Por Marcel Farah (*)

Passado o segundo turno das eleições municipais de 2020, temos um estado de Goiás dominado pela direita em suas diversas vertentes e uma esquerda enfraquecida, tendo como principal partido o PT. Contudo, com ligeiro aumento de sua representatividade na capital e outros colégios eleitorais e um relativo potencial de votos.

Nos 246 municípios do estado, os partidos de direita e centro direita foram os que elegeram mais prefeituras: o DEM ficou com 62 (ou 25%), MDB e PP com 30 cada (12%)  PSDB  com 20 (8%), o PODEMOS com 14 (6%) e o PL com 13 (5%).

Os principais partidos da base que apoia o governador Ronaldo Caiado (DEM), composta pelos direitistas DEM, PP, Podemos, Cidadania, PSC, PTB e pelo autodenominado centro-esquerda PDT administrará municípios que comportam 40,62% do eleitorado (1,87 milhão de eleitores). Já os dois principais partidos de oposição de direita a Caiado, MDB e PSDB, administrarão municípios que comportam 40,3% do eleitorado goiano.

A capital, Goiânia, se manteve sob administração do MDB, com a eleição de Maguito Vilela, assim como o segundo maior colégio eleitoral, Aparecida de Goiânia, em que Gustavo Mendanha do MDB foi eleito com 96% dos votos válidos, qualificando, assim, o partido como principal força da oposição. No entanto, cabe ressaltar que o atual prefeito, Iris Rezende, foi eleito em aliança com o DEM de Caiado em 2016 e, em 2018, vários emedebistas apoiaram a candidatura de Caiado em detrimento à de Daniel Vilela, filho do prefeito eleito de Goiânia, também do MDB, o que coloca em xeque a força desta oposição.

Os principais partidos da dita “centro-esquerda” elegeram 20 prefeitos: 15 pelo PDT e 5 pelo PSB. Contudo, o PDT é base de apoio do governo Caiado. Cabe lembrar que a deputada federal Flávia Morais, principal liderança do partido no Estado, votou pelo impeachment da Dilma, apesar das ameaças de expulsão – que não se concretizaram.

À esquerda, apenas o PT venceu. Com 3 prefeituras, mesmo número que obteve em 2016, e 23 vereadores, 16 a menos que os 39 de quatro anos atrás. Nos mantivemos na administração da histórica cidade de Goiás, elegendo prefeito e vice, e conquistamos as cidades de Professor Jamil e Itapuranga, esta também com chapa pura. Além disso, fizemos a vice-prefeitura do município de Baliza, em uma esdrúxula aliança com o DEM.

Em relação aos maiores colégios eleitorais do Estado, o PT disputou as prefeituras de Goiânia e Anápolis (terceiro maior) com candidaturas próprias. Em Goiânia, a Deputada Delegada Adriana Accorsi ficou em terceiro lugar no primeiro turno, com 80 mil votos. Em 2016, a mesma Adriana conquistara pouco mais da metade disso (46 mil votos). Num contexto em que os eleitores que não escolheram nenhum candidato (soma de abstenção, nulos e brancos) saltou de 272.504 (28,5%) em 2016 para 368.297 (38,5%) em 2020, mostrando o potencial de crescimento do partido e, indicando que a pior campanha da história do PT de Goiânia pode ter sido um piso.

A chapa de vereadores do PT na capital angariou 20.589 votos – pouco mais de ¼ da candidatura majoritária – o que nos deu direito a uma vaga no legislativo da capital, para o companheiro Mauro Rubem (3608 votos). A AEGO apoiou e fez campanha para o companheiro Mateus Ferreira, jovem estudante que obteve 913 votos, a sétima votação da chapa. Ressalta-se que a legislatura atual foi a pior desde a fundação do partido, quando não elegemos nenhum vereador na capital.

A disputa em Anápolis foi uma das surpresas desagradáveis para o PT, com direito ao uso de todo arsenal proveniente dos esgotos da política: indícios de compra de votos, uso da máquina da prefeitura e uso e abuso de fake news construíram o cenário antipetista na cidade.

As pesquisas apontavam no início da campanha que nosso candidato, o deputado estadual e ex-prefeito da cidade, Antônio Gomide, poderia vencer ainda no primeiro turno. No decorrer da campanha a vinculação do nome do deputado ao PT, partido ao qual ele sempre foi filiado, e a “demonização” do partido foram virando o jogo. Em um curto espaço de tempo a campanha do atual prefeito, Roberto Naves do PP, aproveitou-se da onda que ele mesmo fomentou. Ao final do primeiro turno conquistamos 50.843 votos (28,87%), contra 82.139 votos (46,64%) do adversário pepista.

No segundo turno, apesar dos esforços e da ampliação de nossa votação, não fomos capazes de reverter a rejeição criada, conquistando 64.046 votos (38,72%), contra 101.349 (61,28%) do representante da base caiadista.

Em Anápolis, ainda elegemos dois vereadores – Professor Marcos Carvalho e Lisieux José Borges  – tendo nossa chapa angariado 11.817 votos.

O predomínio da direita, um reflexo da formação histórica de Goiás e da débil modernização do Estado, indica que o caminho institucional é estreito para a luta política de transformação da realidade. Contudo, no campo institucional o Partido dos Trabalhadores é o que tem mais abrangência. Lançamos candidaturas em grande parte dos municípios, angariando grande quantidade de votos. Interessante ressaltar a melhora da competitividade em Goiânia, onde a votação praticamente dobrou em relação a 2016; e a manutenção da competitividade em Anápolis, mesmo diante do costumeiro esgoto antipetista por parte da direita.

O clima político no estado, contudo, ainda reflete os desdobramentos do ambiente construído para o golpe de 2016, anteriormente pavimentado pelo discurso de criminalização da política e da esquerda, perpetrado pelas grandes empresas de comunicação e pelo Judiciário. Por este motivo as fake news contra o PT colam e surtem efeitos eleitorais, como o que vivemos estadualmente.

Por outro lado, internamente, o PT adotou estratégia pouco elaborada e com baixo nível de adesão pelas candidaturas de todo o estado. O discurso díspar de nossos candidatos, a falta de identidade a partir de um projeto político para o estado, e a desarticulação de nossas chapas de vereadores e vereadoras, notadamente na capital, geraram resultados como os vistos acima, em que a chapa majoritária conquistou 80 mil votos enquanto a proporcional ficou com um quarto disso.

No mesmo sentido, tal postura dificulta o enfrentamento articulado e sistemático das mentiras e da campanha de baixo nível. As campanhas tornam-se, assim, despolitizadas e matizadas por temas locais. Muitas vezes a militância adota discursos acríticos, entrando na estratégia da direita de criminalização do PT, buscando desvincular o nome do candidato do nome do partido, sucumbindo ao fisiologismo por desconhecer ou não entender a importância de enfrentar o discurso hegemônico de criminalização da política, da esquerda e do PT.

Passado o momento eleitoral o partido precisa urgentemente criar espaços para debate e avaliação, buscando aprender com os erros e formular as ações para o próximo biênio. Apostamos, nós da Articulação de Esquerda, em fortalecer as estratégias de trabalho de base e formação política, em articulação com os principais problemas enfrentados pela classe trabalhadora no estado, como desigualdade, desemprego, falta de moradia, falta de serviços públicos de qualidade, domínio do agronegócio e do latifúndio no campo, violência policial e violações de direitos humanos (de mulheres, negros e negras, LGBTQIA+, pessoas com deficiência, trabalhadores e trabalhadoras em geral).

Dessa forma, esperamos revigorar o contato do partido com a sociedade e apostar em avanços junto à sociedade civil e aos movimentos sociais que fortaleçam nosso projeto e nossa densidade de disputa política, entre outros meios também a eleitoral.

(*) Marcel Farah é membro do diretório municipal do PT de Goiânia e integrante da Articulação de Esquerda de Goiás.


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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