O futebol sempre foi utilizado como instrumento de controle social, mas pode e deve servir como meio de mobilização popular

Por Varlindo Nascimento (*)

No último final de semana o Clube de Regatas do Flamengo, time mais popular do futebol brasileiro, voltou a vencer a Taça Libertadores da América após 38 anos. Em 1981, ano da primeira conquista, o time carioca tinha no elenco de craques como Júnior, Adílio, Andrade, Leandro, Nunes e, principalmente, Zico. Muito da popularidade do clube a nível nacional se deve a essa geração de jogadores que dominou o futebol brasileiro na primeira metade da década de 1980, época em que as transmissões de futebol começaram a se tornar parte da grade das principais emissoras de TV.

Ao final do jogo que garantiu a conquista flamenguista, realizado na cidade de Lima, contra o River Plate da Argentina, uma cena chamou bastante atenção. O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, entrou em campo e se ajoelhou aos pés de Gabriel Barbosa, o “Gabigol”, autor dos dois gols que deram a vitória ao time. A reação de Gabriel foi nitidamente de desprezo, saindo de lado e deixando Witzel em situação de ridículo. Minutos depois o mesmo atleta aparece numa foto abraçado ao governador que, no dia seguinte, desembarcou do avião junto com os jogadores e se comportou publicamente como se parte da reação da massa de torcedores que receberam o time de volta fosse também em sua homenagem, um claro gesto de apropriação da conquista esportiva para fins políticos.

No Brasil e no mundo são inúmeras as ocasiões em que esporte mais popular do planeta foi utilizado para reforçar imagens de líderes políticos, ou como forma simular algum nível de popularidade, como no caso do governador do Rio.

O esporte surgiu na Inglaterra na segunda metade do século XIX, muito ligado à atividade fabril. Nessa época, os capitalistas viam no jogo uma forma de controlar a classe operária, evitando que ela extravasasse os efeitos da exploração capitalista e colocasse em risco a estrutura social da burguesia. Neste sentido, muitos dos clubes mais tradicionais do futebol britânico encontram-se em cidades com histórico industrial ou portuário, é o caso de Manchester, Leeds, Liverpool, Southampton, entre outras.

Com a ascensão do fascismo clubes populares foram apropriados pelo regime como meio de propaganda. Na Itália, a Lazio de Roma era o time de preferência de Benito Mussolini. O clube faz contraponto à Roma, time identificado com o proletariado da cidade. Curiosamente, do ponto de vista esportivo a Lazio não obteve grande sucesso com a ligação afetiva do Duce. Seus dois títulos nacionais foram ganhos em épocas bem posteriores. Por outro lado, do ponto de vista ideológico os vínculos com o fascismo ainda são amplos nas manifestações da torcida “laziali”. Em 2001, num clássico contra a Roma, foi estendida uma faixa no meio da torcida com a frase “squadra di neri” (time de negros), em referência a jogadores como Cafu, Aldair, Marcos Assunção e Emerson, brasileiros negros que jogavam na Roma. Mais recentemente, em partida pela Liga Europa, enquanto torcedores da Lazio entoavam cantos fascistas nas arquibancadas do Glasgow Celtic, da Escócia, os britânicos estenderam um mosaico com a representação do enforcamento de Mussolini. O mais grave é que só o Celtic foi punido pela UEFA em virtude da manifestação da sua torcida. Talvez o vínculo mais característico do time italiano com a ideologia fascista seja representado por um ex-jogador seu, Paolo Di Canio, que a cada gol estendia o braço direito com a mal espalmada em direção a torcida, exatamente o mesmo gesto do regime.

Na Alemanha Hitler foi mais pragmático, mas não deixou de usar o futebol como instrumento de propaganda e de auto popularização. Na época da ascensão do nazismo o time mais forte do país era o Schalke 04, clube da cidade mineira de Gelsenkirchen, no vale do Ruhr. A ligação com a classe operária das minas de carvão foi um fator de aproximação com setores populares e influenciou diretamente na escolha pelo Schalke, que, a partir de então, passou a ter tratamento privilegiado em detrimento dos rivais.

Portugal e Espanha, países que viveram sob governos autoritários até a década de 1970, também tiveram o futebol como mecanismo de popularização de seus regimes. Em Portugal o governo de Salazar usou o Benfica como instrumento de propaganda. O clube sempre foi o mais popular da capital Lisboa, antagonizando com o elitista Sporting. Na década de 1960 o Benfica tinha um dos maiores jogadores do futebol mundial, o moçambicano Eusébio. Mesmo sendo cortejado por gigantes de países mais ricos e fortes do continente o “Pantera Negra” foi mantido no Benfica durante quase toda a carreira com influência e financiamento do governo de Salazar. Nessa época o Benfica acabou se consagrando bicampeão europeu e a seleção nacional foi terceira colocada na Copa de 1966, tendo Eusébio como principal jogador nessas ocasiões. Já na Espanha a ligação de Francisco Franco com o Real Madrid nunca foi segredo. Durante seus anos de poder o clube “merengue” chegou a ganhar o campeonato europeu por cinco vezes consecutivas. Foi nessa época que o Barcelona, maior rival dos madridistas, se tornou uma representação política de resistência do povo catalão. Até hoje os superclássicos são mais do que partidas de futebol, são verdadeiros atos políticos entre os unitaristas de Madrid e os independentistas de Barcelona. Recentemente, durante as manifestações pela independência da Catalunha, um confronto entre as duas equipes foi adiado pelas autoridades pelo alto risco de conflitos.

No Brasil os clubes de futebol mais antigos, via de regra, tem sua formação ligada às elites econômicas. Diferentemente do caso inglês, o esporte foi difundido no país como uma prática lúdica e de diversão para os mais abastados, tanto que o amadorismo persistiu até a década de 1930, época em que o profissionalismo já estava consolidado na maior parte da Europa. O próprio processo de inserção das camadas populares, principalmente do elemento negro, foi feito a contragosto dos que dominavam a prática esportiva. Um exemplo característico foi o episódio em que um jogador negro do Fluminense Futebol Clube, historicamente ligado à aristocracia carioca, era obrigado a usar pó de arroz para disfarçar a cor da pele durante os jogos. Com o tempo o clube romantizou esse ato de racismo e o nome pó de arroz serve até hoje para designar carinhosamente o clube.

Durante a ditadura o futebol não deixou de ser um instrumento utilizado como meio de manobrar o interesse popular e invizibilização dos problemas que afetavam a classe trabalhadora. Durante a década de 1970 o campeonato nacional chegou a ter mais de 90 equipes inscritas. A crise no regime fazia com que lideranças políticas locais barganhassem junto ao poder central apoio para que seus clubes entrassem no campeonato, mesmo que como “sacos de pancada”. Diante dessa situação foi cunhada a anedota que se tornou popular entre os setores que faziam a crítica a ditadura: “Onde a ARENA vai mal, um time no nacional”.

Até hoje os clubes brasileiros são controlados politicamente por personalidades ligadas ao empresariado e políticos normalmente de direita. Muitos deles atuam como mecenas nos clubes de forma a captar apoio entre as massas populares, além de ter acesso direto aos altos recursos que os clubes recebem entre patrocínios e direitos de televisão. A influência dessa classe de pessoas é grande na formação do jogador de futebol enquanto indivíduo. Num país desigual como o Brasil o futebol é tido como tábua de salvação para muitas famílias que investem desde cedo no sonho de ter um filho jogando num grande clube, catapultando toda a parentela da condição de vulnerabilidade social. O jogador de futebol médio no Brasil é uma empresa que responde por muitas pessoas ao seu redor. Diante desse quadro, esses atletas dificilmente concluem sequer o ensino básico, tendo em vista que a natureza da profissão cobra dedicação total desde muito cedo. Naturalmente o meio acaba fazendo desses indivíduos presas fáceis para que esses barões do futebol moldem suas personalidades. Não é à toa que o jogador de futebol brasileiro é tido normalmente como indisciplinado, arrogante, despolitizado e, quando se posiciona politicamente, é a favor de políticos ligados a mesma linha dos que controlam os clubes.

Com tudo isso o futebol não deixa de ser um instrumento de mobilização popular com grande potencial para subverter a ordem vigente. São exemplos internacionais clubes como o Sankt Pauli da Alemanha, que é uma marca da contracultura naquele país. O clube localizado num subúrbio de Hamburgo defende publicamente causas populares, antirracistas e LGBT. Na Itália o Livorno, localizado na cidade de mesmo nome, é historicamente ligado ao Partido Comunista. É comum durante seus jogos ver torcedores do time estenderem símbolos ligados a luta operária. O atleta Lucarelli é um símbolo histórico da pequena equipe que flutua entre a segunda e terceira divisões do campeonato. Com passagem pela seleção nacional, Lucarelli abriu mão de prestígio e dinheiro para dedicar grande parte da carreira ao Livorno e ao comunismo. Na Espanha, o Rayo Vallecano, pequeno time situado em Vallecas, distrito industrial de Madrid, também se destaca pelos laços afetivos entre clube e comunidade, funcionando muitas vezes como mecanismo de apoio comunitário.

Momentos históricos também servem para definir o quanto o futebol pode ser instrumento de denúncia e libertação das camadas oprimidas. Em 1980, durante a ditadura, o governo uruguaio se uniu a FIFA para promover um mundialito. Durante o jogo final que deu o título a seleção da casa, os torcedores gritavam em uníssono pelo fim da ditadura: “Se va acabar, se va acabar, la dictadura militar”. O evento que tinha como objetivo desviar as atenções das massas e promover o regime acabou tendo efeito totalmente contrário. A Copa de 1978 na Argentina, ao mesmo tempo em que foi utilizada para promover o regime de Videla, expôs aos olhos do mundo sua ditadura sanguinária. Na mesma Copa o jogador brasileiro Reinaldo comemorou um gol com o braço em riste e o punho cerrado. O ato lhe custou um puxão de orelhas e a orientação de não repetir a forma em outra ocasião, e a sua negativa lhe custou a vaga no time. Se Reinaldo perdeu espaço na seleção, ao mesmo tempo tirou as autoridades da zona de conforto, obrigando-os a criar um argumento pouco convincente sobre a retirada do craque do Atlético Mineiro.

A Democracia Corintiana foi um marco no processo de reabertura política no Brasil, antes que o regime democrático fosse restaurado ela foi instituída por um breve período no clube paulista. Num caso raro de encontro entre atletas com características que fugiam ao lugar comum do futebol e diante de uma grande crise financeira, os jogares conquistaram o direito de intervir nas decisões da dinâmica do clube. Sócrates, um médico, Casagrande, um jovem libertário e Wladimir, um homem negro e extremamente politizado eram as principais lideranças do movimento que, mesmo contra as expectativas, levou o time a um bicampeonato paulista. Esses atletas também se posicionaram durante o processo das Diretas Já!, o que os tornou pessoas “perigosas” dentro das estruturas ainda militarizadas dos clubes de futebol.

Atualmente vários movimentos de torcedores denunciam o processo de elitização e embranquecimento das arquibancadas. Como forma de “higienizar” o ambiente e tirar o pobre do estádio de futebol os ingressos são cada vez mais caros e o perfil do torcedor, consequentemente, cada vez mais reacionário. As vaias e xingamentos à então presidente Dilma durante a Copa das Confederações em 2013 e a Copa do Mundo de 2014, realizadas aqui no Brasil, mostraram bem o nível desse “novo perfil” do torcedor de estádio.

Em contraposição a esse processo, movimentos de resistência têm surgido dentro das torcidas dos maiores clubes do país. Já são vários os grupos de democratização da arquibancada e de torcidas antifascistas. No início de novembro esses torcedores estiveram reunidos em Porto Alegre no 1º Encontro Nacional Pelo Direito de Torcer, debatendo formas e mecanismos de inserção das pautas populares na política interna dos clubes e formulando meios de garantia do direito à livre manifestação nos estádios, tendo em vista que é extremamente comum as forças de coerção do Estado usarem de força e truculência para impedir que esses torcedores se manifestem politicamente com faixas e adereços. Mesmo com todas as restrições e com a repressão oficial, tem sido comum vermos em transmissões de futebol materiais com críticas à Globo, que monopoliza as transmissões do esporte, e cobrando a omissão do Estado em casos como o de Marielle. O “quem matou Marielle” ou “Quem mandou matar Marielle” já circulou por vários estádios desse país.

Por fim, àqueles que criticam o futebol a partir da sua cultura histórica e do uso majoritário da sua visibilidade para os piores fins, devem considerar que existem outras formas de uso do mesmo, podendo colocar nossas demandas também em evidência. Querendo ou não o ambiente do futebol não é um espaço confinado, nem 100% controlado como um estúdio de televisão. Devemos utilizar as suas brechas para, a partir delas, construir uma saída popular para esse instrumento que também é parte da cultura de um povo.

(*) Varlindo Nascimento é  militante petista em Recife- PE

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