Sem título, obra do equatoriano Eduardo Kingman

 

Por Daniel Valença*

 

Com as derrotas dos governos de esquerda de Bolívia e Venezuela em referendos relativos à possibilidade de reeleição, ocorridas uma década após o ascenso de vários governos progressistas na região, tornou-se corrente o argumento do “fim do ciclo” de esquerda na região. Em geral, pautavam-se os limites e erros destes governos, bem como a mudança no cenário internacional das commoditties e a perda das benesses daquele período histórico.

Não cabe, no presente texto, problematizar os acertos e limites das mais diversas experiências progressistas que o continente vivenciou neste século XXI. Contudo, à tese do “fim do ciclo” devem ser opostas duas questões. A primeira, é que, passados alguns anos, apesar dos golpes de Estado em Honduras e Brasil, e da derrota eleitoral na Argentina, governos de esquerda resistem na região.  Ao contrário das previsões dos que defendiam tal tese e que apontavam a iminente derrocada de Bolívia e Venezuela, tais países mantém uma base popular que não aparenta estar em vias de desagregação, e a esquerda saiu-se vitoriosa em eleições recentes em outros países, como na Nicarágua com Daniel Ortega.

O segundo – e principal – elemento é que tal tese, de maneira curiosa, não se debruça sobre o tema do Imperialismo e como se iniciaram as crises em países governados pelas esquerdas. Se na primeira década deste século os Estados Unidos se voltaram ao Oriente Médio, a partir da crise cíclica do capital de 2008, perante os riscos a seus interesses no tocante ao petróleo e gás na região, deslocam sua política externa para o continente sul-americano. É nesse contexto que ocorreu a espionagem da Petrobrás e do governo Dilma por agentes americanos. Aliás, o embaixador americano Philip Goldberg foi flagrado em reuniões com a oposição boliviana imediatamente antes da tentativa de golpe de 2008, bem como a embaixadora Liliana Ayalde estava no Paraguai até as vésperas do golpe contra Fernado Lugo, e era embaixadora do Brasil à época do golpe de Estado de 2016.

O avanço da direita na região, portanto, é um avanço do imperialismo sobre as diversas soberanias nacionais, um ataque do capital sobre o trabalho, com intuito de possibilitar novos padrões de acumulação e extração de mais-valia. Tanto o é que, não por acaso, Brasil e Argentina, expressões máximas deste processo, vivenciam propostas de reformas trabalhistas e previdenciárias com inúmeros pontos de aproximação, mesmo tratando-se de países de formação social e situações econômicas atuais distintas.

Para propiciar este avanço do capital sobre o trabalho, ao contrário das baionetas de décadas passadas, desta vez o imperialismo e as direitas regionais se valeram dos sistemas de justiça e dos oligopólios midiáticos. O lawfare materializou-se não apenas no Brasil, mas no Equador, que tem o vice-presidente Jorge Glas, leal a Rafael Correa, preso, por supostamente ter recibo propina da Odebrecht, bem como na Argentina, em tentativa de impedimento de Cristina Kirchner.

Ademais, neste vinte de abril de 2018, Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Peru e Paraguai anunciaram a saída da Unasur, em mais uma ação voltada a fragilizar Bolívia e Venezuela, bem como de desestruturação do processo de integração vivenciado pelo continente nos últimos anos.

Mas, por outro lado, o avanço das direitas no continente não se aproxima do ocorrido no ciclo neoliberal. Naquele período da década de 1990, as elites lograram construir hegemonia ao redor dos pressupostos neoliberais. Atualmente, apesar de deterem os poderes executivo, legislativo, judiciário (e midiático) no Brasil, suas ideias-força não se transformaram em consenso. O repúdio às reformas neoliberais e ao governo golpista, a liderança de Lula nas pesquisas, indicam que as classes dominantes não detêm a hegemonia no país. Na Argentina, apesar da popularidade de Macri – ainda fundada na tese de que os problemas atuais são do governo anterior, a mesma utilizada no Brasil –  a alta inflação, as reformas contra o trabalho em curso e privatizações podem fazer a popularidade do governo despencar. No México, do crime organizado e da violência descontrolada, o candidato de esquerda López Obrador saltou de 42% para 48% nas intenções de voto, entre fevereiro e abril, e revela a possibilidade de uma primeira histórica vitória da esquerda nas eleições de julho.

Antes de um fim de ciclo, portanto, o que há é indefinição quanto à conjuntura para os próximos períodos. Novos golpes de Estado, aprofundamento do golpe no Brasil ou seu rechaço popular, resultados eleitorais em países decisivos como o México; nos próximos dois anos o continente estará jogando os dados para superar os impasses da atualidade.

Por outro lado, sem dúvidas que, como há alguns anos já afirmava o cubano Roberto Regalado, o imperialismo não está disposto a tolerar quaisquer governos de esquerda. E, pelo que ficou claro nesta década, a estratégia progressista, de conciliação de classes e mudanças lentas via políticas públicas, esta sim se encontra esgotada.

 

* Daniel Valença é militante do PT e professor do curso de direito na Universidade Federal Rural do Semiárido

 

Fonte: Página 13, n. 186, mai. 2018

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