Por Raquel Mirian (*) e Mateus Santos (**)

No meio de uma confluência de crises (institucional, sanitária e econômica), o Brasil vive um dos cenários mais perigosos e complexos das últimas décadas, concentrando experiências políticas imediatas de consenso mas também de fracassos institucionais que desestabilizou a concretude das conquistas materiais, forçando as camadas acadêmicas e não-acadêmicas  a tentarem explicar sistematicamente a realidade desesperadora que o Brasil se encontrava. Esse ciclo de compreensão fenomenológica das estruturas de experiência daquilo que é perceptível conjunturalmente e aquilo que  pode vir a acontecer porque faz parte do jogo político mas que dispõe de cortinas verticais capazes de influenciar os acontecimentos a não se suceder pela intencionalidade humana, conceituaremos de fenomenologia política.

Num contexto em que constrangimentos aos poderes e a banalização das perdas humanas são traduzidas em política de governo, uma possível ruptura com a (des)ordem política inaugurada em 2016 parece não ser meramente teoria da conspiração, traduzidas em discursos e práticas de figuras públicas. Neste mesmo quadro político, setores da coalizão conservadora se deslocaram da esfera governista para se situar num campo de oposição tática ao Palácio do Planalto. Em outra via, um segmento do chamado “campo progressista” deu segmento ao afastamento iniciado em 2018, na tentativa de consolidação de outro projeto político para além daquele liderado pelo Partido dos Trabalhadores (PT).

As duas movimentações citadas anteriormente tem um ponto de encontro: esforços por se colocarem enquanto uma terceira-via política. Esta que foi uma aspiração de nomes mais antigos ou figuras já desaparecidas do cenário político nacional, jamais se concretizou durante vinte-quatro anos de polarização entre PT e PSDB. Em 2018, Jair Messias Bolsonaro, atual presidente, encerrou aquele enfrentamento entre petistas e tucanos, porém, manteve um alto-nível de polarização, ocupando não somente o espaço dos PSDBistas, do ponto de vista eleitoral, mas também angariando parcela de outros eleitorados.

No processo de constituição de uma alternativa, palavras e ações parecem estabelecer grande sintonia. Seja na grande imprensa, em setores da academia ou mesmo na visão de figuras políticas, uma concepção de que há um enfrentamento de supostos extremos, o bolsonarismo e o petismo (lulopetismo, lulismo ou termos outros), ganhou algum espaço no debate político e no horizonte de quem almeja, conforme suas próprias concepções, reconstruir um centro político. Tal narrativa encontra alguma vitalidade tanto entre essa direita desgarrada de Bolsonaro como também nesse campo mais de centro-esquerda. Diante disso, buscaremos brevemente analisar estas construções, enfatizando como o uso dos conceitos, ou melhor, suas apropriações e ressignificações, no campo político, podem fortalecer ou fragilizar propostas de entendimento da crise política brasileira. Para além do lulismo e do bolsonarismo, faremos uso também de outro muito comum: populismo.

A vulgarização do Populismo.

Reinhart Koselleck, historiador alemão, atenta para a importância da História dos Conceitos e suas relações com as demais esferas da vida-humana. Para este, existe uma relação complexa, marcada pelo papel dos conceitos na formação social e na “unidade de ação política” e, por outro lado, como estes dois elementos nos ajudam a construir concepções e definições acerca das mais diversas questões que permeiam a vida humana. Ao compreender o tempo histórico enquanto parte de uma ligação profunda entre passado (experiência) e o futuro (horizonte de expectativa), determinados conceitos podem dizer muito mais sobre um determinado horizonte de que propriamente se restringir ao aprendizado ou a compreensão de um fenômeno.

O primeiro conceito em questão, servido de trampolim entre diferentes temporalidades e momentos da história política brasileira, é o populismo. Um longo debate historiográfico já foi realizado sobre a sua aplicação e pertinência para o desenvolvimento brasileiro entre 1945 e 1964. Para René Armand Dreyfuss (1981), importante nome nos estudos sobre o golpe de 1964, este conceito é compreendido como uma fase de estabelecimento de uma hegemonia burguesa, numa síntese entre “a limitada convergência de classe no poder, o corporativismo associativo e o autoritarismo do Estado Novo”. Este processo político no Brasil seria marcado por, dentre outras coisas, pelo “paternalismo, cartorialismo e o clientelismo”.

Uma parcela importante da historiografia brasileira sobre o assunto diverge academicamente sobre o uso deste termo, mesmo para o período em questão. Autores como Ângela de Castro Gomes e Jorge Ferreira, aos seus modos, apresentam algumas limitações do termo “populismo” para designar a experiência histórica do pós-guerra. Em linhas gerais, do ponto de vista acadêmico, as críticas ao Populismo residiram especialmente em sua concepção sobre o relacionamento entre Estado, capital e trabalho. Ao se colocar enquanto um intermediário no conflito de classes, a concepção populista enxergou, de certa maneira, a partir das permanências do corporativismo, um certo enquadramento dos trabalhadores. Em outras palavras a constituição de uma estrutura de poder capaz de atenuar os conflitos de classe durante quase duas décadas, reflexo de um sistema composto pelo forte apelo dos governantes aos segmentos mais populares.

Gomes (2002), ao propor a categoria trabalhismo, enxergou outro tipo de relacionamento entre Estado e trabalho. Ao fazer referência às legislações trabalhistas do período Vargas, esta autora vê, em primeiro lugar, as relações entre direitos sociais e constituição da cidadania, com destaque para o papel dos direitos de trabalho. Ao que se chamou de trabalhismo corresponderia, portanto, a um movimento não de concessão de direitos por parte do Governo Vargas, mas uma resposta frente às pressões sociais, contando com participação dos trabalhadores neste processo.

Opondo os conceitos de Democracia e Populismo, Jorge Ferreira (2006) enxergou neste último conceito uma leitura que enxergaria um papel de um Estado forte, instituições frágeis e uma sociedade que supostamente seria incapaz de se manifestar. Ao defender o papel dos partidos e da presença da sociedade frente às questões que permearam o pós-Guerra, este autor considera o conceito de Populismo enquanto um aspecto pejorativo para a designação da trajetória brasileira daquele período. Apesar de fazer uso de uma crítica pesada ao termo, a presença de um debate político que dividiu diferentes segmentos da historiografia brasileira demonstra como este conceito ainda é vivo e, como tal, deve passar pelo crivo daqueles que teorizaram e formularam sobre o assunto.

Conforme apresentado por Felipe Demier (2002), o conceito de Populismo, portanto, recebeu diferentes tratos pela historiografia brasileira nas últimas décadas. Ao que parece uma espécie de um debate entre dois extremos, ganha contornos mais complexos ao também serem identificados historiadores que revisitam tal conceito sem desconhecer sua importância, isto é, não negam o seu uso, mas fazem reparações necessárias de acordo com o desenvolvimento dos estudos sobre a História Política, a História Social do Trabalho e demais vertentes que atuam nas discussões sobre o pós-1930 e o pós-Guerra no país.

Contudo, este se tornou um conceito que foi além do uso e dos debates dos historiadores e dos cientistas políticos, alcançando a mídia e parcela da opinião pública. Designava-se como populista todo e qualquer regime que supostamente fazia uso do carisma de seu líder e da sua capacidade de manobra frente as massas. Nesta visão, inúmeros presidentes brasileiros foram enquadrados num modelo que desconsidera variáveis como ideologia, conjuntura, relação das forças políticas com a sociedade e tantas outras questões que são de fundamental importância para a compreensão de um determinado contexto.

Isso porque o populismo ou (os) populismos, visto que não existe uma teoria geral dessa abordagem na literatura das ciências sociais, se movimenta acriticamente sem um conteúdo específico, favorecendo o surgimento de diversas figuras paternalistas com articulação voltada para o populismo. Nesse sentido, as democracias são um meio facilitador para o surgimento dos populismos, que se categoriza em momentos específicos da construção do Estado democrático, sendo o período eleitoral e o período governamental, que definirão o estilo populista do político. Como Rosanvallon (2011) classificou a tipologia populista em – De governo; De oposição; De denúncia, enquadrando as formas das figuras políticas nesses três tipos de constituição.

O Populismo emergiu como uma ferramenta horizontal explicativa para categorizar a atuação de governos eleitos no espectro esquerdista, principalmente nos períodos geopolíticos eleitorais da América Latina que se concentrava por figuras políticas de esquerda alcançando as vitórias eleitorais, como no Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai, Venezuela e tantos outros. Entretanto, como todo projeto político sem uma perspectiva estrutural tem sua temporalidade de duração na história, o populismo distanciou-se dessa singularidade explicativa dos fenômenos da esquerda, passando a interpretar também, as articulações políticas e vitórias conservadoras das forças de direita e extrema direita que há algum tempo já vinha se consolidando na América Latina, com um discurso anti-establishment, originando o Populismo de direita, a exemplo de Trump nos Estados Unidos, Jean-Luc Mélenchon na França, Nigel Farage na Inglaterra e Bolsonaro no Brasil – Por isso que se pontua a necessidade de uma reconstrução internacionalista dos projetos políticos na América Latina.

Um ponto crucial para se compreender o Populismo de direita é a sua nova forma de se fazer política, renascendo as velhas práticas e moralidades mas também fortalecendo o fenômeno de pós-verdade que não é específico do campo político mas que se tornou um dos instrumentos da direita populista para  o eleitorado que se denomina “isento ou em dúvida”, essa gama de pessoas que não conseguem se posicionar criticamente no meio da divisão social, não é absorvida pela esquerda, a partir dos processos de diálogo e conscientização. É esse eleitorado que o populismo de direita conseguiu adentrar, e encontrou nele uma esfera aberta para as narrativas e políticas da direita instrumentalizadas nas fake news.

Nesse contexto, é importante pensar o estilo de pessoas que são seguidores populistas, tanto para compreender as necessidades desse segmento, como para analisar o perfil de base social que se sentem atraídas por tais discursos e práticas populistas. ” De qualquer maneira, seja de esquerda, seja de direita, decisivamente o populismo se constitui sempre em torno de um corte. Em certo momento, o sistema institucional vigente entra em obsolescência e mostra sua incapacidade de absorver as novas demandas sociais pelas vias tradicionais; em decorrência disso, tais demandas tendem a se aglutinar fora do sistema, num ponto de ruptura com o sistema. É o corte populista ” (LACLAU, 2013).

Lulismo: entre o conceito histórico e a imagem do populismo

A primeira vista, alguém que desconheça o trabalho de André Singer (2012) (ou mesmo outras produções acadêmicas acerca do período histórico dos governos petistas, tomará o Lulismo enquanto uma expressão de uma seita ou uma relação política baseada na superestimação de um indivíduo. Longe disso, o Lulismo representou (e ainda representa) um dos fenômenos políticos mais importantes do século XXI no Brasil, sendo um conceito fundamental para a compreensão não somente de uma tendência eleitoral, mas da própria organização das forças políticas no contexto de auge e crise da Nova República.

Identificado como uma tendência de “deslocamento silencioso” da base social apoiadora do presidente Lula, especialmente a partir do seu processo de eleição em 2006, este conceito representou uma síntese de um complexo fenômeno que caracterizou a organização política brasileira nos últimos tempos. O sentimento de uma identificação coletiva em torno do governo petista por parte de setores mais favorecidos com os programas de transferência de renda, expansão dos serviços sociais e de infraestrutura indicou a emergência de uma corrente política heterogênea, não movida por uma ideologia clara, mas, a partir de suas consciências, correspondendo e construindo politicamente uma situação política que lhe parecia favorável.

A natureza complexa e diversa deste processo foi bem apresentado por Patrícia Valim (2020), ao sugerir a pluralidade deste fenômeno, sobretudo quando se toma uma variável regional para a sua compreensão. Mas o lulismo, em si, não apenas corresponderia a um tipo possível de relação entre o presidente Luiz Inácio e seus apoiadores. Conforme avança em suas análises, Singer sugere como este conceito também pode ser tomado como um elemento caracterizador da relação dessa força política com o próprio Estado, especialmente diante das adversidades estruturais impostas a qualquer projeto político que pretenda promover alterações sociais.

Acontece que o Lulismo foi se norteando em contradições que chegaram a confundir a cabeça dos eleitores, não só dos seus militantes de praxes, mas também daqueles que não possuíam ideologia definida. Por ser um fenômeno político mais difuso e plural do que os partidos políticos, o Lulismo se constituiu por segmentos importantes do povo brasileiro que não foram alcançados pelo petismo, ou por quaisquer organização partidária, agregando: Os adeptos, conhecidos como os filiados e membros do partido dos trabalhadores, os simpatizantes, que são aqueles que se declaram favoráveis às políticas do PT, e chegam a votar no partido nos momentos eleitorais, mas que permanecem de fora da estrutura partidária do partido, e os setores propagandistas, aqueles indivíduos de centro que atuam politicamente como um movimento rebanho- Caso este, das figuras de quadros e do coronelismo que apoiam institucionalmente aqueles que estiverem na dianteira do poder, e que hoje se colocam como “a solução” da  polarização política.

Os motivos de apoiarem o Lulismo são assaz, desde a sua atmosfera conciliatória à suas políticas públicas que reduziram a pobreza e a miséria da população brasileira. Regressando a Singer, a base lulista se disseminou do realinhamento político- ideológico, social, econômico e classista de um momento importante da história do Brasil em 2006, visto pelo distanciamento de Lula das classes médias, em detrimento do fortalecimento do seu laço de solidariedade e apadrinhamento com a esquerda dos mais pobres. O pensamento político brasileiro incessantemente se alinha às ideologias e concepções sociais conservadoras que impossibilitam as classes baixas de se deslocar no âmbito econômico e social das clivagens de posição de classe, onde toda a nossa construção histórica do país foi marcada a ferro por essa despolitização e ao mesmo tempo pela esperança de renovação.

Nesse cenário, o padrão de eleitores lulistas se reconfigurou, e muito se atrelou ao novo entendimento das classes subproletarizadas acerca da política brasileira, sem perspectivas de estruturação familiar, concentrando-se nas ondas sub humanas do liberalismo. Desde então, a classe média que apoiou o Lula nas eleições anteriores a 2006, se encontrou solidificada em 2018 ao lado do setor neoliberal da burguesia industrial fascista. Mas, nesse contexto, como explicar a natureza do ramo dos mais pobres que em 2006 era lulista e em 2018 tornou-se bolsonarista? Significa afirmar que o Lulismo converteu-se em Bolsonarismo cujo novo panorama se corporifica pela  desdemocratização política de desideologização da esquerda brasileira?

BOLSONARISMO: um populismo de direita?

Maurice Duverger nos mostrou que fenômenos políticos e as figuras políticas de quadros possuem naturezas diversas, inicialmente com uma estrutura religiosa  arcaica à base de comitês descentralizados e com militantes pouco numerosos e não muito apaixonados, que estão sendo ultrapassados pelas organizações modernas à base de células e milícias organizadas e centralizadas que sobrepõem as massas fanáticas, com uma disciplina paramilitar- fenômeno de Segurança Pública que responde a um populismo de direita concentrado no retorno das figuras religiosas e militarizadas, comprovando o fato de que, no Brasil, esse perfil de política nunca foi superado, na verdade foi um dos critério dos mais jovens e pobres para eleger o Bolsonaro na esfera de pós política. Assim, ultimamente se tornou comum a comparação dos dois fenômenos que se estruturam no personalismo dos dois presidentes. Faz-se-á distinção, pela desmobilização política do lulismo, originado por tática da conciliação que manobrou as oportunidades de radicalizar o sistema político e remodelar o meio de produção, o Lulismo perdeu muito espaço e sua parcela de apoiadores. Mas, não se pode somente culpar o Lulopetismo pela organização das forças conservadoras que já estavam em campo desde as eleições de 2006 para tirar o PT do jogo político. É comum se ver, tanto a direita quanto setores da esquerda comparar o Lulismo com o Bolsonarismo, colocando um fenômeno desmobilizante que está mais à esquerda na mesma esfera e linha política de um movimento autodeclarado de fascistas militarizados que ocupam o Governo hoje.

O bolsonarismo é um fenômeno reacionário que se colocou como purificador da velha política, contestando a realidade, incentivando as teorias da ferradura, ressurgindo os princípios tradicionais de uma sociedade desagregadora, com a moralidade cívica pautada por frentes masculinas e ditames da caçada as mulheres, ascendentes da colonização esdrúxula e colossal racista que afrouxou a polarização do petismo com o peemedebismo, se desenvolvendo como um fenômeno identitário de dois setores da população brasileira:

1) Se fez presente nos espaços que se encontrava a população menos informada, com alto grau de desinteresse pela política e escassas de ação consciente de figuras e/ou movimentos da esquerda, que estavam acostumados ao paternalismo forte e assistencialista (Theodor Adorno; 1977). Essa esfera social que um dia foi lulista, se encontrava desagregada do Estado com sentimento de busca por justiça social  e mudanças nas diretrizes reformistas, que usualmente em períodos eleitorais votam em figuras que se apresentam como bom samaritano salvador da polarização, e que trivialmente estejam liderando as pesquisas de opinião pública. No período eleitoral, o marketing político nos meios de comunicação, a quantidade de pessoas com visuais específicos de candidatos assim como as manifestações em massa nas mídias sociais são instrumentos potencializantes que influenciam os setores populares menos favorecidos, que se apegaram ao bolsonarismo em 2018 por este fenômeno corresponder suas narrativas e anseios advindos da desmobilização da esquerda, e não unicamente do lulopetismo. É esse mesmo setor da população que hoje se arrepende pelo voto no Bolsonaro.

2) O bolsonarismo se tornou a identidade das classes altas e médias que se identificam com o capitalismo financeiro, e possuem espaço em soberanias despóticas, zelam pelos valores tradicionais do patriarcalismo, nacionalismo e acreditam na supremacia branca como expoente definidor da luta de classes, ou seja, esta classe que apoiou bolsonaro, continua ali como os 30% que gerenciam as maiores riquezas capitalistas do Brasil, produzindo subempregos precarizantes com exploração massiva da sua mão de obra, e principalmente, engendram hoje o fascismo que liquida a população negra e periférica.

Pela tipologia de Barr (2009) sobre os populismos, três critérios são avaliados para enquadrar o político na conjectura de populista: 1) apelo Anti-establishment (vínculo cidadão versus governo) 2) Localização do ator  político (Outsider\Maverick\Insider) 3) apelo politico (Populismo). Com enfoque na primeira categoria, o Bolsonaro se posicionou como anti- establishment durante toda sua trajetória política, embora não deixasse de viver dela, sempre deixou claro que não concordava com as instituições, fortaleceu o gabinete do ódio quando já eleito, embora tenha concorrido pelo PSL, e recebido apoio dos partidos de direita, o discurso do atual presidente se mostra evidentemente aversivo a existência dos partidos políticos como também, proferiu alternadas vezes sua vontade de criminalizar os movimentos sociais e partidos de oposição. Mesmo organizando um partido a sua face, que ainda não possui valores jurídicos, o bolsonaro legitima sua afeição ao anti-establishment.

Em seguida, o presidente se localiza na esfera organizativa como um Maverick, que na definição de Barr, significa “ um político que aumenta a proeminência dentro de um partido estabelecido e competitivo, mas quer abandonar sua afiliação para competir como independente ou em associação com um grupo de fora, ou radicalmente reorganiza seu próprio partido” , e por fim, o Bolsonaro se enquadra como populista por fomentar uma classe social não institucionalizada que em certos momentos, principalmente antes de exercer o cargo de presidente, possuía apoio em todas as bases sociais. O seu discurso populista além de chegar facilmente e ser simplista, do ponto de vista de ser antidialético, conseguia agregar e formar opiniões dos indivíduos que não compreendiam a conjuntura do momento e os efeitos jurídicos e políticos que norteavam o cenário político.

O discurso anti sistêmico e antidemocrático, capaz de mobilizar o já referido segmento populacional que o apoia, fez de Bolsonaro uma figura detentora de um canal de interlocução distinto daquele que predominou nos últimos anos na política brasileira. Sobretudo em relação aos mais pobres, os canais de sustentação do bolsonarismo residem em estruturas de reprodução do conservadorismo, do apelo à família e a uma ordem com base em princípios patriarcais. Numa relação que expõe uma nova práxis política, quase inspirada por uma teleologia genérica, a sugestão do bolsonarismo enquanto um populismo de direita parece viável à muitos que se debruçam em ler politicamente esta conjuntura, sejam historiadores, sejam setores fora da academia.

A precisão conceitual, porém, pode pedir alguma cautela. Apesar de ter suas origens sob uma crise econômica, política, social e de outras tantas facetas, em nenhum momento o bolsonarismo pode ser interpretado como um novo pacto social, capaz de estabelecer uma conciliação entre as elites e os trabalhadores. Muito pelo contrário, a política do Planalto se baseia num projeto de poder unilateral, sustentando o aprofundamento do neoliberalismo e o fechamento de todas as portas de ascensão dos mais pobres. Sob um nacionalismo que vincula a formação brasileira ao discurso ocidentalista, o bolsonarismo aponta para o aprofundamento das desigualdades de classe, raça e gênero como uma saída para a sustentação dos segmentos econômicos que optam pela constituição de maiores laços com o capital financeiro.

Considerações Finais

Para aqueles que almejam constituir uma terceira-via política, apontando a polarização como um dos maiores problemas da atual conjuntura brasileira, lulismo e bolsonarismo se tornaram irmãos, verdadeiros filhos do populismo. A partir de uma concepção que enxerga nesse conceito todo e qualquer esforço pela recriação de laços entre um determinado governo (em alguns casos, a própria estrutura do Estado) e a sociedade, discursos que interpretam estes fenômenos políticos sob uma perspectiva quase que religiosa se caracterizaram a aparecer com maior força nos últimos tempos, especialmente diante da gravíssima crise vivida pelo Brasil.

Uma reflexão com maior teor científico, porém, expõe as fragilidades dessas percepções. Em primeiro lugar, o populismo, em si, demonstra ser um conceito fundamental para um debate historiográfico e da ciência política sobre as relações entre Estado, capital e Trabalho após a Revolução de 1930. Mobilizando uma diversidade de autores, inúmeras polêmicas foram desenvolvidas ao longo de décadas, sobretudo quando se considera as variações na aplicação do conceito, seu rechaço por uma corrente historiográfica, mas também o seu uso a partir de outras possibilidades. A vulgarização do populismo, em alguma medida, incentiva ao seu retorno, ao menos por parte dos pesquisadores, pois, de certo ponto, compreender os usos do passado no presente é uma tarefa de quem precisa também avaliar a forma como os acontecimentos e processos são percebidos.

Pela destruição das fronteiras conceituais, Lulismo e Bolsonarismo foram tachados de populismo. O primeiro movimento, muito bem delimitado por André Singer, expõe, em verdade, um novo tipo de relacionamento entre os setores sociais que mais se beneficiaram durante o primeiro mandato do presidente Lula e sua figura. No que pareceu ser uma transição silenciosa, o petista conseguiu adquirir uma importante base de apoio político, capaz de sustentar não somente o seu mandato, mas também garantir vitórias para sua sucessora e se manter protagonista na luta contra o bolsonarismo fascista, não é a toa que o poder de mobilização do PT é capaz de ser majoritário em qualquer disputa de espaço político. Logo, os distanciamentos entre lulismo e petismo evidenciaram um fenômeno político que possui suas próprias marcas, sendo um elemento fundamental para o entendimento dos rumos da República Brasileira nas últimas duas décadas, trajadas por Partidarismo, Desideologização e Ultra Política.

O bolsonarismo então, se sustenta pela desconcentração estratégica do populismo, radicalizando as classes médias que antes eram inertes e evitavam as ruas, e hoje disputa esse espaço não hegemônico. Diferente do lulismo, o bolsonarismo possui uma ideologia com autoafirmação de radicalidade, mesmo que esta seja uma radicalidade pautada na desigualdade social e no antagonismo de forças e oportunidades presentes. A base bolsonarista é altamente financiada e gerida com capital financeiro empresarial que responde aos anseios da supremacia branca, colocada em prática hoje, por essa elite. O bolsonarismo, por sua vez, também expõe um novo relacionamento entre Estado, governo e sociedade. Contudo, suas características apresentam graus de distanciamento entre os dois conceitos trabalhados ao longo desse texto, apesar das limitações e origens mais profundas residirem num quadro de crise, não há vontade política e nem condições claras para um estabelecimento de uma paz social a partir da linha bolsonarista, nem tampouco um reformismo que, ainda fraco, traga benefícios visíveis para os setores mais pobres.

Muito pelo contrário. Enquanto força política da atualidade, o bolsonarismo organiza um desmonte das políticas sociais e de toda e qualquer estrutura estatal que promova conciliação entre Capital e Trabalho. Nessa batalha que move a história, o Planalto tem seu lado e também sua singularidade diante da trajetória do Brasil. O roteiro bolsonarista já estava traçado desde a consolidação do golpe de 2016, as elites deixaram de mascarar o despojo anti social que ronda o Brasil desde 1500, as forças de esquerda não só se sentiram confortáveis com o lulismo como também, se tornaram críticos dos governos petistas quando achou conveniente, diante os ataques da classe dominante ao PT. De fato, o PT protagonizou inúmeros eventos políticos, positivos e negativos, mas a resposta ao bolsonarismo se faz nas ruas, denunciando as irresponsabilidades do atual governo com todas as pautas populares e se organizando politicamente dentro do maior partido da América Latina.

(*) Raquel Mirian é estudante de ciências sociais- Univasf e secretária de formação politica da executiva do PT-Petrolina.

(**) Mateus Santos é mestrando em História Social – UFBA e militante do PT- Bahia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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