Por Cristiano Cabral (*)

(texto escrito no dia 15 de novembro)

Há um minuto encerrou o horário de votação em todo país e amanhã se reunirá o Diretório Nacional do PT. O Brasil possui 5.568 municípios. Em apenas 95 cidades, poderá haver segundo turno, pois possuem mais de 200 mil eleitores. Isso significa que, neste momento, em 98,2 % das cidades brasileiras está encerrado o processo eleitoral de 2020, embora importantes combates eleitorais devem ser travados até 29 de novembro.

O PT participou do processo eleitoral em 2.902 cidades com chapas proporcionais, com 1.256 candidaturas às prefeituras, 1.292 à vice-prefeitura e 28.900 candidaturas à vereança. Ou seja, em mais da metade dos municípios brasileiros, teve mobilização da nação petista em defesa de suas candidaturas. Cada uma delas, agregou militantes e simpatizantes na defesa do voto petista. A militância petista, aguerridamente, impulsionou a realização de passeatas, piseiros, visitas nas casas da população, banquinhas nas feiras e centros das cidades, comícios, organização de comitês nos bairros, entre outras ações nas ruas de grande parte de um país que se encontra sob comando de uma coalizão golpista, genocida e executora de um programa ultraneoliberal.

Finda a votação em quase todo país, qual mensagem as direções nacional, estaduais e municipais darão à nação petista mobilizada? Voltar para casa e acompanhar, pela internet, os pronunciamentos da oposição no parlamento e aguardar o anúncio (se houver) do calendário eleitoral de 2022 ou manter a mobilização de rua, construída durante o processo eleitoral sob comando partidário, e canalizá-la para derrubar o governo Bolsonaro?

O Governo Bolsonaro enfrenta novo momento de crise após relativa estabilidade e até certo fortalecimento nos últimos meses. Frise-se que as ilusões na constituição de uma Frente Ampla e a demora em adotar a consigna Fora Bolsonaro, constituíram erros graves que contribuíram para a relativa estabilidade e fortalecimento do presidente, bem como para a organização de sucessivos movimentos semanais nas ruas de sua base no clamor por “intervenção militar”, etc., enquanto a direção política da classe trabalhadora, seja partidária ou social, apostava na oposição parlamentar.

Por outro lado, mesmo com a pandemia, nas condições reais da massa da classe trabalhadora o que se viu, com o passar do tempo, foi a continuidade das atividades dos trabalhadores pela sobrevivência, ficando, porém, “órfãos” de sua vanguarda organizativa no enfrentamento de rua, seja às hordas fascistas, seja à “boiada” de projetos de retiradas de direitos. Iniciado o calendário eleitoral, contudo, eis que a mesma direção política sai às ruas para pedir votos, mesmo sem ter sido superada a crise pandêmica. Resultado: não raro, durante o processo eleitoral, a recepção do trabalhador/eleitor a esta postura foi similar à narrada por Bezerra da Silva em seu celebre samba sobre oportunismo eleitoral.

Independente das opiniões sobre a atitude dirigente no passado recente, hoje, em 15 de novembro de 2020 às 17h01min, milhares de petistas (filiados ou simpatizantes) estão, com algum grau de organização, nas ruas do país. E como “será o amanhã”? Entre as organizações sindicais, sociais e partidárias da esquerda brasileira, quem está melhor posicionado neste momento para a luta, no aqui e agora, contra o governo Bolsonaro em termos de mobilização social?

O anúncio presidencial de desprezo pela vacina contra COVID-19 e manutenção da agenda neoliberal indica que manter (e tentar aumentar) a mobilização trata-se, literalmente, de questão de vida ou morte.

Assim, oxalá as direções partidárias petistas, em todos os níveis, a começar pelo Diretório Nacional amanhã, combinem a luta eleitoral no segundo turno, onde houver, com a manutenção da mobilização militante nas ruas, no resto do país, pelo Fora Bolsonaro e por um Brasil Democrático, Popular e Socialista. Se não houver tal convocação dirigente, que a sempre aguerrida nação petista, mais uma vez supere as debilidades dirigentes, e “faça com suas mãos o que te diz respeito”.

Se nem a direção e/ou a nação petista militante persistir e aumentar a mobilização social, finalizaremos o fatídico ano de 2020 com, mais uma vez, a perda de outra “janela histórica”, no mesmo ano, para derrubada do governo Bolsonaro e abertura de um novo ciclo no país. Com tanto “tempo passando na janela”, até Carolina, com seus olhos fundos, certamente, gritaria a plenos pulmões: Fica mobilizado, PT!

(*) Cristiano Cabral é militante petista.


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

 

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