Por Valter Pomar (*)

O companheiro José Sérgio Gabrielli escreveu um texto intitulado  “Biden: Até onde vai o seu reformismo?”. O texto traz uma boa síntese informativa, mas na essência defende uma opinião equivocada acerca do Plano Biden.

Gabrielli abre seu texto citando “Eric Hobsbawn, famoso historiador marxista inglês, chamava o período que vai da 1ª Guerra até o fim da 2ª guerra como uma Era de Catástrofe, seguida de uma Era Dourada até os anos setenta. Um dos elementos detonadores dos Anos Dourados, no pós guerra, foi o Plano Marshall, forte intervenção do estado para recuperar as economias europeias, especialmente adquirindo produtos americanos”.

Que o Plano Marshall existiu e teve seu papel (exageros descontados), nenhuma dúvida. Mas apresentá-lo como “forte intervenção do estado para recuperar as economias europeias”, omitindo da definição que o plano fazia parte de uma operação de confronto com a URSS e com a esquerda em geral é um ótimo exemplo do erro que está sendo cometido no debate acerca do Plano Biden. Vale dizer que Gabrielli não comete este erro, como se verá mais adiante.

Também no início de seu texto, ao falar da chamada Era de Catástrofe (1914-1945), Gabrielli afirma que “a economia em profunda crise viu a ascensão das forças nazistas e fascistas e a democracia foi restringida. Capitalismo liberal e socialistas da URSS se uniram contra essas forças e as derrotaram na 2ª Guerra”. Isto, é fato, mas não se pode omitir dois detalhes politicamente muito relevantes para o debate da época e para o debate atual: primeiro, durante anos o capitalismo liberal fez de tudo para empurrar os nazistas contra a URSS e os comunistas, como se viu por exemplo na famosa conferência de Munique; segundo, logo após a Segunda Guerra a aliança se desfez. Aliás, o sinal disto foi dado em Hiroshima e Nagasaki.

Acerca do New Deal, Gabrielli escreve que o “plano de recuperação da economia americana depois da Depressão de 1929 foi talvez o fato econômico mais importante do mundo capitalista na Era de Catástrofe”. Num certo sentido foi mesmo, até porque a economia dos EUA já era imensa antes do plano. E embora o plano econômico implementado pelos nazistas também tenha sido impressionante, por motivos óbvios ele não é muito lembrado. Entretanto, o “fato” econômico mais importante do mundo na Era de Catástrofe não foi plano algum, foram as guerras mundiais. Foi a guerra, e não os “planos”, que reestruturou completamente o mundo. E foi através da guerra – e não do New Deal – que os EUA saíram da condição de pais em crise, para a condição de potência mundial.

É deveras espantoso que este detalhe – o papel da catástrofe na era da catástrofe – seja seguidamente deixado de lado pelos defensores do New Deal e do Plano Biden. No fundo, acho que eles projetam para os capitalistas os instintos pacíficos que defendem devam ser assumidos pela esquerda.

Ainda sobre o New Deal, Gabrielli recorda que o próprio Hoover foi “forçado a adotar políticas de intervenção do estado para salvar o próprio capitalista” e que Roosevelt “radicaliza suas políticas com o New Deal”. Mais ou menos como Biden está “radicalizando” algumas ações que já estavam em curso com Trump. Gabrielli não destaca esta continuidade, mas outra (entre Roosevelt e Biden, antes e depois de eleitos).

Gabrielli lembra que a esquerda criticou o New Deal, que “não era um programa revolucionário, claro!” Estas críticas – as da época e as atuais – têm sua razão de ser, mas a questão central do New Deal é outra: sem a guerra, a recuperação não teria ocorrido. Claro que a engenharia do New Deal foi importante para o sucesso da economia de guerra. Mas é preciso lembrar que especialmente  em uma economia gigante como a dos EUA, tanto nos anos 1930 quanto agora, sair de uma profunda crise não é algo trivial, nem pacífico.

Em certa passagem do seu texto, Gabrielli fala que “nas eleições de 1936, segundo mandato de Roosevelt, a esquerda saiu destroçada com a retumbante vitória democrata, a maior desde 1820. A destruição das ideias mais à esquerda foi um duro golpe na organização popular nos EUA desde então”. Se fosse verdade que teria ocorrido nesse momento uma “destruição das ideias mais à esquerda nos EUA”, como explicar a documentada influência da esquerda (comunistas inclusive) na máquina de Estado dos EUA, desde o New Deal até o final da Segunda Guerra? O exemplo mais conhecido dessa influência, aliás, é do principal representante dos EUA na Conferência de Bretton Woods.

O que nos remente para a referência, feita por Gabrielli, acerca dos conselhos de Keynes a Roosevelt. O fato é que o ilustre lord inglês não teve muita influência real do outro lado do oceano Atlântico. Portanto, me parece que a nota tem mais que ver com o que Gabrielli pensa acerca do presente: “no plano fiscal, a expansão dos gastos com o aumento da dívida pública era a política sugerida por Keynes”. Acontece que a “expansão dos gastos” que realmente contou naquele momento foi possível graças a economia de guerra (que também contribuiu para o aumento das reservas em ouro dos EUA).

Em resumo: falar do New Deal sem falar da guerra é tipo contar a história da Chapeuzinho Vermelho, pulando a parte do lobo mau.

Vejamos agora o que Gabrielli fala do plano Biden.

Citando Giorgio Romano, Gabrielli afirma que a “grande estratégia” de Biden “recoloca o Estado no centro da retomada econômica” e no “âmbito internacional, prepara os EUA para o enfrentamento com a China”, onde o Estado “está no centro do desenvolvimento”.

Esta simetria entre Plano Biden e China – que afirma que em ambos o Estado “está no centro” – precisa ser temperada com um “detalhe”: na China, o capital financeiro (e muito mais) está sob controle direto do Estado, enquanto nos EUA o capital financeiro e o complexo militar-industrial controlam o Estado. Este é um dos motivos concretos pelos quais sem a economia de guerra (o que pode incluir guerra  propriamente dita), a equação Biden não fecha.

Gabrielli reconhece que da “mesma forma que Franklin Delano Roosevelt defendia que seu New Deal era parte de uma luta político-ideológica contra os autoritarismos nazistas e comunistas, na década de trinta, Biden afirma agora, na segunda década do século XXI, que o grande objetivo geopolítico de seu plano é preparar os EUA para lutar contra a expansão da China e seu socialismo com características chinesas”.

Faltou desenvolver o raciocínio, com algo que nos diz respeito: nos anos 1930 e início dos anos 1940, o Brasil era governado por Vargas, que estava a seu modo desenvolvendo o capitalismo no Brasil. No governo Vargas havia defensores de uma aliança com o nazismo e havia defensores de uma aliança com os EUA. Roosevelt veio ao Brasil, houve negociações, Vargas escolheu o lado dos EUA (o que na época significava, também, ficar do lado da URSS). Outros países da região escolheram posições distintas, inclusive a neutralidade.

Pois bem: pergunto aos entusiastas do plano Biden que atitude eles defendem que adotemos, caso voltemos ao governo? Vamos apoiar Biden e os gringos na guerra deles contra a China? Vamos nos deixar encantar pelo argumento segundo o qual “talvez, desde os tempos de Roosevelt, volte a presença do Keynes mais radical e ideias social democratas passem a ser relevantes, para influenciar na economia americana”?

[Relevantes, pero no mucho. Por exemplo: como corretamente registra Gabrielli, com Biden se defende “voltar a alíquota do IRPJ de 21% para 28%”, mas isso é “ainda menor do que os 35% de antes de 2017, quando foi baixada por Trump”.]

Gabrielli admite que “no plano externo, a disputa com a China permanece no centro e a posição imperialista em várias partes do mundo tem poucas alterações, apesar da saída das tropas do Afeganistão”. Acontece que a saída do Afeganistão, quando se ultimar, não será uma alteração das posições imperialistas; é parte do baile. E o baile ficou mais heavy metal depois que Biden substituiu Trump como DJ.

No fim das contas, Gabrielli reconhece que “até que ponto haverá uma reindustrialização nos EUA continua como uma incógnita”. E no fundo seu texto reconhece que entre o que o plano pretende e a realidade, há um longo trecho a percorrer.

Isto posto, quais as conclusões que Gabrielli retira? Que o plano Biden “não é um plano revolucionário para transformar a estrutura social da economia americana. É um plano reformista radical para, dentro da institucionalidade capitalista, melhorar a distribuição de renda, retomar o crescimento e recolocar os EUA no protagonismo mundial das mudanças climáticas e avançar na disputa com a China nas mudanças tecnológicas que moldam o futuro”.

Folgo em saber que Gabrielli não aderiu a tese de que Biden estaria “revolucionando o capitalismo”. Mas sua tese – “plano reformista radical” – também é um exagero.

A não ser que as palavras tenham mudado completamente de sentido, uma “reforma radical” precisaria tocar nas estruturas. E as “estruturas” da economia dos EUA são, entre outras, o capital monopolista financeiro, o complexo militar industrial, o imperialismo etc. Se Biden não está tocando em nada disso, no que consistiria o “reformismo radical”?

Segundo entendi Gabrielli, “reformismo radical” seria: 1/melhorar a distribuição de renda, 2/retomar o crescimento? 3/recolocar os EUA no protagonismo mundial das mudanças climáticas? 4/avançar na disputa com a China nas mudanças tecnológicas que moldam o futuro?

Cada um dá o nome que quer para as coisas, mas as escolhas não podem ser totalmente arbitrárias. Vargas poderia ser chamado de “reformista radical”, porque alterou as bases estruturais do capitalismo brasileiro. FDR poderia ser chamado de “reformista radical”, porque alterou elementos importantes do sistema bancário-financeiro dos EUA. Reagan e Thatcher, assim como FHC, poderiam ser chamados de “reformista radicais”, pois também reformaram as raízes do modelo que os antecedeu.

Mas não consigo compreender como se pode chamar Biden de reformista radical e, ao mesmo tempo, concordar com a afirmação segundo a qual “Biden representa um ‘Make America Great Again’ light, sem o flerte com o neofascismo”.

Não faz sentido chamar de “reformista radical” quem não reforma as raízes, salvo é claro se o motivo for essencialmente político. Ou seja, acreditar que “o rompimento com a ortodoxia austericida é um forte reforço para as lutas de vários países do mundo contra os programas que insistem em reduzir o tamanho do estado, cortar gastos sociais e viver na ilusão de um empreendedorismo privado dinamizador da economia, que nunca vem. Sem o estado não há recuperação!”

O problema – que Gabrielli não percebe – é que o “reforço” é para inglês ver. Explico: o plano Biden, se der certo, vai fortalecer os EUA. E como os EUA são uma nação imperialista, vão fortalecer os EUA na pressão sobre o Brasil. E na atual situação histórica, o que eles querem do Brasil é primário-exportação. Portanto, o suposto rompimento deles com a “ortodoxia austericida” vai significar – na prática – maior capacidade de nos impor, aqui, o que eles desejam.

Portanto, o “reforço forte” que vem de lá não será, na vida real, um reforço para a reconstrução e a transformação que precisamos fazer aqui.

A não ser, é claro, que achemos que nosso lugar no mundo deve ser mesmo o de fornecedor de primários.

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

Este post tem um comentário

  1. Eduardo Lima

    É preciso lembrar que também há luta de classes no interior dos EUA e que seus presidentes, por mais que representem os bancos e o complexo industrial militar, por vezes se veem em uma saia justa com a massa. Há duas eleições, Bernie Sanders paira como espectro sobre as plataformas dos candidatos de ambos os partidos. Com ele, dezenas de milhões de jovens estadunidenses mais socialistas do que os jovens brasileiros. Parte do programa de Biden é uma digestão da plataforma de Sanders; parte de seus planos é pressão de tal massa. Nessa discussão do New Deal de Roosevelt e do pretenso New Deal de Biden, está sendo esquecido o New Deal de Lyndon Johnson, o maior reformista dos EUA na segunda metade do século 20. É possível que a realidade com a qual Biden se debate agora tenha mais a ver com a de Johnson…

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