpe ao Planalto: Uma vida de repórter”.

Ele, porta-voz do presidente Lula durante o primeiro mandato, se redimiu de maneira corajosa menos de três meses depois.

Os terroristas do DOI-Codi voltavam a matar, sempre debaixo de torturas, em 17 de janeiro de 1976. Desta vez a vítima foi o operário comunista Manoel Fiel Filho.

Escalado pelo “Estadão”, onde trabalhava, para cobrir o fato, Kotscho descobriu a casa de Tereza, viúva de Manoel, e denunciou corajosamente o assassinato em matéria assinada. Bem como o tratamento abjeto dos terroristas à viúva Tereza.

O “grande crime” de Fiel para os nazistas: lutar pelos trabalhadores, pela democracia, pelo socialismo, distribuir meia dúzia de exemplares do jornal clandestino do PCB, “Voz Operária” a companheiros de fábrica, a Metal Arte, no bairro paulistano da Mooca.

(*) Antônio Augusto é jornalista

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