Por Marcos Jakoby (*)

O ato nacional de Primeiro de Maio, ocorrido na última sexta-feira, causou muita divergência e polêmica no interior do movimento sindical e da esquerda brasileira. Isso porque o Fórum que reúne as principais centrais sindicais do país decidiu, com a anuência da maioria direção da CUT, uma vez que a minoria lutou para reverter a decisão, de compor o palanque virtual com notórios golpistas e inimigos da democracia e da classe trabalhadora.

Foram convidadas figuras como Fernando Henrique Cardoso, Rodrigo Maia, Dias Toffoli, Davi Alcolumbre, João Dória, Marina Silva, Wilson Witzel, entre outros. A maioria destes, com exceção de Fernando Henrique Cardoso e Marina Silva, declinou do convite, receosos de que a sua participação criasse obstáculos no diálogo com o governo Bolsonaro e de uma reação nada amistosa da extrema-direita e de sua própria base social. No âmbito da esquerda e do movimento sindical, a Frente Povo Sem Medo, entidades sindicais, tendências partidárias, seções estaduais da CUT e outras organizações populares demonstraram o seu descontentamento ou até mesmo se retiraram da construção do ato.

Tudo isso para, ao fim, termos um palanque virtual com a presença de FHC e Marina. Mas parte da esquerda e do movimento sindical comemorou efusivamente tal feito. E qual foi a régua utilizada? Furou-se a bolha entre os meios de comunicação e a esquerda ganhou alguns minutos na Rede Globo, disseram.

É de se pensar o que se passa na cabeça de muita gente da esquerda quando o parâmetro para balizar a nossa ação política está no tempo que ela pode proporcionar, ou não, de televisão. Porém, de uma coisa sabemos. O que orientou a decisão do ato de sexta é a obstinação de setores da esquerda em compor uma frente com uma parte da direita golpista.

Acho curiosa a avaliação que circula de que o ato foi um sucesso, não do ponto de vista da programação e do alcance de público, o que realmente foi, mas do ponto de vista de fazer avançar uma frente ampla, quando quase todos os líderes da direita se recusaram a gravar o vídeo para o ato. Mas, não é de se espantar, um peregrino perdido no deserto também se anima com uma miragem.

Ainda mais curioso é ler o artigo de alguém que está pretensamente muito à esquerda no espectro das forças políticas do campo popular e democrático, como Gilberto Maringoni, perdendo-se com essa miragem e fazendo uma defesa enfática de uma frente com personagens da estirpe de um Rodrigo Maia. O artigo a qual me refiro chama-se “O Domingo Sangrento e a Frente de 1º de Maio, por Gilberto Maringoni” e pode ser acessado aqui: https://jornalggn.com.br/a-grande-crise/o-domingo-sangrento-e-a-frente-de-1o-de-maio-por-gilberto-maringoni/ .

Maringoni discorre sobre as incursões dominicais de Jair Bolsonaro por Brasília, ao encontro de seus apoiadores, para participar dos atos golpistas. Contudo, o que chama mais atenção em seu artigo é aquilo que ele vê como “esperança”: a almejada frente ampla. E o sinal alvissareiro de que poderíamos estar no caminho de concretizá-la seria exatamente o ocorrido na sexta-feira.  Antes, um parêntesis: Maringoni afirma que a tática da extrema-direita é simplória. “Não busca estudar o terreno, o potencial de suas forças, a possibilidade de ataques por novos flancos ou antecipar-se a movimentações inimigas. Apenas bate-se mais duro à medida que o tempo passa, elevando a violência verbal e incentivando a brutalidade física de seus seguidores.”  Fico me perguntando se será isso mesmo. Se uma força política e social tão simplória e limitada seria capaz de eleger um presidente, radicalizar em seu programa, avançar na disputa ideológica e conduzir o país à situação em que nos encontramos.

Bom, mas voltando ao “grão”.  Maringoni afirma que em relação ao ato “uma bolha foi rompida nos meios de comunicação. O movimento sindical demonstrou ousadia, serenidade e percepção clara do perigo da hora. […] O rompimento da bolha colocou pela primeira vez em anos, Lula e Dilma no Jornal Nacional, fora das notícias policiais.”

Quem assistiu, ou assistir, a edição do referido telejornal perceberá que o enfoque dado foi o de que “todos destacaram a necessidade de união para vencer os problemas nacionais”.  O tom de “união nacional” prevaleceu em toda a reportagem de pouquíssimos minutos, não as críticas à redução de direitos trabalhistas, ou as críticas ao programa ultraliberal e ao capitalismo. Em suma, a decisão de veicular a reportagem se deve a duas razões, em minha opinião: o caráter de “união nacional” atribuído ao ato, possível pelas presenças de FHC e Marina Silva, e a desidratação de qualquer conteúdo mais radicalizado, atendo-se a trechos mais amenos das falas das lideranças da esquerda.  Porém, isso não é novidade em nossa história.

Essa “captura” e abordagem do oligopólio midiático sobre movimentos e ações da classe trabalhadora sempre aconteceu, contanto que as forças populares e democráticas não aparecessem como uma força social e política independente. E, sobretudo, para outro interesse: na disputa interna das classes dominantes, onde  a “união nacional” é usada para fazer valer os interesses de sua fração de classe contra outra fração, além de diluir os interesses da classe trabalhadora.

Maringoni ainda lamenta “é pena que Rodrigo Maia e Guilherme Boulos – representantes de lados antagônicos no espectro político – não tenham também se colocado. Pois a frente necessária para se tirar Bolsonaro do poder não pode conter vetos preestabelecidos pela trajetória pregressa de cada personagem”.  Ou seja, se dependermos de Maringoni e outros, estaremos marchando nessa toada logo ali na frente, ao lado de Dória, Witzel, Rede Globo e Moro.

Nosso autor acrescenta que uma frente política “se faz a partir de objetivos definidos e não pela fulanização deste ou daquele componente. O que define uma convergência desse tipo é seu programa.”  Pergunto: qual será o programa para compor uma frente com parte do bloco golpista? Tirar Bolsonaro e colocar Mourão? Isso interessa à classe trabalhadora, ao povo? Mudaria a essência do governo? Será que as forças políticas representadas por um Rodrigo Maia da vida topam o combate ao programa ultraliberal, que causa tanta destruição, regressão social e econômica em nosso país?  Aliás, como mobilizar o povo e a classe trabalhadora contra o governo Bolsonaro sem lutar contra esse programa?

Acontece que setores da esquerda têm dificuldades imensas em aceitar que a burguesia brasileira tem unidade em seu programa e em seus objetivos estratégicos, que está decidida em interditar ou mesmo destruir a esquerda, mas,  principalmente, de que a única divisão que ocorre no lado de lá se dá na forma de conduzir esses objetivos, de lidar com suas consequências e no espaço que cabe a cada um. E que sendo assim, nenhuma das frações das classes dominantes tem disposição em compor uma frente conosco, no máximo nos usar como uma linha auxiliar em sua disputa interna. O melhor seria que todos na esquerda abandonassem a miragem de frente ampla, para somar-se àqueles que lutam por construirmos uma alternativa política e independente da classe trabalhadora e dos setores populares.

(*) Marcos Jakoby é professor e militante petista.

 

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